Secretário diz ver avanços na investigação de chacinas em SP

Fernando Grella Vieira, em foto de arquivo (BBC)
Image caption Secretário afirmou que 'não tolerará' abusos policiais

A polícia avançou nas investigações das chacinas ocorridas durante a onda de violência em São Paulo, afirmou nesta terça-feira o secretário estadual de Segurança Pública, Fernando Grella Vieira.

A polícia foi alvo de várias críticas por ter esclarecido, até janeiro deste ano, apenas uma das 24 chacinas registradas em 2012 na capital e na Grande São Paulo, com saldo de 80 mortos.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, foram detidos nove policiais envolvidos em uma chacina no Campo Limpo (zona sul de SP), quatro pela morte de dois jovens no Tatuapé (zona leste) e outros quatro por uma chacina em Carapicuíba.

Em entrevista coletiva à imprensa estrangeira, Grella afirmou que "não tolerará" abusos policiais.

"Estamos investigando (a ação de grupos de extermínio em parte dos crimes). Nenhuma hipótese pode ser descartada. Pode demorar 3, 6 meses; depende de várias provas, são fatos clandestinos. Não vamos medir esforços (para punir desvios de conduta policial). Não toleramos abusos."

O grupo de direitos humanos Conectas considerou a fala do secretário "uma mudança radical para o bem" em relação à gestão do antecessor de Grella, Antonio Ferreira Pinto, período em que ativistas criticavam a ausência de censura pública a casos de violência policial.

"Isso renova as esperanças de que abusos (policiais) não serão aceitos", disse Marcos Fuchs, diretor-adjunto da Conectas.

Onda de violência

Grella assumiu o cargo em novembro passado, no ápice de uma onda de violência envolvendo policiais e criminosos que elevou em 34% o índice de homicídios na capital paulista e em 15% no estado de São Paulo em comparação com 2011 - no total, houve 5.206 vítimas.

Até janeiro deste ano, foram seis meses consecutivos de aumento nos casos de homicídios dolosos, em comparação com os mesmos meses dos anos anteriores.

Desde então, Grella trocou diretorias policiais - colocando, segundo ele, "gente afinada" com a ideia de que o "exercício da política de segurança pública não é incompatível com o respeito aos direitos humanos" -, determinou que o atendimento a vítimas de crimes não pode ser feito por policiais (para preservar a cena do crime) e criou um centro integrado de inteligência entre PM e Polícia Civil.

Também eliminou o conceito de "resistência seguida de morte" para pessoas mortas em confronto com a polícia.

"Quando falamos em resistência seguida de morte, estamos prejulgando (que o morto atacou a polícia). Eliminando essa expressão eliminamos o pré-julgamento. Não dizemos nem que houve resistência, nem que houve homicídio", diz. "É cedo para avaliação segura para saber os efeitos da medida, mas os indicativos são positivos."

Medidas como o fortalecimento das investigações e dos serviços de inteligência foram elogiadas, mas retrocessos continuam, tanto pelos elevados níveis de homicídios quanto por críticas à violência policial.

Em janeiro, PMs foram acusados de disparar bombas de gás lacrimogêneo na favela de Paraisópolis, deixando uma jovem cega de um olho.

Grella afirmou que aguarda-se o depoimento da jovem para esclarecer o episódio. "Não temos interesse em que essa situação não seja esclarecida. Não queremos ações desse tipo."

Ele disse também que prossegue a investigação sobre o fato de que algumas vítimas da onda de violência de 2012 tiveram seus antecedentes acessados pouco antes de sua morte - indicando que foram mortos por ação policial.

Copa e Cracolândia

Quanto aos preparativos para a Copa do Mundo de 2014, o secretário afirmou estar "tranquilo pela capacidade (policial) em receber" os visitantes do evento, citando a experiência da polícia em controlar multidões em grandes eventos paulistanos como Fórmula 1, Réveillon da Paulista, Parada Gay e Virada Cultural.

Segundo ele, já foi definido um local para estabelecer um "centro regional de comando de controle", onde tropas estaduais e federais atuarão em conjunto para garantir a segurança durante a Copa.

Sobre a região paulistana chamada de Cracolândia, o secretário afirmou que, com a implementação de um plantão jurídico no Cratod (centro de atendimento para dependentes químicos), para realizar internações voluntárias ou compulsórias, "a epidemia do crack passou a ser tratada como um problema de justiça, assistência social e saúde, de forma real e responsável".

A assessoria do Palácio dos Bandeirantes entre 21 de janeiro e 8 de março, 2438 atendimentos e 352 internações, sendo 326 voluntárias e 26 involuntárias.

Ele considerou ultrapassada a técnica - usada sem sucesso pela polícia - de coibir os usuários e os pequenos traficantes na cracolândia.

"(A ação policial para coibir os viciados) é uma estratégia superada. Para interromper o ciclo, (vimos que) a ação policial tinha que ser contra o traficante mais elevado."

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