Conclave surpreende e elege argentino como 1º papa latino-americano

Jorge Bergoglio faz primeira aparição como papa Francisco 1 (foto: Getty Images)
Image caption Jorge Bergoglio faz primeira aparição como papa Francisco 1 no Vaticano

Habemus papa e ele é argentino. Após dois dias de conclave e cinco rodadas de votação, os 115 cardeais eleitores reunidos na Capela Sistina elegeram Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, como novo pontífice da Igreja Católica.

Ele usará o nome papal de Francisco. Na sua primeira aparição como papa, na varanda central da Basílica de São Pedro, Bergoglio mostrou ter bom humor ao dizer aos fiéis, em tom de brincadeira, que "é dever do conclave dar um bispo a Roma... parece que meus irmãos cardeais foram quase até o fim do mundo (para fazer isso)".

O papa agradeceu a seu antecessor, Bento 16, pelo "trabalho para o bem da Igreja" e pediu que o mundo entre "em um novo caminho de amor e fraternidade".

Francisco pediu também que os fiéis rezassem pelo seu papado e abençoou a multidão.

O eleito foi anunciado oficialmente pelo cardeal protodiácono - o cardeal mais velho da ordem dos cardeais-diáconos - , o francês Jean-Louis Tauran, na mesma varanda central da Basílica de São Pedro.

Francisco é o primeiro papa latino-americano da história. É também o primeiro papa nascido no Hemisfério Sul e o primeiro vindo da Ordem dos Jesuítas.

Rival de Ratzinger em 2005

Bergoglio tem 76 anos, nasceu em 17 de dezembro de 1936 em Buenos Aires. Pertence à ordem dos Jesuítas, e teria sido o principal rival de Joseph Ratzinger no conclave anterior, em 2005.

Foi ordenado padre em 1969, quando estudava teologia na Faculdade de San Miguel. Foi reitor da Faculdade de Filosofia e Teologia de San Miguel, de 180 a 1986. Foi apontado bispo de Auca em 1992 e arcebispo adjunto de Buenos Aires em 1997.

De 2005 a 2011, foi presidente da Conferência Nacional dos Bispos Argentinos. A nomeação de cardeal pelo papa João Paulo 2º aconteceu em 2001.

Bergoglio ficou conhecido por se recusar a usufruir dos luxos que seus antecessores gozavam. Ele costumava andar de ônibus, cozinhar sua própria comida e visitar favelas regularmente.

Ele também fez esforços para reparar o fato da Igreja não ter se oposto à ditadura argentina (1976-1983). Porém, chegou a ser criticado por ativistas por supostamente ter se omitido em casos específicos de abusos de direitos humanos cometidos por membros do regime.

O então cardeal Bergoglio se destacou por criticar abertamente o governo da presidente Cristina Kirchner, especeialmente em relação à medidas liberais como a instituição do casamento gay e a distribuição gratuita de contraceptivos.

Desafios

Bergoglio terá pela frente o desafio de liderar uma instituição abalada pelo escândalo de abusos sexuais contra menores, alegações de corrupção e pela perda de fiéis.

Seu antecessor, Bento 16, de 85 anos, renunciou após oito anos de papado alegando não ter forças suficientes para lidar com as responsabilidades do posto.

Bento 16 foi elogiado pela forma como lidou com as acusações de abusos sexuais por membros da igreja. Mas organizações de vítimas e analistas dizem temer que os abusos continuem enquanto a instituição não adotar reformas mais profundas, como o relaxamento das regras de celibato.

É esperado do novo pontífice um empenho para agilizar e desburocratizar a estrutura administrativa da Santa Sé. No caso conhecido como Vatileaks, documentos vazados à imprensa por um ex-mordomo de Bento 16, deram início a uma série de denúncias de irregularidades, como corrupção e desvios de fundos no Banco do Vaticano e na Cúria, como é chamado o braço Executivo da Igreja.

Image caption Fumaça branca saindo da chaminé da Capela Sistina sinaliza escolha do novo papa

Essas denúncias foram averiguadas por uma comissão composta por três cardeias, que prepararam um relatório para ser apresentado ao Colégio dos Cardeais, quando este se reuniu, semana passada, nas reuniões pré-conclave.

Este relatório, entretanto, não foi apresentado aos cardeais - que teriam sido informados apenas de forma genérica sobre suas conclusões. Ele será entregue ao novo papa, e pode gerar as primeiras decisões difíceis do início de seu papado.

Outras reformas mais profundas nas regras da Igreja, como permitir o ordenamento de mulheres, dificilmente estarão na agenda do novo papa. Muitos menos temas como casamento gay, aborto, eutanásia ou divórcio.

Um grande desafio será fazer crescer o número de fiéis e reverter a perda destes em vários países-chave como o Brasil. Durante o pontificado de Bento 16 o número de católicos no mundo estagnou, enquanto que outras religiões, inclusive cristãs, como o neopentecostalismo, cresceram.

Em 2005, quando Bento 16 iniciou seu pontificado, o total de católicos, de quase 1,1 bilhão de pessoas, correspondia a 16,8% da população global, segundo a Enciclopédia Cristã Mundial. Em 2010, último dado disponível, o número de católicos passou para 1,17 bilhão, representando os mesmos quase 17% da população mundial.

No Brasil, no início dos anos 70, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mais de 90% da população era católica. Em 2010, esse número caiu para pouco mais de 64%.

É difícil saber como será o estilo de Bergoglio, mas é certo que um papa carismático, movido pelo mesmo espírito missionário de, por exemplo, João Paulo 2º, ou que incrementasse a estratégia de se aproveitar das mídias sociais, iniciada por Bento 16, poderia ajudar neste sentido.

Dois papas

Francisco também será o primeiro papa a liderar a Igreja com o pontífice anterior ainda vivo em quase 600 anos.

É uma situação que poderia causar um certo desconforto para fiéis ou mesmo para o papa, apesar de o agora papa emérito Bento 16 ter oferecido sua "reverência e obediência incondicional" a seu sucessor

Bento 16 está hospedado temporariamente na residência papal de verão em Castel Gandolfo, nas margens do lago Albano, a cerca de 20 quilometros de Roma, aguardando a escolha do novo papa, para depois se mudar em definitivo para um mosteiro no Vaticano, onde pretende levar uma vida dedicada a reflexão e orações.

Mas a exemplo do que ocorreu há 600 anos, há temores de que a mera co-existência de outro papa pudesse criar dúvidas sobre a legitimidade do pontífice sentado no trono de São Pedro.

Dois respeitados teólogos italianos chegaram a fazer um apelo para que Bento 16 voltasse atrás na sua decisão, alegando que o papa não pode renunciar, e que a escolha de um sucessor seria como eleger um impostor, um antipapa.

É possível que mesmo dentro da Igreja alguém tente explorar teorias como essas no caso de o novo papa resolver reverter várias decisões tomadas por Bento 16 ou querer levar a Igreja para rumos totalmente inesperados.

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