Dez anos depois, veteranos do Iraque ainda ‘trazem guerra para casa’

  • 19 março 2013
Funeral | Foto:AP
Image caption Em 2010, em média, 22 veteranos tiraram a sua vida por dia

Por cinco anos, o sargento do Exército americano Dwight Smith fora motivo de orgulho para a sua pátria e sua família.

O jovem, que iniciara a carreira militar em 2006, servira no Iraque nos dois anos seguintes, e no Afeganistão nos dois subsequentes, até obter a condecoração do Coração Púrpura para os feridos ou mortos no campo de batalha.

Até que, dias antes do Natal de 2011, quando visitava a família no Estado de Delaware, o rapaz de então 24 anos perdeu de vez o controle.

Na manhã de 19 de dezembro, testemunhas ouviram quando o Hummer, o veículo-tanque vermelho com vidro fumê que Smith dirigia, atropelou Marsha Lee, de 65 anos, uma senhora ativa e querida na comunidade de Wilmington.

Dizendo que levaria a vítima, que estava gritando e ferida, para o hospital, o veterano colocou a mulher no banco de trás e dirigiu para um bosque das redondezas. O corpo de Marsha foi encontrado horas depois, sem roupas e com a cabeça desfigurada por um objeto cortante – possivelmente uma pedra.

Quando a polícia inspecionou o Hummer de Smith, após ele se entregar às autoridades, encontrou o veículo forrado de manchas de sangue.

Enquanto o soldado aguarda para responder em julgamento a seis acusações graves – incluindo sequestro, homicídio doloso e estupro –, que podem levar à pena de morte, uma carta escrita pelo ex-soldado para o seu pai ofereceu explicações para o incidente.

"Vou ser honesto com você, pai. Matei muitos homens e crianças. Alguns nem fizeram nada para eu matá-los. Alguns outros pediram misericórdia", escreveu Smith. "Eu tenho um problema. Acho que estou viciado em matar."

'Não será a última vez'

Mas nem a comoção causada na pequena cidade pela barbaridade do crime ofuscou a percepção de que Smith não é um caso horripilante de psicopata ou <i>serial killer</i>.

Após o incidente, o pai do soldado, Dwight Smith Sr., disse à imprensa americana que seu filho sofrera ferimentos graves no Afeganistão e que duas vezes quase morrera. Em uma delas, apenas meses antes de matar Marsha, escapou com lesões cerebrais e nunca mais foi o mesmo.

"Esses garotos precisam de mais ajuda do nosso governo quando voltam para casa do campo de batalha", protestou o pai à época. "Esta não é a primeira vez; esta não será a última vez."'

O incidente e as estatísticas alimentam um debate que ganha relevância à medida em que os veteranos da guerra do Iraque – que cumpre dez anos – e do Afeganistão voltam para casa.

É sabido que traumas típicos do campo de batalha, como concussões, lesões cerebrais causadas por pancada direta, movimentos de líquidos internos e mudança de pressão (gerada por exemplo, pela explosão de uma bomba), mesmo traumas psicológicos podem ter efeito sobre a personalidade das pessoas afetadas.

Em janeiro, um estudo de janeiro do Instituto de Medicina da Academia Nacional de Ciências americana diagnosticou nos veteranos das guerras do Iraque e do Afeganistão os mesmos sintomas de uma já conhecida condição batizada de Síndrome do Golfo, em referências aos soldados que lutaram na primeira guerra contra o Iraque em 1991.

O estudo calcula que entre 175 mil e 250 mil soldados, de um total de quase 700 mil que lutaram em 1991, experimentaram pelo menos seis meses de sintomas crônicos como fadiga, mudança de humor e dificuldades cognitivas, problemas de músculo e esqueleto, gastrointestinais, respiratórios e neurológicos.

Extrapolando a estatística sobre a estimativa de que cerca de 2,5 milhões de soldados americanos já passaram pelas duas guerras atuais, os especialistas já falam em mais 600 mil veteranos com problemas mentais graves, que muitas vezes passam desapercebidos.

Sofrendo calado

Mas apesar das manchetes causadas por incidentes como o que envolve o sargento Dwight Smith, as principais vítimas da violência causada por ex-combatentes de guerras são eles próprios.

Em 2010, ano para o qual as estatísticas estão mais completas, em média 22 veteranos tiraram a sua vida por dia – mais de três vezes a ocorrência no resto da sociedade, estimou a agência do governo federal para os veteranos.

As Forças Armadas oferecem serviços médicos, assistência e tratamento de síndrome pós-traumática para os ex-combatentes, mas as entidades que defendem os direitos dos veteranos se queixam da falta de recursos e condições.

Segundo a ONG Veteranos do Iraque e do Afeganistão da América (IAVA), a maior organização do tipo no país, 900 mil veteranos estão com pagamentos de benefícios atrasados, cerca de 250 mil deles, por mais de um ano.

A taxa de desemprego entre os ex-combatentes foi de 9,4% em fevereiro, acima do desemprego geral. "Não estamos mantendo a nossa promessa de cuidar dos nossos veteranos, e isto está virando uma desgraça nacional", escreveu em um post o diretor da organização, Paul Rieckhoff.

"Eles tomaram tiros e improvisaram abrigos em montanhas do Afeganistão, e agora são eles que não conseguem arrumar trabalho?"

Trazendo a guerra para casa

A queixa não passou ao largo do governo do presidente Barack Obama que, apesar dos cortes de gastos das agências federais, pediu ao Congresso um aumento de 40% no financiamento para a agência de veteranos este ano, totalizando US$ 140 bilhões.

O presidente conseguiu aprovação no Congresso para uma legislação que concede isenções fiscais às companhias que contratarem veteranos desempregados ou deficientes.

E com a ajuda da primeira-dama, Michelle Obama, e do vice-presidente, Joe Biden, arregimentou 125 mil postos de trabalho no setor privado para veteranos ou seus cônjuges no ano passado.

As iniciativas têm por finalidade encerrar um círculo violento que, como mostram os suicídios e os eventuais episódios de violência contra outros, não se encerra para os veteranos quando a guerra acaba.

Em fevereiro, um incidente com uma destas iniciativas voltou a recordar os americanos da seriedade dos problemas mentais que atingem os soldados no pós-guerra.

A morte, a tiros, de um dos heróis da guerra do Iraque – o ex-fuzileiro das forças especiais Seal da Marinha americana Chris Kyle – fez manchetes em um país obcecado com suas conquistas militares.

Kyle, apelidado de "o diabo de Ramadi", foi o autor de um livro no qual se vangloria de ter matado 255 inimigos em quatro missões no Iraque – um recorde nas Forças Armadas americanas.

O relato entrou para as listas de mais vendidos e Kyle, alçado ao posto de celebridade, chegou a apresentar um programa em que outras celebridades simulavam operações militares.

Ele e outro amigo, Chad Littlefield, foram mortos com vários tiros de pistola semiautomática por outro veterano, Eddie Ray Routh, em um campo de tiros no norte do Texas, a pouco mais de 150 km da capital, Austin.

Ativo em uma fundação voltada para a reabilitação de ex-combatentes, o ex-atirador tinha por hábito levar os veteranos com estresse pós-traumático para praticar tiro como forma de fazê-los reacostumar-se com os barulhos de tiros sem sobressaltar-se. O costume, embora não endossado pelo Pentágono, é comum entre os soldados.

O cortejo oficial em homenagem a Kyle, de mais de 300 quilômetros, e o enterro com pompas militares foi um lembrete da guerra que acompanha muitos militares mesmo quando eles deixam o campo de batalha.

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