Após fugir da crise da era Collor, brasileira vive temor de 'confisco' no Chipre

  • 20 março 2013
Mônica Rodrigues (Foto Arquivo Pessoal)
Image caption Tranquilidade ameaçada: crise transformou a vida da brasileira Mônica Rodrigues no Chipre

Quando acordou no último sábado em sua casa em Nicósia, a capital do Chipre, a brasileira Mônica Rodrigues, teve a sensação de que havia voltado no tempo cerca de 20 anos.

Milhares de pessoas corriam para os caixas eletrônicos, fazendo filas enormes para tentar retirar seu dinheiro do banco, trabalhadores e aposentados protestavam contra o achatamento de seus rendimentos e um governo recém-eleito tentava justificar medidas impopulares.

Ao longo da semana, a situação não melhorou: o dinheiro dos caixas eletrônicos acabou, os bancos não abriram as portas e as transações bancárias foram bloqueadas.

"Lembrei de quando saí do Brasil, nos anos 90. Era estudante quando o Plano Collor foi adotado, confiscando a poupança dos brasileiros. O caos econômico que o Brasil vivia naquele período influenciou minha decisão de vir morar no Chipre, juntando-me à minha mãe, que havia se casado com um cipriota", disse Mônica à BBC Brasil.

"Aqui havia segurança e estabilidade, as pessoas podiam planejar sua vida com tranquilidade e tinham muitas oportunidades", lembra a brasileira, que, como a mãe, também terminou se casando com um cipriota e hoje trabalha como auxiliar administrativa.

Taxa rejeitada

Os protestos, a corrida aos caixas eletrônicos e fechamento dos bancos no Chipre foram uma resposta à proposta para a adoção de uma taxa (que está sendo chamada também de imposto ou mesmo confisco) que seria cobrada compulsoriamente sobre todos os depósitos nos bancos do país.

Image caption Brasileira casada com cipriota diz que família ficou sem dinheiro por conta de crise

A cobrança, anunciada no sábado, foi incluída em um acordo negociado com a União Europeia (UE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI), para permitir a aprovação de um pacote de resgate de 10 bilhões de euros (R$ 29 bilhões) para a economia cipriota. Originalmente, seria de 6,75% para os correntistas com menos de 100 mil euros (aproximadamente R$ 290 mil) e de 9,9% para os que tivessem mais.

Na terça-feira, os termos da nova taxa foram rejeitados em uma votação no Parlamento cipriota. Agora, políticos do país estão tentando chegar a um Plano B para evitá-la, mas a possibilidade de que alguma cobrança direta sobre os correntistas ainda venha a ser adotada não foi totalmente descartada. E além disso, até que esse Plano B seja costurado, os bancos do país devem permanecer fechados.

"Não tenho um tostão no bolso. Todo nosso dinheiro estava em uma conta poupança e não conseguimos transferir para uma conta corrente para poder usar o cartão de débito", diz a brasileira Ana Lima, também casada com um cipriota.

"O limite do cartão de crédito se esgotou na semana passada e meu marido tem 10 euros com o qual podemos comprar pão e leite, mas por enquanto não dá pra gastar em mais nada, nem pagar contas – e não adianta tentar pedir emprestado para os amigos porque ninguém tem."

"Todos estão muito frustrados e revoltados", diz Mônica. "Eu estava fazendo uma poupança para garantir o futuro de minhas duas filhas e agora não sei o que pode acontecer com esses recursos. Temo que eu e elas tenhamos de pagar por erros cometidos por políticos e bancos."

Crise

A crise econômica europeia foi o que transformou a realidade de Mônica e dos outros milhares de habitantes do Chipre, desatando a pior crise da ilha desde 1974, quando o país sofreu um golpe de Estado e foi invadido por tropas turcas.

Além dos problemas fiscais do governo, os bancos do país foram duramente afetados pela crise na vizinha Grécia, com a qual o Chipre mantém estreitas relações.

No último sábado, as autoridades anunciaram que o Chipre seria o quinto país europeu a receber um pacote de resgate da União Europeia - depois de Espanha, Grécia, Irlanda e Portugal.

Porém, se adotada, a taxa compulsória sobre todos os recursos de correntistas do país seria uma medida inédita, que, pela primeira vez, repassaria diretamente para correntistas de bancos o custo para o saneamento do Estado e do sistema bancário de um país europeu em crise.

Mônica conta que, ao receber a notícia, correu para o computador na tentativa de pagar suas contas e cartões de crédito.

"Nos caixas eletrônicos, as filas já eram imensas e parece que, em dado momento, acabou o dinheiro. Eu ainda tinha contas para pagar neste mês e agora vai ficar um pouco mais difícil com os bancos fechados e esse possível confisco", afirma a brasileira.

Para piorar, como lembra Mônica, o atual caos econômico ocorre em um momento em que as famílias cipriotas já estão vulneráveis e fragilizadas do ponto de vista financeiro.

"Meu marido, que trabalha de controlador aéreo, e meu sogro, que é aposentado, já tiveram reduções de seus rendimentos recentemente, por exemplo, então, já estava apertado para pagar as contas antes", conta.

Segundo a embaixada, a comunidade de brasileiros no Chipre é pequena, composta por 80 a 100 pessoas. Além de brasileiros casados com cipriotas, também vivem no país muitos jogadores de futebol acompanhados de suas famílias.

Em 2011, a equipe cipriota Apoel, com seis brasileiros, fez história ao conquistar um lugar de destaque na Liga dos Campeões da Europa.

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