Polícia pede que 16 sejam indiciados pelo incêndio na boate Kiss

  • 22 março 2013
Bombeiros combatem o incêndio na boate Kiss
Image caption Tragédia, em 27 de janeiro, deixou 241 mortos em Santa Maria (RS)

A polícia civil do Rio Grande do Sul apresentou nesta sexta-feira a conclusão do inquérito sobre a tragédia na boate Kiss, em que pede o indiciamento de 16 pessoas pelo incêndio, que deixou 241 mortos e 623 feridos na cidade de Santa Maria, em 27 de janeiro.

"Tínhamos uma casa funcionando em absoluta irregularidade", disse o delegado Marcelo Arigony, ao listar os problemas da boate, como superlotação, reformas irregulares e falta de sinalização.

Serão indiciados por homicídio doloso (por dolo eventual, ou seja, assumindo o risco de matar) o vocalista da banda Gurizada Fandangueira (que acendeu o sinalizador que provocou o incêndio), Marcelo de Jesus dos Santos; o produtor da banda, Luciano Bonilha Leão; os dois sócios, Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann; e o gerente da Kiss, Ricardo de Castro, além da mãe e da irmã de Spohr, respectivamente Marlene e Angela Callegaro.

Dois bombeiros vistoriadores da boate, Gilson Martins Dias e Vagner Guimarães Coelho, também foram indiciados por homicídio doloso (dolo eventual), "pela verificação falha" do local.

Por homicídio culposo, serão indiciados os secretários municipal de Mobilidade Urbana, Miguel Passini, e de Meio Ambiente, Luiz Alberto Carvalho Jr.; o chefe de fiscalização da secretaria de Mobilidade, Beloyannes Orengo de Pietro Jr.; e o responsável pela emissão do alvará de localização da boate Kiss, Marcus Vinicius Biermann, funcionário da secretaria de Finanças.

Um ex-sócio da boate será indiciado por falso testemunho, e dois bombeiros por fraude processual.

Arigony afirmou ainda que o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer, deve ser investigado pela Justiça por "indícios de prática de homicídio culposo", além do comandante regional do Corpo de Bombeiros de Santa Maria, coronel Moisés Fuchs, e de outros nove bombeiros, que serão remetidos à Justiça Militar.

Irregularidades

O delegado listou uma série de irregularidades que levaram à tragédia, segundo apontaram provas e testemunhas. Entre as principais estão:

  • Superlotação (haveria no local mais de mil pessoas; se a casa estivesse corretamente equipada, caberiam ali apenas 769);
  • Falta de rota de fuga sinalizada para emergências e apenas uma porta de saída e entrada;
  • Barras de ferro de contenção impediram muitas pessoas de chegar à saída da boate a tempo de se salvar;
  • Uso de um sinalizador barato (para ambientes externos), que causou o fogo;
  • Falha nos extintores de incêndio acionados para conter o fogo;
  • Reformas na casa foram realizadas sem projeto aprovado por autoridades e sem responsável técnico; o inquérito apontou também falhas na fiscalização do local e na emissão de alvarás;
  • Falha no treinamento dos seguranças da boate, que nos primeiros segundos (ou minutos, de acordo com testemunhas) impediram a evacuação do local.

O delegado também citou "falhas severas" no salvamento realizado pelos bombeiros, que não impediram civis de entrar no local (cinco deles morreram tentando resgatar vítimas).

Segundo Arigony, o fogo, iniciado às 3h17 do dia 27 de janeiro, se propagou "em questão de segundos" e matou as 241 vítimas por asfixia, causada pela fumaça tóxica da espuma que revestia a Kiss.

Quatro pessoas já estão presas: Spohr e Hoffmann, sócios da casa, e os dois integrantes da Gurizada Fandangueira.

O inquérito dos 55 dias de investigações, com mais de 13 mil páginas, foi entregue nesta sexta-feira pela polícia à 1ª Vara Criminal do Fórum de Santa Maria.

Na semana que vem, o documento será analisado pelo Ministério Público.

Notícias relacionadas