Brasileira no Chipre relata como é viver sem acesso a dinheiro

  • 25 março 2013
Ana Lima (foto: arquivo pessoal)
Image caption Ana Lima diz que há uma semana se limita a comprar o estritamente necessário para comer

Como a grande maioria da população do Chipre, a brasileira Ana Lima, de 37 anos, foi pega de surpresa pela crise no país e há mais de uma semana tenta se adaptar a viver praticamente sem dinheiro.

Sem acesso às contas bancárias, Ana e a família, que vive há 3 anos em Nicósia, capital do Chipre, têm se limitado a comprar o estritamente necessário para comer.

"Fomos ao supermercado e compramos água, pão e muito macarrão, que é barato", relatou ela à BBC Brasil.

Os bancos no país estão fechados há mais de uma semana, desde que o governo anunciou um acordo com o FMI e o Banco Central Europeu, posteriormente frustrado, para taxar contas bancárias em até 10% em troca de um empréstimo de 10 bilhões de euros (cerca de R$ 26,1 bilhões).

A proposta foi posteriormente rejeitada pelo Parlamento cipriota, aumentando a incerteza no país. Muitos correram para sacar dinheiro de caixas eletrônicos, que logo ficaram sem recursos. A maioria dos bancos vêm impondo um limite de 100 euros para saques.

No domingo, as autoridades do Chipre anunciaram um acordo de última hora para evitar o colapso do sistema bancário do país, com uma possível taxação de até 40% somente para depósitos acima de 100 mil euros (cerca de R$ 261 mil). O segundo maior banco do país, o Laiki, será fechado.

O Chipre é a terceira menor economia da zona do euro, com um PIB de US$ 24,7 bilhões em 2011, segundo o Banco Mundial, para uma população de 1,1 milhão.

O país representa apenas 0,2% do PIB da zona do euro, mas os líderes da região temem que a crise possa afetar outros países europeus, principalmente os que já vinham enfrentando problemas econômicos, como Grécia, Espanha e Itália.

'Tudo bloqueado'

Ana Lima conta que na sexta-feira dia 15 de março, um dia antes do anúncio do primeiro acordo, seu marido tentou fazer, sem sucesso, uma transferência online de uma conta de poupança para conta corrente. "Pensamos que fosse um problema no site do banco. No dia seguinte, tentamos de novo e nada. Foi quando ficamos sabendo que estava tudo bloqueado", conta.

Praticamente todo o dinheiro do casal, que vivem com os dois filhos, de 7 e 18 anos, estava aplicado em uma conta de poupança. O casal prefere deixar o dinheiro na poupança para aproveitar as taxas de juros atrativas do Chipre. À medida que precisam, transferem o dinheiro para a conta corrente.

''O problema é que, desde o dia 15, todas as transferências estão bloqueadas e os bancos, fechados. Quem tem dinheiro na conta corrente, pode sacar nos caixas eletrônicos, mas a gente não tem. Quando isso aconteceu, o meu marido tinha só 70 euros na conta (cerca de R$ 182). Tem uma semana que não conseguimos sacar nada'', lamenta.

Outro problema, segundo ela, é que os comerciantes já não estão mais aceitando pagamentos com cartão de crédito e preferem dinheiro vivo. O próximo passo da família será recorrer ao dinheiro que a filha de 7 anos ganhou de aniversário e que estava guardando num cofrinho pra comprar um laptop.

''Vamos pegar, mas não diremos nada a ela. Depois, devolvemos", diz.

Com os bancos fechados por tanto tempo, ninguém sabe o que vai acontecer quando as agências reabrirem. Muita gente deve fazer como Ana, que promete tirar todo o dinheiro do banco na terça-feira e guardar em casa, no armário. ''Vai ser uma loucura'', comenta.

Situação instável

Image caption Em frente a banco, Pamela Martins exibe cartaz de protesto com o slogan do movimento Occupy

Outros brasileiros que moram no Chipre dizem viver momentos de tensão e estão atônitos diante da crise, que ameaça implodir todo o sistema bancário do país.

Pamela Martins, de 30 anos, que vive há 12 anos no Chipre, diz já pensar em deixar o país e regressar ao Brasil. Desde 2001, ela vive com o filho de 8 anos em Nicósia. Ela conta ter adotado o Chipre como seu segundo país.

Filha de mãe grega e pai brasileiro, Pamela foi ao Chipre pela primeira vez quando tinha 4 anos de idade. Ela concluiu seus estudos em Nicósia, onde cursou faculdade de Psicologia.

''A situação está muito instável. Eu penso em voltar para o Brasil, e muitos cipriotas também estão pensando em deixar o país'', afirma.

Pamela, que participou de um protesto realizado no final de semana em frente ao Parlamento cipriota, diz temer pelo futuro do país, que ela afirma ter conhecido em seus tempos "áureos".

"O país está se segurando por um fio. Eu conheci o Chipre numa época diferente. Há 5 anos, a taxa de desemprego no país era de 2%. Temo pelo futuro do meu filho, das novas gerações", diz.

'Filas enormes'

Com os bancos fechados e as operações bloqueadas, quem quiser tirar dinheiro tem que ir diretamente aos caixas eletrônicos. ''Mas as filas estão enormes. E muitos caixas não têm mais dinheiro ou estão fora do ar'', explica.

A brasileira teve que pedir dinheiro emprestado para arcar com as despesas básicas até que a situação melhore. Ela também foi pega de surpresa pelo anúncio do acordo que previa a taxação de todos os depósitos bancários. Tinha somente 80 euros em sua conta, que já gastou comprando comida.

Como tantos outros, Pamela promete correr ao banco assim que as agências abrirem na próxima terça-feira para retirar todo o dinheiro. Ela teme, entretanto, que os bancos imponham limites de saques para evitar a fuga de capitais em massa.

"Quero o melhor pra este país, mas a gente não pode mais confiar no sistema bancário", afirma.

Para Pamela, mesmo se o governo cipriota decidir não tributar os depósitos, o estrago já foi feito. ''Os investidores vão retirar o dinheiro dos bancos, pois a situação está muito instável'', considera.

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