Novo banco e fundo de reserva fortalecem articulação dos Brics

  • 27 março 2013
Os líderes dos Brics (AFP)
Image caption Líderes dos Brics acertaram criação de banco e uso de reservas em crises

A cúpula dos Brics na cidade sul-africana de Durban, que terminou nesta quarta-feira, foi a primeira realizada em um clima marcado por grandes incertezas econômicas para esse clube de países emergentes, com a China desacelerando e o Brasil crescendo a um ritmo de menos de 1% ao ano.

Não chega a ser uma surpresa, então, que o resultado mais relevante do encontro entre Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul tenha sido o avanço em dois projetos que visam aumentar as fontes de financiamento para esses cinco países.

Como era esperado, os cinco países do grupo deram sinal verde para o Banco de Desenvolvimento dos Brics, cujo objetivo é financiar projetos de infraestrutura nos países do grupo.

"(Esse banco) é mais um elemento para expandir a nossa capacidade de obter recursos”, disse a presidente Dilma Rousseff. “O grande desafio das economias dos Brics é justamente ampliar seus investimentos na área de infraestrutura."

Na última reunião dos Brics, os cinco países do grupo tinham incumbido seus ministros das Finanças de avaliar a viabilidade do projeto desse banco.

Antes do encontro de Durban, havia especulação sobre qual poderia ser o capital aportado por cada país, como o banco iria atuar e onde ficaria sua sede.

A julgar pela falta de detalhes sobre a estrutura dessa instituição financeira no comunicado conjunto divulgado pelos cinco líderes dos Brics, porém, aparentemente eles não conseguiram chegar a um consenso sobre tais temas.

Também não ficou claro quando exatamente esse banco sairá do papel – e segundo algumas fontes do governo brasileiro isso pode não ocorrer antes de 2016.

Reservas de contingência

O segundo projeto a receber aval dos Brics foi o chamado Arranjo de Reservas de Contingência - um fundo de US$ 100 bilhões que servirá para socorrer países com problemas de liquidez financeira.

"Trata-se de um acordo importantíssimo porque estamos assistindo a uma grande volatilidade no mundo. Tivemos a crise do Lehman Brothers em 2008, recentemente o problema em Chipre e tudo que ocorreu no ano passado com os países europeus", disse Dilma.

"Nenhum país dos Brics sofreu nenhuma crise, nem bancária nem financeira. E o acordo de US$ 100 bilhões é muito significativo porque é mais uma contribuição para a estabilidade da moeda (desses países)."

Dilma disse ver a aprovação dos dois projetos como uma "realização do Brasil".

"No encontro (dos Brics) em Los Cabos (cidade do México, em 2012), nós tivermos uma atuação no sentido de confirmar a importância tanto do Banco de Desenvolvimento dos BRICS como desse acordo sobre o Contingente de Reservas", afirmou.

Outros acordos

Além das duas iniciativas, os Brics também chegaram a um acordo de cofinanciamento para projetos de desenvolvimento de energia limpa e infraestrutura na África.

Outra novidade do encontro foi a criação do Conselho Empresarial dos Brics, um órgão formado por cinco empresários de cada país que vai dar sugestões e fazer avaliações sobre como ampliar a cooperação econômica e comercial no bloco.

Para completar, o presidente russo, Vladimir Putin, anunciou que será realizado em Moscou, em junho, o primeiro encontro sobre política antidrogas dos Brics.

Na declaração conjunta, os Brics também procuraram se pronunciar sobre os mais diversos temas da agenda política global – desde o conflito na Síria e na República Centro Africana até a admissão da Palestina como membro observador da ONU e o programa nuclear iraniano.

Alguns dos textos das declarações, porém, são bastante vagos. Eles permitem aos cinco países acomodar (ou esconder) as diferenças em seus posicionamentos, segundo analistas.

"Se por um lado os países do grupo vocalizaram objetivos etéreos como 'conclamar a comunidade internacional a uma maior estabilidade dos mercados globais', por outro houve avanços concretos no estabelecimento do Banco de Desenvolvimento dos Brics", avaliou, em entrevista à BBC Brasil Marcos Troyjo, diretor do BRICLab da Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos.

História

O acrônimo Bric (sem o S de África do Sul) foi criado pelo economista Jim O’Neill como um instrumento de análise financeira e originalmente se referia aos quatro países que, segundo ele, teriam mais peso econômico que as nações desenvolvidas por volta de 2040.

Em 2009, os países dos Bric resolveram transformar o acrônimo em uma entidade política e, em 2011, incluíram no grupo a África no Sul - transformando-o em Brics.

Entre as principais reivindicações do grupo está uma reforma que dê mais voz aos emergentes nas instituições de governança política e econômica globais, como o FMI e o Banco Mundial.

Mas, apesar de a função desse novo Banco de Desenvolvimento dos Brics se assemelhar a do Banco Mundial, Troyjo diz não ver “qualquer tom de confrontação” no projeto.

"Pelo contrário, creio que há um sentido de complementaridade, derivada dessa noção de que o Banco Mundial tem frentes demais (para atuar) e, portanto, não dispõe do vigor necessário para projetos de grande porte originados a partir dos Brics", opina o especialista.

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