As últimas mulheres que cobram para chorar em Taiwan

  • 30 março 2013
Carpideira em Taiwan
Image caption Liu cobra o equivalente a R$ 1.200 por cada sessão de choro em funerais em Taiwan

Chorar por vontade própria não é tarefa fácil. Mas é o que faz todos dias Liu Jun-Lin. Ela é a carpideira mais famosa de Taiwan e todos os dias se põe aos prantos em velórios de gente que nunca viu.

Já são poucas as mulheres que choram para ganhar a vida no país, embora cada sessão de choro renda a Liu cerca de R$ 1.200.

A profissão também é polêmica, já que muitos a consideram a comercialização do luto.

Liu lembra que se trata de uma profissão antiga. Segundo a tradição taiwanesa, os mortos precisam de uma despedida ruidosa para passar à outra vida.

“Quando um ente querido morre, tudo é tão dolorido que na hora do funeral já não restam lágrimas”, diz Liu.

“Como é que se muda o estado de ânimo para demostrar toda essa tristeza?’, questiona Liu.

Ela mesmo responde dizendo que sua profissão ajuda a família a dar o tom adequado à despedida.

A tradição teria começado quando as mulheres da família muitas vezes estavam distantes na hora dos funerais, por viverem em outras cidades.

Para substituir o choro das mulheres, as famílias passaram a contratar carpideiras.

Os tradicionais funerais taiwaneses são elaborados e combinam um luto sombrio com outro de tom mais alegre.

Além de chorar, Liu e sua equipe de carpideiras se vestem com roupas coloridas e fazem alguns passes de danças quase acrobáticos. Seu irmão, A Ji, toca instrumentos de corda tradicionais.

Liu depois se veste de branco e se acerca ao caixão. Ali realiza seu choro mais conhecido, enquanto o irmão toca órgão.

Os grunhidos são prolongados e abafados, uma mescla de choro e canto.

Perguntada sobre como faz brotar as lágrimas em seu rosto, ela insiste em dizer que é um choro real.

“Em cada funeral eu sinto que a família é minha família, e coloco meus próprios sentimentos alí”, diz.

“Quando vejo as pessoas aflitas, fico ainda mais triste”.

Negócio familiar

Image caption Liu trabalha com a família, mantendo a tradição que aprendeu com a mãe e a avó

Com suas grandes sobrancelhas e voz de soprano, Liu, de 30 anos, parece mais jovem do que é.

E a boa aparência ajuda na profissão segundo Lin Zhenzhang, diretor de uma funerária na qual Liu trabalhou por anos.

“Geralmente pensamos que este é um trabalho para mulheres de outra geração. Mas Liu é jovem e bonita, e desperta a curiosidade das pessoas”, diz.

A avó e a mãe de Liu eram carpideiras profissionais. Ele casa ela imitava a mãe durante os ensaios.

Os pais de Liu morreram quando ela era ainda uma criança, deixando-as aos cuidados da avó.

Para ajudar na renda familiar, Liu passou a chorar aos 11 anos.

Ela conta que se levanta antes do amanhecer para ensaiar e muitas vezes trocava a sala de aula por velórios.

No colégio, os colegas também faziam piadas de sua profissão, conta.

E mesmo durante o trabalho, a função nem sempre é fácil.

“As vezes, antes de começar, as famílias dos falecidos não nos tratam bem. Mas depois da atuação, eles choram e nos agradecem”, diz.

É nesta ocasião que Liu se dá conta do verdadeiro propósito de seu trabalho, conta.

Profissão em extinção

Image caption Liu sabe que sua profissão está extinção e está mudando o perfil de seus negócios

Liu conta que seu trabalho “ajuda as pessoas a se soltarem e dizer em voz alta o que não se atrevem”, explica.

“Também ajudou quem não se atreve a chorar, porque ao fim todos choramos juntos”, diz.

Graças ao choro de Liu, os negócios prosperam. Hoje cada um de seus irmãos tem uma casa e todos são partes da equipe funerária.

Mas Liu sabe que esta é uma profissão em extinção, por causa da preferência por funerais mais simples.

Ela já está mudando o perfil dos negócios. Hoje os 20 funcionários de sua empresa trabalham sobretudo no embalsamento de corpos e na organização de funerais.

Mas ela diz que nunca vai deixar de ser carpideira.

“É algo que me levou muito tempo para construir, desde o zero, com minha avó. Devo ensinar a outras pessoas o que ela me ensinou e seguir com a tradição”, diz.

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