Inflação em alta muda cotidiano de brasileiros

Supermercado / Agência Brasil
Image caption Brasileiros reclamam que ida ao supermercado ficou mais cara

Com uma alta acumulada de 6,59% nos últimos 12 meses, segundo dados do IBGE divulgados nessa quarta-feira, a inflação já provoca mudanças nos hábitos de consumo de grande parte da população brasileira.

Alvo preferencial das queixas, os alimentos são representados pelo tomate, líder das reclamações, que ganhou o posto de novo vilão da inflação brasileira.

Nos últimos 12 meses, o fruto mais do que dobrou de preço e seu quilo (em torno de quatro unidades) passou a variar entre R$6 e R$10.

Para saber como a escalada de preços dos últimos meses mudou a rotina dos brasileiros, a BBC Brasil entrevistou cinco pessoas, de diferentes idades e profissões. Confira os depoimentos.

Vanessa Santos

"Ganho 100 reais de mesada dos meus pais. Antes, achava que essa quantia era adequada para mim, mas, de uns meses para cá, com o aumento generalizado dos preços, não consigo nem mesmo pagar uma ida ao cabeleireiro. Por causa disso, tive de deixar de sair com as minhas amigas várias vezes. Colegas meus também sentiram o impacto da inflação na pele. Muitos tiveram de abdicar da condução particular para ir de ônibus à escola, inclusive os que moram longe. Os pais simplesmente não tem mais condições de pagar."

Vanessa Santos, de 15 anos, é estudante

Vitor Brunoro

Image caption Viver no Rio de Janeiro se tornou mais caro

"Moro no Rio de Janeiro, mas sou natural de Vitória, no Espírito Santo. Lembro-me claramente que durante a minha adolescência eu e meus amigos pagávamos meros 10 reais em um rodízio de pizzas. Hoje, é impossível comer fora lá por menos de 40 reais. No Rio de Janeiro, a situação é ainda pior, ao passo que a cidade se prepara para sediar dois grandes eventos esportivos. Os preços estão proibitivos. Por essa razão, como sou autônomo, acabo tendo de repassar esse custo para o meu trabalho. Do contrário, não consigo sobreviver. Pago mais caro aqui do que durante os sete meses em que vivi em Berlim, na Alemanha, uma das principais capitais europeias."

Vitor Brunoro, de 25 anos, é vídeo-designer e especialista em comunicação audiovisual

Olga Fontenelle

Image caption Tomate deixou salada de brasileiros por conta do preço

"Até o ano passado, eu e minha filha tínhamos por costume almoçar fora todo domingo. Mas tivemos de abdicar de tal hábito quando percebi que nossa conta facilmente ultrapassava R$ 100 em um restaurante simples. Os preços aumentaram muito, especialmente o dos alimentos. Hoje, gasto 30% a mais no supermercado e compro exatamente a mesma quantidade de produtos. Já limamos o tomate da nossa salada, por exemplo. Sei que hoje a situação é bem menos desesperadora do que no passado. Mas espero não ter de correr novamente entre os corredores dos supermercados para comprar produtos antes deles serem remarcados, como acontecia com frequência na década de 80."

Olga Fontenelle, de 50 anos, é advogada

Pedro de Lamare

Image caption Sindicato pede desoneração do setor de restaurantes

"Com a alta no preço dos alimentos, sou obrigado a refazer minha planilha de custos mensalmente e quem paga essa conta são, inevitavelmente, meus clientes. Por causa disso, sempre procuro fazer compensações, diminuindo, por exemplo, a minha margem de lucro nos produtos que estão mais caros. Também busco inserir no cardápio pratos diferentes com ítens mais baratos, sem perder de vista a qualidade. Além dos alimentos, o custo da mão de obra aumentou muito, mas grande parte dela ainda necessita ser treinada. Como presidente do SindRio, também já pleiteamos a desoneração do nosso setor que, só no Rio de Janeiro, é o maior empregador de jovens de 18 a 24 anos, mas ainda não fomos atendidos."

Pedro de Lamare, de 56 anos, é dono de restaurante e presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio)

Mariliza Leitão

Image caption Lazer também ficou mais caro para aposentados

"Sou preocupada com a minha saúde e faço uma dieta baseada em legumes e verduras. Nos últimos meses, o preço desses dois ítens disparou. Percebo que gasto o dobro do que gastava antes e compro a mesma quantidade de produtos. O meu lazer também ficou mais caro. Eu e minhas amigas, muitas delas viúvas como eu, temos por hábito participar de almoços beneficentes e ir à noite ao teatro. Para isso, normalmente contratamos um transporte particular que, hoje, não sai por menos de 100 reais. É um absurdo. Enquanto isso, não ganhamos um centavo a mais em nossas aposentadorias".

Mariliza Leitão, de 77 anos, é professora de música aposentada

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