Índios deixam hotel na Bahia e anunciam ida a Brasília

Líderes tupinambás em Brasília, em 2009 | Foto: Agência Brasil
Image caption Índios negam acusação de que teriam depredado patrimônio do hotel

Um grupo de índios tupinambás desocupou nessa quarta-feira um hotel de luxo na cidade de Una, no sul da Bahia, depois de três dias de ocupação. A decisão foi tomada depois que a Funai determinou que a área do hotel não fazia parte do território reivindicado pelos indígenas.

Em entrevista à BBC Brasil, o líder indígena cacique Valdenilson Tupinambá afirmou que o grupo enviará representantes a Brasília para reuniões com o Ministério da Justiça, a Funai e o Ministério Público Federal, para exigir rapidez na demarcação do território de 47 mil hectares que os nativos reclamam.

Os índios afirmam que a área do hotel Fazenda da Lagoa - que foi construído em 2005 - figurava em um levantamento de identificação do território (para definir se ele deve ser parte de uma reserva indígena) feito pela Funai em 2002. No entanto, técnicos da Polícia Federal e da Funai confirmaram que ela não aparece no mapa do território delimitado em mapa oficial publicado no Diário Oficial em 2009.

"Vamos fazer diversas reuniões e pedir para demarcar (o território) do jeito que está. Não vamos mais contestar, mas vamos pedir que seja demarcado de forma imediata", afirmou o cacique Valdenilson à BBC Brasil, por telefone.

"Decidimos todos sair, mas denunciamos que o hotel tem uma grande dívida tributária com o município de Una, com o Ibama e com a Secretaria do Meio Ambiente. E eles estão desmatando o manguezal porque dizem que causa invisibilidade ao empreendimento deles", afirmou.

A Funai diz que aguarda a portaria declaratória do Ministério da Justiça, que decidirá sobre a demarcação dos territórios.

Uso de instalações

O líder tupinambá negou as afirmações de que os índios estariam dormindo nos bangalôs do hotel e utilizando as instalações. "Usamos somente a cozinha dos funcionários para dormir", afirmou.

Uma matéria publicada no jornal Folha de S. Paulo nessa quarta-feira diz que os tupinambás utilizaram os bangalôs e acompanharam a programação da TV a cabo no local.

Na segunda-feira, agentes da Polícia Federal foram ao hotel para investigar denúncias de depredação do patrimônio e cárcere privado. Segundo o delegado Alex Cordeiro, as denúncias não foram confirmadas.

Na quarta-feira, os policiais voltaram ao hotel com o representante local da Funai, Nicolas Melgaço, para informar aos índios sobre o comunicado da Funai. Uma vistoria do patrimônio teria sido iniciada na presença deles.

"Até o momento em que ficamos, a loja do hotel estava inteira, os bangalôs também", disse Cordeiro à BBC Brasil.

Por outro lado, um representante do hotel Fazenda da Lagoa, Gabriel Rodrigues, afirmou à BBC Brasil que um levantamento preliminar dos funcionários aponta que diversas caixas de roupas do hotel foram levadas, assim como oito televisores de 42 polegadas. Segundo ele, alimentos e bebidas também foram consumidos e a cozinha foi depredada.

"Vamos seguir com uma ação contra essas pessoas. Não temos esperanças de resultado porque processar índio é complicado", disse.

"Eles não cometeram nenhum ato de violência, mas os empregados estão assustados. Temos três vigilantes no local."

Questões ambientais

O hotel Fazenda da Lagoa, que tem diárias a partir de mil reais, estava vazio há três meses por conta de um embargo parcial do Ibama.

De acordo com a Agência Brasil, o Ibama confirmou que o empreendimento recebeu duas multas e teve o uso de 2 hectares embargado até que a vegetação arrancada para dar espaço a bangalôs seja recuperada.

No entanto, Gabriel Rodrigues afirmou que o hotel está fechado para manutenção e para obter a carta de anuência do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), pendente do licenciamento federal do hotel, que é feito através do Ibama.

Provas de que o hotel não destrói a vegetação local, segundo ele, já foram apresentadas ao órgão.

Entre os proprietários do hotel está o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga.

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