Funeral atenua, mas não enterra debate sobre polêmico legado de Thatcher

  • 17 abril 2013
Funeral de Margaret Thatcher
Image caption Centenas de pessoas acompanharam cortejo que levou o caixão até a catedral de Saint Paul

Margaret Thatcher não era nenhuma Eleanor Rigby – a solitária protagonista de uma música dos Beatles a cujo funeral ninguém compareceu.

Apesar do aparente vazio de seus últimos dias, a ex-primeira-ministra não foi enterrada "junto com o seu nome" – como a personagem da música do quarteto de Liverpool.

As cerimônias que marcaram nesta quarta-feira o funeral da Dama de Ferro foram acompanhadas por muitas pessoas.

Centenas se reuniram nas ruas de Londres para assistir ao cortejo que levou o caixão até a catedral de Saint Paul, no centro da capital britânica. Houve aplausos e protestos, mas nada comparado ao que os britânicos já foram capazes de fazer no passado.

Quando o Lorde Castlereagh – ex-ministro das Relações Exteriores que ajudou a derrotar Napoleão e a trazer paz para a Europa no Congresso de Viena – cometeu suicídio em 1822, cortando sua própria garganta, seu caixão foi vaiado ao ser levado para o interior da Abadia de Westminster.

Nada disso foi visto nesta quarta-feira em Londres. Ao contrário, uma procissão militar e cerimônias dignas de um funeral de Estado marcaram o falecimento de uma senhora com demência que morreu devido a um infarto fatal.

Legado e história

Para alguns, o funeral encerra dez dias de debate nacional provocado pela morte de Thatcher – um debate não só sobre o seu passado, mas também em torno do futuro do Reino Unido.

O bispo de Londres, Richard Chartres, disse em seu sermão que, "após a tempestade de uma vida levada no calor das controvérsias políticas, há agora uma grande calma".

Tanto os seus discípulos como os críticos continuarão a discutir o legado da ex-primeira-ministra, mas talvez agora em reuniões de simpatizantes do Partido Conservador e em corredores acadêmicos.

O grande historiador constitucional britânico Peter Hennessy disse que "ela agora passa às mãos dos historiadores".

A polêmica em torno do seu funeral – se foi exagerado ou até político – é agora acadêmica.

As reclamações sobre o fato de o Parlamento ter sido convocado extraordinariamente para render homenagens a Thatcher e sobre a agenda de compromissos do primeiro-ministro David Cameron ter sido cancelada estão encerradas.

Os jornais e emissoras de rádio e televisão encontrarão outro assunto, ainda intrigados pelas pesquisas de opinião que mostram a permanente popularidade de Thatcher no país ao mesmo tempo em que os números de audiência indicam um menor interesse na cobertura de sua morte.

Os debates sobre uma música de mau gosto sobre bruxas mortas e se ela deveria ter sido tocada pelos meios de comunicação entrarão no território das memórias. A vida vai seguir em frente.

Continuidade

E ainda assim, será que isso é tudo? É a hora de buscar fôlego e continuar em frente? Bem, não exatamente.

Ainda há a polêmica sobre o custo do funeral, que incomodou muitos britânicos. Os números detalhados serão divulgados nas próximas semanas e ainda há um impasse, não apenas sobre o custo, mas também sobre a maneira como ele foi calculado e sobre a inclusão ou não dos gastos militares com as cerimônias.

Resta também a expectativa quanto à publicação da biografia autorizada de Thatcher, escrita por Charles Moore, que promete novas revelações de uma história já bastante explorada.

Mas a verdade é que a atual geração de políticos não pode escapar do debate sobre o legado de Thatcher. Ainda é muito cedo.

Quando o primeiro-ministro David Cameron afirma que "somos todos thatcheristas agora", as pessoas debatem o significado da frase. Ele se refere a algum consenso novo sobre lições do governo dela que poderiam ser aplicadas hoje? Ou ele tenta escapar desse rótulo ao dividir o peso de sua herança e dizer que ela fez as mudanças de seu governo e agora é hora de seguir em frente?

Até mesmo o bispo de Londres se arriscou a interpretar o que Thatcher quis dizer quando afirmou que "não existe essa coisa de sociedade". E depois da elogiada atuação de Amanda Thatcher ao ler um trecho da bíblia no funeral, alguns já trataram de imaginar se a neta da ex-primeira-ministra poderia dar continuidade ao legado político de sua avó.

Os parlamentares conservadores vão continuar, pelo menos por enquanto, a avaliar seus líderes a partir de referências estabelecidas por Thatcher. Os eleitores que a apoiavam continuarão a imaginar o que ela faria para resolver os atuais problemas econômicos e sociais.

E aqueles que votavam contra Thatcher não vão esquecer a perda de empregos e as comunidades prejudicadas pelo declínio de suas indústrias durante o seu governo.

Para citar novamente o inimitável Peter Hennessy, o legado de Thatcher vai "se agarrar ao velcro de nossa vida política".

O importante não é quem está certo ou errado. O importante é que o debate sobre a vida e os feitos de Margaret Thatcher não acabou, e um funeral não vai enterrá-lo. Na morte, assim como na vida, a sombra que ela lança é longa.

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