EUA 'precisam de 10 milhões de empregos para voltar a níveis pré-crise'

Cartaz anuncia empregos nos EUA
Image caption Estatísticas positivas sobre criação de empregos animam mercado americano

Uma estimativa divulgada pelo centro de estudos Instituto Brookings, de Washington, indica que a economia americana ainda precisa criar quase 10 milhões de vagas de trabalho para retornar aos níveis de emprego de 2007, antes da crise econômica, e ao mesmo tempo absorver os novos profissionais que são incorporados na força de trabalho do país.

De acordo com números oficiais, nos últimos 12 meses, a economia americana gerou em média 169 mil vagas por mês; pelos cálculos do Instituto, nesse ritmo seriam necessários dez anos e quatro meses para regressar ao nível pré-crise.

"As recessões que seguem as crises financeiras sempre foram, historicamente, profundas e demoradas", disse à BBC Brasil o pesquisador sênior de estudos econômicos da organização, Adam Looney. "Um ritmo mais normalizado seria a criação de 210 mil vagas por mês."

Nesse ritmo, pelos cálculos do Brookings, a "lacuna" empregatícia seria fechada em sete anos, em abril de 2020.

Novos números

Os cálculos do Instituto Brookings amenizam o otimismo com números positivos do mercado de trabalho divulgados nesta sexta-feira pelo governo americano.

Segundo o Escritório das Estatísticas do Trabalho, não apenas o ritmo de criação de empregos em abril foi mais acelerado que se esperava (165 mil novas vagas, 20 mil a mais do que os analistas estimavam), como o governo revisou seus números para adicionar 114 mil outras vagas à economia que não tinham sido contabilizadas em fevereiro e março.

Com isso, a taxa de desemprego caiu para 7,5% - apenas um ponto percentual a menos que em março, mas, como notou o Escritório, uma redução de 0,4 ponto percentual em relação à taxa de janeiro.

"Uau! Não apenas os números de abril foram melhores que o esperado, mas março retornou dos mortos e fevereiro ultrapassou o telhado", disse o diretor de Trading da MB Capital, em Londres, Marcus Bullus. "A economia americana arrancou uma vitória das garras da derrota."

Uma semana antes, o anúncio de que a economia crescera a um ritmo anualizado de 2,5% no primeiro trimestre do ano havia causado desânimo nos Estados Unidos. Apesar de positivo, o número ficou aquém das expectativas e foi interpretado como um efeito antecipado dos cortes automáticos do governo que começaram a ser aplicados neste ano.

"Os últimos dados do trabalho apagam qualquer temor que tenha sido criado pelos resultados do PIB na semana passada", resumiu Bullus. "A bola está rolando de novo para os EUA."

Sinal da efusividade, o mercado acionário americano viu seus dois principais indicadores romperem barreiras simbólicas pela primeira vez: o índice Dow Jones, da bolsa de Nova York, ultrapassou ou 15 mil pontos e o S&P superou 1,6 mil.

Na Europa, os índices de Londres, Paris e Frankfurt, fecharam, respectivamente, com altas de 0,94%, 1,4% e 2%.

Em uma reação mais comedida, o presidente do Conselho Econômico da Casa Branca, Alan Krueger, disse que "embora ainda haja muito a ser feito, o relatório do emprego é mais uma evidência de que a economia americana está continuando a se recuperar".

"É crucial que permaneçamos focados em políticas para acelerar a criação de empregos e expandir a classe média", disse Krueger. Ele aludiu aos impasses políticos que levaram à aplicação automática dos cortes no setor público, afirmando que "agora não é a hora de Washington se infligir golpes na economia".

Onde está o meu emprego?

Também nesta sexta-feira, o Escritório de Estatísticas revisou para 332 mil (de 268 mil iniciais) o número de vagas criadas em fevereiro.

Se o mesmo desempenho fosse repetido em todos os meses daqui para frente, o mercado de trabalho americano retornaria aos níveis pré-2007 em menos de quatro anos – antes do fim do governo Obama.

Mas, para chegar lá, a economia americana precisa retomar o seu crescimento e contar com a ajuda de cenário externo, onde paira o risco de instabilidade gerada pela crise na zona do euro.

Segundo estatísticas do Fundo Monetário Internacional (FMI), no ano passado a economia americana produziu o equivalente a quase US$ 15,7 trilhões – cerca de US$ 680 bilhões abaixo do seu potencial.

Para este ano, a projeção é que o PIB alcance US$ 16,2 trilhões e o chamado "hiato" seja de US$ 720 bilhões.

"Não há nada intrinsecamente dizendo que a economia americana não pode crescer a um ritmo mais robusto", avalia Adam Looney, do Brookings.

"Se as condições da economia global se estabilizarem, a situação na zona do euro se acertar, e possamos chegar a entendimentos, aqui e no exterior, para harmonizar as preocupações orçamentárias com políticas governamentais para criar empregos, os prospectos em relação à economia podem ser positivos."

Nos EUA, alguns dos setores que podem liderar essa retomada são a construção civil (um dos mais atingidos pela crise), serviços de saúde (no embalo da reforma do setor que continua entrando em vigor até 2014), varejo e serviços de alimentação e bebidas.

Liderando a tendência, nos últimos seis meses, a construção criou em média 27 mil vagas por mês – mais importante, para uma parcela de trabalhadores com pouca qualificação, mais vulneráveis à crise.

Entre as explicações estão as obras de recuperação do furacão Sandy em Nova York e Estados vizinhos, um "boom" no mercado de condomínios privados na Flórida e sinais de recuperação na Califórnia – o Estado que mais perdeu empregos na crise.

Entretanto, segundo os números do Brookings, a recuperação ainda é tímida. Em 2008, no seu ápice, o setor empregava quase 8 milhões de trabalhadores. O número despencou para 5,5 milhões em 2010 e agora, apesar da recuperação, ainda emprega apenas cerca de 5,8 milhões.

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