Julgamento de neonazista põe polícia alemã na berlinda

  • 6 maio 2013
Beate Zschaepe se entregou à polícia após corpos de supostos cúmplices ter sido encontrado
Image caption Beate Zschaepe se entregou à polícia após corpos de supostos cúmplices ter sido encontrado

A Alemanha deu início nesta segunda-feira a um dos maiores julgamentos na história do país desde a Segunda Guerra Mundial, de uma mulher acusada de co-liderar um grupo neonazista responsável pela morte de pelo menos 10 pessoas.

O julgamento, em Munique, de Beate Zschaepe, de 38 anos, acusada de integrar o grupo Subterrâneo Nacional Socialista (NSU, na sigla alemã), traz à luz também uma série de erros cometidos pela polícia alemã e acusações de que as autoridades do país teriam feito vista grossa para os crimes, cometidos entre 2000 e 2007.

Durante vários anos, os delitos foram atribuídos pelas autoridades da Alemanha à "Máfia turca".

Os promotores do caso chamaram Beate Zschaepe de a mais perigosa neonazista da Alemanha. Ela é acusada de ter ajudado a matar nove homens, todos de ascendência turca, e uma policial.

Ela nega as acusações. Depois de entrar na corte, ela permaneceu em pé com os braços cruzados e virou de costas para as câmeras de TV.

Outros quatro réus, homens de idades entre 33 e 39 anos, também estão sendo julgados, por terem ajudado a NSU.

Ela também enfrenta acusações de ter auxiliado em 28 tentativas de assassinato, bem como de ter sido integrante de uma organização terrorista. Ela é ainda acusada de ter cometido roubos, causado explosões e um incêndio.

O primeiro crime ocorreu em 9 de setembro de 2000, perto da cidade de Nuremberg. Dois atiradores atiraram no rosto de um florista. Eles dispararam oito tiros contra Enver Simsek, seis dos quais o atingiram. Dois dias depois, ele morreu no hospital.

O padrão do primeiro assassinato se repetiu ao longo dos próximos seis anos. As vítimas foram todas turcas, à exceção do chaveiro Theodoros Boulgarides, imigrante grego, e de uma policial, morta em 25 de abril de 2007, o suposto último assassinato cometido pelo grupo nazista.

Image caption Beate Zschaepe, juntamente com seus supostos cúmplices na série de crimes

Ninguém, exceto talvez Beate Zschaepe, sabe o motivo deste último assassinato, exceto que ele talvez tenha se dado por uma vendeta pessoal ou por uma tentativa de obter armas.

Pantera Cor-de-Rosa

Beate Zschaep dividia um apartamento com dois homens, Uwe Boehnhardt e Uwe Mundlos, ambos integrantes do NSU, na cidade alemã de Jena.

Ela se entregou à polícia em 8 de novembro de 2011, após os corpos dos dois homens ter sido encontrado, no que pareceu ter sido um pacto suicida após um assalto de banco frustrado.

Após a morte dos dois amigos, ela teria posto fogo no trailer que os três dividiam em outra cidade alemã, Zwickau, e enviado à polícia um bizarro vídeo em que a personagem Pantera Cor-de-Rosa aparece exibindo diferentes cartazes. No lugar dos cartazes originais, surgem imagens de vítimas dos vários assassinatos supostamente cometidos pelo grupo.

Foi somente então que a polícia concluiu que os crimes seriam de autoria de neonazistas e não da Máfia turca.

Inicialmente, familiares das vítimas tinham sido tratados como suspeitos. Entre as pessoas interrogadas por policiais figuram a mãe de uma das vítimas.

Mehmet Daimagueller, o advogado de uma das famílias disse querer saber se a polícia sabia mais do que admitiu saber.

Image caption Imagem extraída do vídeo supostamente enviado por Beate Zschaepe à polícia

"Este caso claramente tem uma dimensão política. Não é um caso só ligado ao racismo, é um caso que precisa lidar com o racismo institucional", disse Daimagueller.

"Esses assassinatos ocorreram ao longo de dez anos sob os olhos do Estado, do governo. Nós sabemos que havia cerca de 25 informantes em torno dos terroristas. Portanto, existia uma ligação indireta (da polícia) com o grupo."

O caso acabou levando à renúncia do ex-chefe do Serviço de Inteligência do país. O governo admitiu que os arquivos relativos à investigação foram destruídos.

Em sua defesa, as autoridades afirmam que houve uma série de erros cometidos em conexão com os casos, mas que estes se deram porque os crimes foram cometidos em diferentes regiões, cada uma delas com diferentes agências de polícia e de segurança.

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