Ataque em Londres evidencia dificuldade em distinguir descontentes de radicais

Polícia em Woolwich nesta quarta (AP)
Image caption Se ataque foi de fato contra um soldado, pode evidenciar ira à presença militar britânica no mundo islâmico

A morte de um homem em Woolwich, sudeste de Londres, nesta quarta-feira, colocou o Reino Unido em estado de choque, já que o caso está sendo tratado como um possível ato terrorista.

É exatamente o tipo de ataque que as autoridades britânicas temiam.

Como nesse caso a vítima era um soldado britânico, então o caso remete à ideologia violenta da Al-Qaeda e a forma como ela tem sido interpretada por seguidores em países ocidentais.

A mente de jihadistas é influenciada por muitos fatores distintos, mas um fator comum entre pessoas envolvidas em atos de violência politicamente motivados é o princípio básico de que elas se opõem à presença ocidental no mundo islâmico.

Alguns puristas às vezes se referem a essa presença como predominantemente cultural - a chegada de influências ocidentais das quais eles não gostam, como cantores pop.

Mas, para jihadistas, a questão central é a presença de soldados - e a crença de que estes, independentemente de seu papel sob a lei internacional, são inimigos do islã.

Esse argumento geralmente é reforçado com imagens online de sofrimento vivido por civis, mulheres e crianças. Cria-se um sentimento de ira e injustiça, do tipo que leva as pessoas a se convencerem de que algo tem de ser feito.

Muitos do que sentem essa injustiça a combatem de maneira pacífica. Mas, no terrorismo, esse sentimento se torna um trampolim para os que acreditam que a violência indiscriminada pode trazer justiça.

Bilal Abdulla é um médico iraquiano que tentou bombardear Londres e Glasgow em 2007. Em seu julgamento, ele falou com clareza e coerência sobre sua radicalização, porque ele acreditava que britânicos e americanos estavam assassinando o seu povo - e não libertando-o de uma ditadura.

Ameaça à segurança?

De volta à questão central, o Reino Unido testemunhou uma série de protestos de radicais islâmicos contra soldados que serviram no Afeganistão.

Desses protestos resultou um incidente tenso, em 2009, quando uma organização - atualmente proibida - interrompeu uma cerimônia militar de boas-vindas em Luton, ao norte de Londres.

A dificuldade, por parte dos serviços de segurança, é diferenciar quem está apenas protestando e quem está, de fato, a caminho de se tornar uma ameaça a segurança pública.

Esse trabalho é dificultado ainda mais pelo fato de que ataques estão cada vez mais sendo planejados por indivíduos, sem nenhum elo com o que resta da liderança da Al-Qaeda.

Armados com sua ideologia, esses indivíduos apenas têm de seguir adiante com qualquer que seja o seu plano.

Sendo assim, enquanto todas as operações de contraterrorismo começam com a tentativa de entrar na mente do suspeito, no fim das contas, a questão é se ele é violento ou não.

Trazendo a guerra de volta

Em 2007, uma investigação policial deteve um homem em Birmingham (centro da Inglaterra) que queria sequestrar um soldado britânico. Parviz Khan queria imitar jihadistas iraquianos e decapitar um militar diante das câmeras, para circular o vídeo pela internet. Ele cumpre hoje prisão perpétua.

Nos EUA, o mais conhecido episódio antimilitar foi a matança em Fort Hood, em 2009, quando 13 pessoas foram mortas por um major do exército que, segundo relatos, havia sido radicalizado por um clérigo da Al-Qaeda.

Mais recentemente, dois outros grupos foram detidos no Reino Unido após planejarem alvejar soldados. A justificativa dos extremistas era de que os militares haviam levado a guerra aos países muçulmanos - então, eles estariam trazendo a guerra de volta.

"Temos de lutar contra eles assim como eles lutam contra nós. Olho por olho, dente por dente", disse um dos agressores de Woolwich nesta quarta-feira.

"Peço desculpas que mulheres tiveram que testemunhar isso (referindo-se ao assassinato), mas as mulheres em nossa terra têm de ver o mesmo."

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