Ex-guerrilheiro reaparece após 40 anos e causa polêmica no Uruguai

  • 24 maio 2013
Amodio Pérez / El Observador
Image caption Ex-guerrilheiro Amodio Pérez teria fugido do Uruguai após ser acusado de trair companheiros

Após quatro décadas sem dar sinal de vida, o ex-guerrilheiro uruguaio Amodio Pérez, de 72 anos, reapareceu em entrevista a um jornal do país em que nega ter traído seus companheiros de luta armada, incluindo o atual presidente do Uruguai, José Mujica.

A reportagem foi publicada nesta semana pelo jornal uruguaio El Observador com base em informações fornecidas por um homem que diz ser o próprio ex-guerrilheiro.

Junto com Mujica, Pérez foi um dos cinco fundadores nos anos 1960 do MLN (Movimento de Liberação Nacional-Tupamaros), uma das principais frentes de resistência aos governos eleitos que antecederam a ditadura militar uruguaia.

O Uruguai viveu tempos de tensão política e econômica nos anos 60 e 70, antes do golpe militar, em 1973.

Em 1972, o então presidente do país, Juan María Bordaberry, e uma comissão das Forças Armadas se uniram para "reprimir a guerrilha".

Naquele ano, Mujica foi preso e integrou o grupo chamado "13 reféns". O líder uruguaio só foi libertado em 1985, com o retorno da democracia.

Por muito tempo, Pérez foi considerado "desaparecido" ou "morto" por ex-aliados e também por militares.

Ele teria fugido do país em 1972, acusado por ex-companheiros de revelar ações planejadas pela guerrilha e de delatar a localização do "Cárcel del Pueblo", lugar para onde eram levados os prisoneiros do grupo armado.

Segundo historiadores uruguaios, o ex-guerrilheiro teria ido até o local vestido com roupas militares e, ao lado de membros da repressão do regime, pedido aos ex-companheiros de luta que se entregassem.

Resistência

Antes de cair em desgraça, Pérez era considerado um dos principais "cérebros" do MLN.

Entre suas principais ações estaria incluída a histórica fuga de 111 presos, entre eles Mujica, em setembro de 1971, conhecida como "Operação Abuso". No terreno do antigo presídio, localizado em Montevidéu, funciona hoje o shopping Punta Carretas, um dos principais da capital uruguaia.

"Ele (Pérez) liderou a coluna do MLN que fazia as operações mais arriscadas. A chamada 'coluna 15' foi a responsável pela fuga de guerrilheiros de prisões, roubo a bancos e de lingotes de ouro de uma família tradicional no Uruguai, a família Maylos", disse à BBC Brasil Gabriel Pereyra, editor-chefe do El Observador.

"Além de 'cérebro' do grupo, Pérez era um homem ousado. Ele fugiu com a sua mulher, Alícia Rey Morales, atravessando a fronteira com o Brasil", conta o jornalista.

"Ele ainda não nos disse em que país mora, mas tem sotaque espanhol, e negou ter cometido traição (com os colegas da guerrilha)", completou Pereyra.

Ao jornal El Observador, o ex-guerrilheiro alegou que, em última análise, quis proteger sua mulher e que teria dito aos militares apenas "o que eles já sabiam", ajudando apenas a "ordenar" as informações.

"Chega de silêncio e de mentiras", disse o homem ao jornal. "Quero que me digam o nome de alguém que eu tenha entregado."

Falta de provas

Em março deste ano, um homem que dizia ser o ex-guerrilheiro enviou cartas para jornais locais contando que estava vivo e explicando suas motivações para ter abandonado o país. Porém, por falta de provas, muitos periódicos decidiram não publicar a informação.

Na última quarta-feira, o jornal uruguaio El País, concorrente do El Observador, publicou em seu site que também havia recebido cartas atribuídas ao ex-guerrilheiro, mas que decidiu não publicá-las porque não tinha evidências sobre sua veracidade.

"Desde o fim de março, começaram a chegar, da Espanha, várias cartas sem remetentes, mas com a assinatura de Amodio, em que o ex-guerrilheiro que colaborou com os militares para desmantelar o grupo armado, contava sua versão da história. O El País, como outros meios de comunicação, tentou confirmar a veracidade das cartas, mas decidiu não publicá-las”, publicou o jornal uruguaio.

Na mesma reportagem, o El País afirma que o El Observador, que até então não havia recebido as cartas, publicou em sua página um questionário dirigido ao ex-guerrilheiro e, nesta semana, "recebeu as respostas junto com as fotos".

Pereyra, do El Observador, diz que Pérez respondeu a cada uma das 15 perguntas. Nelas, segundo o editor do jornal uruguaio, o ex-guerrilheiro detalha os motivos pelos quais teria fugido e dá instruções sobre como comprovar a veracidade das informações.

Em suas respostas, Pérez também conta que ele e sua mulher, de quem agora está separado, teriam fugido atravessando a fronteira com o Brasil. O seu paradeiro, no entanto, permanece desconhecido.

"Não temos nenhuma dúvida de que é ele. Nos últimos dias, falamos com ele várias vezes por telefone e ele nos respondeu a todas as perguntas via cartas e email", afirmou Pereyra.

Questionada sobre o possível reaparecimento do ex-colega de guerrilha, a senadora Lucía Topolansky, mulher de Mujica, afirmou que, para ela, Pérez continua a ser "um homem morto".

Notícias relacionadas