Oposição perde espaço com mudanças em canal de TV na Venezuela

  • 28 maio 2013
Francisco 'Kiko' Bautista / AP
Image caption 'Kiko' Bautista foi desligado da Globovisión por contrariar nova linha editorial do canal

O fim de um programa de TV que tratava de temas espinhosos para o governo da Venezuela, transmitido pelo canal Globovisión, representou mais um sinal da crescente falta de espaço disponível à oposição do país na imprensa para criticar as autoridades.

A emissora venezuelana era considerada um dos últimos refúgios das vozes críticas à chamada Revolução Bolivariana. No entanto, o canal vem se adaptando à diretriz estabelecida pelos novos proprietários, que assumiram o controle da Globovisión na semana passada.

Um dos principais reflexos dessa nova linha editorial foi a decisão de retirar da programação na segunda-feira o conhecido programa Buenas Noches, do jornalista Francisco "Kico" Bautista - considerado um dos maiores críticos do governo venezuelano.

A oposição acredita agora que outros programas podem ser cancelados e jornalistas considerados opositores do regime, demitidos.

A mudança na programação vem gerando um debate intenso nas redes sociais. Uma campanha no Twitter organizada por insatisfeitos com os rumos do canal, usando a hashtag #GlobovisionYaNoTeVeoMas, levou a conta da Globovisión no site a perder entre 200 mil e 300 mil seguidores em pouco mais de 72 horas, segundo um levantamento de especialistas da área.

O episódio coincidiu com o aniversário de seis anos do fim das transmissões daquela que era considerada a emissora de TV mais antiga e de maior audiência da Venezuela: a Radio Caracas Televisión (RCTV), o que já havia limitado a capacidade da oposição de se comunicar com os venezuelanos.

Restrição ao vivo

Os primeiros indícios de uma possível mudança na linha editorial da Globovisión começaram a aparecer na semana passada, quando, atipicamente, a emissora não veiculou reportagens sobre a presença do ex-candidato à Presidência e atual governador do Estado de Miranda, o opositor Henrique Capriles, em eventos públicos nas últimas quinta e sexta-feiras.

Capriles – que perdeu as eleições em abril por uma margem de votos de 1,5 ponto percentual para o atual presidente Nicolás Maduro – reclamou em sua conta do Twitter, dizendo que havia sido informado que "a nova direção (do canal) ordenou" que não aparecesse mais ao vivo e questionando o grupo de investidores que comprou o canal de seu fundador, Guillermo Zuloaga.

Na segunda-feira, "Kico" Bautista deixou o canal. Segundo informações de bastidores, ele teria sido demitido depois que apresentou, em seu programa veiculado na última sexta-feira, um resumo do que ocorreu em um dos eventos do qual Capriles participou.

Em entrevista à BBC Mundo, Bautista afirmou ter sido desligado após "contrariar a política editorial" da Globovisión.

"A nova diretriz proibiu que os políticos, do governo e oposição, apareçam discursando ao vivo, contrariando uma das principais características da Globovisión, que era o imediatismo das notícias, ou seja, cobrir os eventos enquanto eles aconteciam", disse Bautista, para quem não faz sentido a nova estratégia do canal.

'Outra tarefa'

A nova direção da Globovisión anunciou uma linha editorial "de centro" e na semana passada se reuniu com o presidente Maduro no palácio de Miraflores - a primeira vez em muitos anos que representantes do canal estiveram na sede do governo venezuelano.

Na saída, em conversa com jornalistas, o novo presidente do canal, Juan Domingo Cordero, assegurou que a Globovisión "continuará sendo um canal de notícias (…) transmitindo os fatos, dizendo a verdade". "Vocês sabem as razões pelas quais a Globovisión não era bem-vinda neste palácio, isso não vai acontecer de novo", acrescentou.

Entre as novas estratégias da emissora estaria a de abandonar a linha persistente de oposição e dar voz às autoridades.

Em um comunicado, a direção garantiu que "não vetou nenhum funcionário ou dirigente político em suas grades. Pelo contrário, a política editorial do canal consiste em obter informação e opinião de todas as vozes do país, sem qualquer discriminação".

Reportagens veiculadas na imprensa venezuelana sugerem que os novos proprietários da Globovisión teriam vínculos com figuras do governo e indicam que por trás da aquisição do canal houve uma coordenação para calar a voz da oposição.

No entanto, fontes internas do canal, que pediram anonimato, disseram à BBC Mundo que "não existe vínculo direto nem evidente" entre Cordero ou seu sócio Raúl Gorrín com o partido de Maduro.

A BBC Mundo tentou contatar os novos representantes da emissora, mas não obteve respostas até o fechamento desta reportagem.

'Caminho do confronto'

Muitos afirmam que as mudanças na Globovisión desequilibram ainda mais a oferta de informações na televisão venezuelana e lembram que o Estado já tem à sua disposição (embora com baixa audiência, segundo as pesquisas) seis canais de sinal aberto que usa para divulgar suas mensagens sem dar espaço às vozes da oposição.

Image caption Após confrontos com o governo, o empresário venezuelano Guillermo Zuloaga vendeu a Globovisión

Além disso, o governo recorre obriga quase que diariamente as grandes emissoras a transmitir pronunciamentos públicos ou mensagens oficiais.

"O governo estava muito preocupado com as entrevistas coletivas concedidas por Henrique Capriles. Cada vez que ele emitia um pronunciamento, as TVs interrompiam a sua programação ao vivo para veiculá-lo", disse à BBC Mundo Carlos Correa, diretor do Espacio Público, uma organização não-governamental que promove a defesa da liberdade de expressão na Venezuela.

Correa acredita que a primeira consequência das mudanças na Globovisión é a perda na diversidade da informação transmitida ao público.

"Isso significa que na Venezuela não há outro canal com a mesma intensidade e qualidade oferecida pela Globovisión. Temos a Venevisión e Televen que são canais (privados) generalistas com pouco equilíbrio e espaço para a opinião" contra seis públicos que, segundo Correa, "divulgam propaganda."

Para especialistas, independentemente da guinada no estilo do canal, a mudança na linha editorial da Globovisión causa um impacto político e social.

Jesus Torrealba, apresentador da Globovisión, destaca que, de acordo com os resultados da última eleição presidencial, a oposição representa quase metade do país. Segundo ele, os eleitores de Capriles ainda não reconheram a vitória de Maduro e estão aguardando uma decisão sobre a impugnação apresentada por Capriles no Supremo Tribunal Federal da Venezuela.

"Fechar a válvula de escape que representa a insatisfação e a discordância, como é a natureza crítica da Globovisión, é mais um passo no caminho do confronto", disse.

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