Jovens se articulam na contramão do pessimismo com 'Imagina na Copa'

Mariana Campanatti, Mariana Ribeiro, Tiago Pereira e Fernanda Cabral deixaram seus empregos para criar o 'Imagina na Copa'
Image caption Criadores do projeto deixaram seus empregos para criar o 'Imagina na Copa'

Ônibus atrasado, aeroporto cheio, fila demorada, chope quente, sistema educacional precário... quem nunca reclamou desses problemas no Brasil?

Em uma tentativa de passar das lamentações para a ação, um grupo de quatro amigos que mora em São Paulo resolveu fazer algo a respeito. Pra isso, aproveitaram a frase que virou um dos bordões mais populares do país e criou o projeto "Imagina na Copa".

Só que nele a frase pessimista ganha uma conotação oposta, para incentivar iniciativas positivas e transformadoras que podem ser realizadas até o início do Mundial.

No site da organização, um novo vídeo é incluído toda semana com uma nova história de um projeto criado por um jovem que, de um jeito ou de outro, está fazendo algo para tentar melhorar o país. A ideia é justamente dar visibilidade para essas iniciativas para que elas possam crescer.

Image caption Projeto 'Esse ônibus passa aqui' é um dos apoiados pelo Imagina na Copa

"A Copa é um momento histórico e não podemos, de jeito nenhum, perder essa oportunidade. Só que, no nosso caso, preferimos não ficar só reclamando", diz Mariana Campanatti, uma das criadoras do Imagina.

"E então começamos a pensar em como reverter esse pessimismo e essa falta de ação", acrescenta outra sócia, Mariana Ribeiro. "Mostrar para essas pessoas que reclamavam que existem, sim, coisas legais acontecendo perto de onde vivem, feitas para mudar problemas à nossa volta."

Emprego na berlinda

E à medida que o projeto tomava forma na cabeça das duas e dos outros dois idealizadores, Fernanda Cabral e Tiago Pereira, eles começaram a questionar os próprios empregos e objetivos.

Foi nesse momento que Fernanda Cabral, outra sócia, percebeu que o Imagina na Copa seria apenas "uma paginazinha na internet ou uma coisa grande". Ela diz que a chamada rede de apoio dos quatro (formada especialmente por seus pais) topou bancá-los no começo, e eles então pediram demissão de seus empregos.

Em seguida, eles lançaram uma ação pra arrecadar dinheiro em um site de arrecadação coletiva de verbas, em que qualquer pessoa pode doar dinheiro para um projeto específico.

Com 294 doadores, eles conseguiram os R$ 25 mil que precisavam para investir em um site, em vídeos e na primeira oficina para capacitar jovens que pudessem repassar as ideias da organização e das ações selecionadas.

Segundo os idealizadores, os projetos geralmente são simples e fáceis de ser reproduzidos em outras partes do Brasil, e procuram resolver um problema real. É o caso, por exemplo, do "Que ônibus Passa Aqui?".

A iniciativa disponibiliza em seu site um adesivo usado para escrever qual ônibus passa em determinando ponto. E são os próprios cidadãos que imprimem e colam essa etiqueta nos pontos de ônibus da cidade.

Críticas

<span >O "Que ônibus passa aqui?" foi criado em Porto Alegre, onde a Prefeitura sinalizou que ia bancar o projeto, mas acabou recuando - e foram jovens que acabaram adesivando os pontos cidade afora.

Ações como essa abrem espaço para a discussão sobre se o "Imagina na Copa" e seus incentivadores não estão cuidando de um problema que não é apenas da população, e, sim, do governo.

”Não estamos facilitando a vida da Prefeitura, mas, sim, a nossa vida", afirma Mariana Ribeiro. "Mostrar que dá para fazer algo, seja sinalizar as rotas de ônibus ou criar uma biblioteca ambulante, é um jeito de pressionar o governo."

As três meninas também dizem acreditar que a internet é a ferramente ideal para reverter esse pessimismo pré-Copa, mas não pode ser a única.

“Não somos contra o ativismo de sofá, mas achamos que uma hora você tem que sair do sofá", diz Mariana Ribeiro, em referência a movimentos organizados principalmente em mídias sociais, que costumam ser criticados por não terem ações fora do ambiente online.

“São formas de ativismo complementares", afirma Mariana Campanatti. "Do seu sofá, você encontra pessoas com a mesma causa, que eventualmente saem de casa para realizar algo."

"Tudo bem a pessoa não fazer nada, mas ela tem que começar a pensar", acrescenta Fernanda. "A reflexão é para todos, a ação, não."

Veja abaixo alguns dos projetos que ganharam o apoio dos criadores do "Imagina na Copa".

Atados

Em uma história que se assemelha à do próprio Imagina na Copa, o projeto Atados foi criado por três amigos formados em administração na USP.

É uma espécie de rede social que ajuda pessoas que querem fazer trabalho voluntário, mas não sabem direito por onde começar.

No site, que centraliza essas vagas, a pessoa se cadastra e começa a procurar ações ou causas das quais gostaria de participar.

Há dezenas de instituições cadastradas, como a Fundação Gol de Letra e o Instituto Alana. Feita a escolha, o site faz a ponte entre voluntário e instituição.

Uma das ações que mais chamaram a atenção foi a participação de voluntários para organizar a festa de casamento entre dois idosos que viviam em uma casa de repouso.

Para as fundadoras do Imagina na Copa, o site é um exemplo de projeto inovador pensado e colocado em prática por jovens.

Praia da Estação

Os motivos para Fernanda Cabral, do Imagina na Copa, adorar o projeto Praia da Estação vão além do fato de ele acontecer em sua terra natal, Belo Horizonte. "É uma ação que nos faz reviver a cidade, de uma forma diferente e criativa", diz.

O projeto surgiu como reação a um decreto da prefeitura de BH proibindo eventos na Praça da Estação, um dos pontos turísticos mais antigos da cidade. Um blog anônimo foi criado em seguida, convocando os moradores a irem ao local, como forma de protesto.

Hoje, o local abriga shows, festas e apresentações, sempre com um lado divertido, com pessoas levando seu guarda-sol para dar um caráter de praia e slogans do tipo: "Ei, polícia, a praia é uma delícia".

Bibliocicleta

O projeto de um jovem da cidade baiana de Simões Filho, a cerca de 25 quilômetros de Salvador, chamou atenção do Imagina na Copa por ser simples, barato e viável também em outras cidades. O Bibliocicleta foi criado a partir de um trabalho de conclusão de curso de Design, na Universidade Federal da Bahia.

Nele, uma bicicleta é adaptada - com materiais simples como tubos de PVC - para se tornar uma bibilioteca itinerante.

Quado a bicicleta chega em um bairro, crianças e jovens podem escolher os livros (recebidos por doações) e ficar com eles.

Hoje, há oficinas em diversos Estados para se ensinar como se adapta a bicicleta.

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