Ataque em Boston expôs vulnerabilidade de eventos como Copa

  • 13 junho 2013
Unidade contraterrorista do Exército (foto: Valter Campanato/ABr)
Image caption Atentados à bomba devem ser maior preocupação das autoridades brasileiras, segundo analista

O ataque a bomba na Maratona de Boston em abril mostrou, para especialistas, a vulnerabilidade dos esquemas de segurança para grandes eventos e a dificuldade de conter atentados desse tipo.

Para eles, a melhor forma de tentar evitar uma ameaça extremista na Copa do Mundo é contar com a ajuda da população brasileira.

O Brasil está investindo cerca de R$ 1,8 bilhão em segurança para o evento – R$ 11 milhões só no treinamento e compra de equipamentos para unidades contraterroristas.

Analistas ouvidos pela BBC Brasil apontaram quais devem ser as principais preocupações e medidas a serem tomadas pelas autoridades brasileiras em relação à segurança durante o evento.

A um ano do mundial, nenhuma agência de inteligência internacional revelou indícios de qualquer mobilização extremista relacionada ao mundial no Brasil.

Porém, segundo Lou Marciani, diretor do Centro Nacional para a Proteção e Segurança do Público Esportivo, da Universidade do Sul do Mississippi, nos Estados Unidos, os ataques que deixaram três mortos e cerca de 260 feridos em abril deste ano em Boston mudaram o cenário mundial.

Veja no vídeo acima: Forças armadas ensaiam ações antiterrorismo para a Copa

Isso porque a suposta ação isolada de uma dupla de extremistas – que usaram materiais relativamente simples para construir duas bombas caseiras – não apenas furou a rede de segurança dos órgãos de inteligência e da polícia americana, como causou repercussão mundial instantaneamente.

"Sim, algo desse tipo pode acontecer no Brasil", disse Marciani. Segundo ele, se algum criminoso ou extremista tiver a intenção de atacar um alvo durante a Copa, a hipótese mais provável é que ele use bombas, ou carros-bomba. Atiradores, ataques químicos, biológicos ou com aeronaves são menos prováveis por serem menos efetivos ou mais complexos de se realizar, segundo o analista.

"Se você quiser machucar o maior número de pessoas possível, terá que usar explosivos", disse Marciani em relação às possibilidades estratégicas disponíveis para um eventual extremista.

Segundo ele, as bombas caseiras são fáceis de produzir, ocultar e ainda podem ser detonadas à distância.

A medida inicial para tentar prevenir esse tipo de ação, de acordo com Marciani, deve ser integrar e promover a troca de dados entre os órgãos de inteligência nacionais com seus equivalentes em países como EUA, Grã-Bretanha, França, Israel, etc. O objetivo é tentar detectar possíveis ações de extremistas conhecidos.

Segundo o delegado Humberto Prisco, porta-voz da Polícia Federal, esse intercâmbio de informações já está em funcionamento, independente do torneio. Até agora, tem sido efetivo, por exemplo, para prender grandes traficantes internacionais em território brasileiro.

Contudo, nem sempre os atentados são realizados por redes extremistas conhecidas, mas por indivíduos ou grupos pequenos, como ocorreu em Boston e no assassinato de um militar britânico em Londres no mês passado, segundo o analista Hugo Tisaka, da NSA Brasil, empresa especializada em segurança privada e de grandes eventos.

Eles podem ser realizados por células terroristas isoladas ou pelos chamados "imitadores". "São grupos que nada têm a ver com as demandas dos grupos mais "famosos" porém pela repercussão dos atos terroristas na mídia, resolvem replicá-los para conseguir o mesmo nível de atenção". Segundo ele, essas características dificultam muito a detecção de tais ações.

Segurança Nacional

Marciani e Tisaka compartilham da mesma opinião: a melhor forma de tentar evitar uma ameaça extremista é contar com a ajuda da população brasileira. Ou seja, educar os cidadãos para levar a sério e alertar as autoridades se identificarem algum objeto ou pessoa suspeita.

"No Brasil, não temos a consciência de que a sociedade é parte importante deste quebra-cabeças e culturalmente não estamos preparados para denunciar situações que fogem da normalidade", disse Tisaka.

Image caption Governo brasileiro está investindo R$ 11 milhões em unidades contraterroristas

"As pessoas têm que ficar mais vigilantes e ajudar a polícia. É preciso que elas se comprometam com isso", disse Marciani.

Ele afirmou porém que essa mudança de comportamento é difícil em um país não acostumado com ameaças extremistas. Campanhas educativas podem até alarmar a população.

"Quando o governo dos EUA implantou de fato o programa 'Segurança da Nação', com o lema 'viu alguma coisa, diga alguma coisa' (como consequência do 11 de Setembro) a população levou um tempo para entender, mas hoje ela é como uma segunda natureza para o americano".

Investimentos

A preparação que vem sendo montada envolve diversos órgãos. Em linhas gerais, a Abin (agência de inteligência brasileira) e a Polícia Federal estão lidando com os dados de inteligência.

As equipes armadas que estarão disponíveis nas cidades que receberão os jogos estão sendo treinadas e equipadas pelo Ministério da Defesa. Elas serão formadas por militares especializados do Exército e da Marinha.

Juntas, as duas forças receberão R$ 11 milhões para investir em unidades contraterroristas, segundo a previsão da Matriz de Responsabilidades da Copa 2014 (o documento que prevê todos os gastos do governo relacionados ao evento).

A verba é destinada ao treinamento de militares, atividades de inteligência, compra de munição, de equipamentos de comunicação, de vigilância, de gestão e de atendimento de emergências, entre outros, segundo o Ministério da Defesa.

Esse montante é parte de um orçamento geral de segurança de R$ 1,8 bilhão (a verba total para preparação para a Copa será de ao menos R$ 25 bilhões).

Estão previstos nesse orçamento recursos para o controle do espaço aéreo durante o Mundial (R$ 252 milhões), compra de equipamentos, capacitação de pessoal e campanhas (R$ 230 milhões), integração das instituições (R$ 782 milhões) e verbas específicas para o Exército (R$ 247 milhões) e para a Marinha (R$ 207 milhões).

Estão previstas, entre outras ações, o uso de sistemas de vigilância eletrônica nos estádios, uso de aviões não tripulados e equipes treinadas para lidar com ameaças cibernéticas, químicas, biológicas e até nucleares.

Cerca de R$ 182 milhões também estão sendo usados para melhorar o controle nos portos, aeroportos e fronteiras do país. Uma das ações mais notórias foi a Operação Agata 7, que entre maio e junho reuniu mais de 33 mil militares em ações de patrulhamento do fronteira. Mais de 25 toneladas de drogas foram apreendidas, além de quantidades de explosivos e armas.

Ladrões e batedores de carteira

Uma ameaça mais provável durante os jogos será a ação de criminosos contra turistas e torcedores estrangeiros e brasileiros. Apesar das polícias estarem tentando reduzir os índices de criminalidade das cidades que receberão jogos, ladrões e batedores de carteira devem se aproveitar da confusão gerara pela elevação do fluxo de pessoas.

Segundo Tisaka, os torcedores podem colaborar com as forças de segurança usando o bom senso e seguido algumas dicas básicas de segurança durante o evento.

Uma recomendação básica é carregar pouco dinheiro, apenas um cartão de crédito e documentos. Estrangeiros devem deixar seus passaportes nos cofres dos hotéis, ou em locais seguros, segundo o especialista.

Toda uma estrutura de delegacias destinadas aos turistas já existe nas cidades sede – onde é possível receber atendimento em inglês.

Segundo Tisaka, todas as áreas com grande concentração de pessoas são potencialmente perigosas, tais como aeroportos e imediações de estádios.

"Não caminhe conversando ao telefone, ou ostentando máquinas fotográficas ou joias e relógios. Procure munir-se de todas as informações antes de iniciar o seu deslocamento, para não ter que perguntar para estranhos - e mostrar que não está familiarizado com o lugar", afirmou.

Outra dica do analista é tomar cuidado com as informações do GPS do carro ao tentar chegar aos estádios ou sair deles.

"O GPS não diferencia as áreas críticas das seguras. Pergunte para uma pessoa de confiança se o caminho indicado não irá levá-lo para dentro de uma área de alta incidência criminosa".

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