Com o avô na Seleção e neto indiferente família ilustra afastamento de torcedores

Personagens futebol | Foto: Arquivo Pessoal
Image caption Filho e neto de ex-jogador, Fernando (esq.) e Marcello Milman não vão a estádios

O avô foi centroavante da seleção brasileira, o filho chegou a ser futebolista amador e ex-diretor do Fluminense, já o neto não passa de um torcedor bissexto. A história da família Milman é simbólica do processo de afastamento dos torcedores brasileiros dos estádios e do futebol em geral.

“Acompanho o Fluminense, onde meu avô jogou , pela TV. Não vou muito a estádios”, comenta o analista financeiro Marcello Milman, de 32 anos.

Ele provavelmente faz parte do contingente que o consultor Fernando Ferreira, da Pluri Consultoria, chama de "indiferentes", que apesar de gostarem de futebol estão cada vez mais afastados do esporte.

O avô de Marcello, Adolpho Milman, conhecido como Russo, foi atacante do Fluminense e da seleção brasileira nos anos 1930 e 1940.

Filho de uma família de imigrantes estabelecida no Rio Grande do Sul, Russo enfrentou a resistência da família e fugiu de casa, para o Rio de Janeiro, para realizar o sonho de jogar futebol profissionalmente.

Até hoje, é um dos maiores artilheiros da história do Fluminense, com 154 gols.

Livros x bola

Image caption O ex-atacante Adolfo Milman, o Russo.

O filho de Adolpho, Fernando, chegou a praticar futebol amador e flertar com o profissionalismo, mas sucumbiu à pressão paterna para que se formasse na universidade, invertendo a história vivida pelo próprio Russo.

"Se a vida tivesse seguido um curso natural, talvez eu também tivesse sido jogador de futebol, mas meu pai me proibia de jogar, fazia pressão para que eu me formasse", conta Fernando.

Ainda assim, ele continuou ligado ao esporte. "Na minha época, a vida da juventude de classe média do Rio de Janeiro era ir ao Maracanã todo domingo. Não perdia um jogo do Fluminense", diz.

Com o tempo, ele deixou de ir aos estádios com tanta frequência. "Parei de ir nos anos 1980", conta. "O futebol foi piorando de qualidade, os acessos ficaram mais difíceis, há mais violência e há a alternativa da TV", enumera ele para citar os fatores que o levaram a se afastar dos estádios.

Ele lamenta a perda de público, para a qual também contribuiu. "Na adolescência, eu ia ao Maracanã para ver um Fluminense x América com 50 ou 60 mil pessoas, mas, hoje, mesmo um Fla x Flu não atrai mais de 20 mil", diz.

Ainda assim, continuou de alguma forma próximo ao futebol, e ao Fluminense, incluindo um período como diretor do clube, em 1996.

Mas ele admite que seu próprio afastamento do esporte contribuiu para que o filho não seguisse a paixão de maneira tão intensa como o pai e o avô. "Acho que em 32 anos, fui ao estádio com meu filho, no máximo, umas dez vezes", diz.

"Hoje, ele provavelmente sabe mais sobre basquete americano ou futebol europeu do que sobre o Fluminense", comenta.

Marcello confirma: "Gosto de futebol, mas, por gostar de bom futebol, acabo preferindo ver jogos de campeonatos europeus do que o futebol brasileiro, que acho mal jogado – mais lento, a arbitragem para muito o jogo, etc.".

Para ele, "o programa de ir aos estádios não é muito atraente hoje em dia". "É difícil ir e voltar, não tem onde estacionar, a qualidade dos jogos é ruim (jogadores, campos, arbitragem), a qualidade dos estádios é baixa (conforto, serviços, distância para o gramado), fora o risco de violência de torcidas, além de ser possível ver o jogo pela TV", diz.

Apesar disso, Marcello diz que pretende ir aos estádios para assistir aos jogos da Copa do Mundo no ano que vem. "Pretendo ir aos jogos porque é um evento único, no qual várias das razões para não ir aos estádios provavelmente não se aplicarão, como a qualidade dos novos estádios e dos jogos e até a segurança", observa.

Apesar disso, ele mantém uma posição crítica com a organização do evento no Brasil. "Acho que estão gastando dinheiro demais com a organização da Copa, sem muita garantia de legados positivos", comenta.

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