EUA armam rebeldes, mas Obama continua entre ação e indecisão na Síria

Rebeldes do Exército Livre da Síria correm de atiradores (Reuters)
Image caption Governo americano vai enviar ajuda militar direta a rebeldes sírios

Ao anunciar que vai armar os rebeldes sírios, o presidente americano, Barack Obama, deixou clara a sua posição de que o regime de Bashar al-Assad cruzou uma “linha vermelha” ao usar armas químicas contra sua própria população no conflito civil.

O anúncio marca uma mudança significativa de atitude do governo dos Estados Unidos em relação ao conflito. Entretanto, ainda não está claro o quanto o governo americano acredita que Assad passou do limite, nem, consequentemente, quão intensa será a sua resposta.

A Casa Branca disse na quinta-feira ter informações confiáveis de que o regime sírio usou armas químicas, inclusive gás sarin, contra a oposição.

Um porta-voz da Presidência americana para a Segurança Nacional, Ben Rhodes, disse a jornalistas que entre cem e 150 pessoas morreram no último ano em consequência do uso de armas químicas "em múltiplas ocasiões" e "em pequena escala", segundo as avaliações da inteligência americana.

"É claramente uma pequena porção da perda catastrófica de vidas na Síria, que agora já passa de 90 mil", disse Rhodes, referindo-se a uma estimativa da ONU de que o número de mortos no conflito sírio já tenha atingido 93 mil desde março de 2011.

"Mas, como temos dito com consistência, o uso de armas químicas viola as normas internacionais e passa dos limites que existem há décadas na comunidade internacional."

Obama, segundo o assessor, "disse que o uso de armas químicas mudaria o seu cálculo, e mudou".

Indecisão

De imediato, o governo Obama pretende enviar ajuda militar direta aos rebeldes sírios – antes, a ajuda era não-letal, compreendendo por exemplo suprimentos médicos e alimentos, enfatizava a Casa Branca.

Na imprensa americana, entendeu-se que os EUA proverão armas leves e munição para os rebeldes, apesar dos pedidos destes por baterias antitanques e antiaéreas.

Segundo o jornal The Wall Street Journal, também estaria na mesa de Obama uma proposta das Forças Armadas americanas de estabelecer uma zona de exclusão aérea sobre parte do território sírio.

Nela, o Ocidente poderia treinar e equipar os rebeldes, além de permitir um fluxo seguro de saída de refugiados.

Entretanto, Ben Rhodes enfatizou que uma zona de exclusão aérea na Síria seria um plano complexo, sem garantias de sucesso e com um custo imprevisível para os EUA.

O editor de América do Norte da BBC, Mark Mardell, avaliou que a declaração da Casa Branca sobre a Síria pareceu hesitante.

Se por um lado o presidente americano "colocou um pé na lama", por outro o fez sem muito entusiasmo, disse Mardell.

Pressão

Em casa, Obama está sob pressão da oposição republicana no Congresso para endurecer contra o regime de Assad.

Os senadores John McCain e Lindsey Graham divulgaram na quinta-feira uma declaração conjunta em que dizem que "a credibilidade dos EUA está em jogo" no conflito sírio.

"Apenas prover armas não é suficiente para mudar o equilíbrio de poder contra Assad", disseram os senadores.

"O presidente precisa obter apoio de uma coalizão internacional para agir militarmente contra a capacidade de Assad de usar força aérea e mísseis balísticos, e de transportar suprimentos para as suas forças por ar", defenderam.

"Isso pode ser feito, como dissemos muitas vezes, usando armas antiaéreas, como mísseis de cruzeiro."

No cenário internacional, as reações ao anúncio de Obama foram recebidos de formas diferentes.

Para o analista de política da BBC, Nick Robinson, a mudança de tom aproxima a Casa Branca da posição dos governos britânico e francês, que defendem que o Ocidente force Assad a negociar com os rebeldes, impedindo-o de impor uma vitória militar aos seus oponentes.

Antes do anúncio da Casa Branca, o ministro do Exterior britânico, William Hague, que estava em Washington, disse que as potências precisavam "estar preparadas para fazer mais para salvar vidas, para pressionar o regime de Assad a negociar seriamente".

Em tom mais moderado, um porta-voz do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse à BBC que o secretário mantém uma posição contrária a uma "maior militarização" do conflito sírio.

O povo sírio, disse o porta-voz, precisa de paz e não de mais armas.

Já para a Rússia, que tem continuado a vender armas para a Síria e bloqueado iniciativas contra o regime de Assad no Conselho de Segurança da ONU, as evidências dos EUA sobre o uso de armas químicas "não são convincentes".

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