Fortaleza, palco do próximo jogo do Brasil, tem estádio cercado por obras

operários trabalhando (foto: BBC)
Image caption Operários ainda trabalham no entorno do Castelão, primeiro estádio a ser entregue

Fortaleza, onde a seleção brasileira disputa a segunda partida da Copa das Confederações, na quarta-feira, contra o México, se orgulha de ter sido a primeira cidade-sede da Copa do Mundo do ano que vem a inaugurar seu estádio, ainda no ano passado.

Mas o mesmo não se pode dizer das demais obras de infraestrutura na cidade para a competição do ano que vem, em sua maior parte ainda em andamento. Várias obras inicialmente previstas para a atual competição tiveram cronograma revisto e só devem ficar prontas para 2014.

A única grande obra já entregue para a Copa das Confederações, o alargamento da avenida Alberto Craveiro, que passa em frente ao estádio Castelão, foi inaugurada pela prefeitura no último sábado, a apenas quatro dias do primeiro jogo do torneio no local.

Ainda assim, a avenida ainda não tem calçadas e canteiro central em muitos pontos, nem pontos de travessia de pedestres. Na manhã desta segunda-feira, quando a reportagem da BBC Brasil visitou o local, a movimentação de operários trabalhando era intensa.

A Copa das Confederações, que reúne os campeões continentais, o último campeão mundial e o país anfitrião, é considerada um "ensaio" para a Copa do Mundo do ano seguinte, no qual são testados estádios e a infraestrutura de algumas cidades-sede do Mundial.

Canteiro de obras

O estádio Castelão foi entregue no dia 16 de dezembro, após uma reforma de 21 meses, que custou R$ 518,6 milhões. O local já foi palco de várias partidas, incluindo dois clássicos locais, entre Ceará e Fortaleza, e de um show de Paul McCartney, em maio.

Mas seis meses depois da reinauguração, o entorno do estádio ainda mais parece um canteiro de obras. "Eu achava que as obras já estariam prontas, depois de tanto tempo", comenta o comerciário Danilo Lima, de 27 anos, que mora a poucas quadras do estádio.

O ambulante Onivaldo Ferreira, de 57 anos, que pretende instalar sua barraquinha de bebidas nas proximidades do estádio no dia do jogo do Brasil, se disse preocupado com o acesso ao local.

"Não tem semáforo, faixa de pedestres, nem nada. Quero ver os turistas gringos atravessando essa avenida em dia de jogo", comentava, sem saber que o tráfego local será interditado nos dias de jogos da Copa das Confederações.

Image caption Material de construção ainda está empilhado na entrada do estacionamento do estádio

Segundo a prefeitura de Fortaleza, as obras do entorno do Castelão serão protegidas por tapumes para evitar transtornos aos torcedores. A avenida Alberto Craveiro será fechada e suas quatro faixas transformadas numa passarela, batizada de "Fan Walk", para o trânsito dos visitantes.

"No dia do jogo, tenho certeza de que eles vão dar um jeito e tudo vai funcionar direito, mas nós que moramos aqui e nem vamos ao jogo é que vamos sofrer até a obra ficar pronta", reclamava o vendedor Joélcio Nascimento, de 23 anos.

Apesar de a Prefeitura de Fortaleza e o governo do Estado do Ceará descartarem qualquer problema relacionado ao acesso dos torcedores ao estádio, a Câmara Municipal aprovou, na semana passada, um feriado na cidade nos dias de jogos da Copa das Confederações, para desafogar o trânsito e facilitar a chegada ao Castelão.

Além da partida entre Brasil e México, o Castelão será palco também do jogo entre Nigéria e Espanha, no dia 23, e de uma das semifinais, no dia 27, que poderá incluir a seleção brasileira caso esta se classifique em segundo lugar em seu grupo.

Cronograma revisto

A Matriz de Responsabilidades da Copa, o documento que estabelecia as instâncias, públicas ou privadas, responsáveis pela execução das obras para o torneio, previa a conclusão, até dezembro do ano passado, de quatro obras viárias de responsabilidade da prefeitura, incluindo corredores de ônibus em três avenidas e a reforma do principal eixo de acesso entre o centro da cidade e o estádio Castelão, com a construção de quatro túneis e um viaduto.

Nenhuma dessas obras foi concluída ainda. De acordo com o Portal da Transparência, mantido pela Controladoria Geral da União para acompanhar o andamento das obras da Matriz de Responsabilidades, essas quatro obras tiveram o cronograma revisto e só devem ser inauguradas em dezembro.

Outra obra prevista para dezembro do ano passado, mas sob responsabilidade do governo do Estado, era a inauguração de duas novas estações do Metrofor, o sistema de metrô de Fortaleza. A nova previsão de entrega é dezembro deste ano.

Também sob responsabilidade do governo do Ceará está a construção do sistema de VLT (veículo leve sobre trilhos), espécie de metrô de superfície, que ligará a região de Mucuripe, na orla da cidade, ao bairro de Parangaba, próximo ao estádio Castelão. A inauguração, inicialmente prevista para este mês, a tempo para a Copa das Confederações, foi reprogramada para março do ano que vem.

Os turistas que chegarem nos próximos dias a Fortaleza por via aérea também não encontrarão pronta a reforma do Aeroporto Internacional Pinto Martins, de responsabilidade do governo federal. A reforma, que inclui a ampliação da capacidade do terminal, deveria ter sido entregue neste mês, segundo o cronograma original, mas só deve ficar pronta em dezembro, segundo a última estimativa.

A única obra cuja inauguração foi antecipada, de acordo com o Portal da Transparência, é a construção de um terminal de passageiros no porto de Fortaleza. Mas essa era uma das poucas obras que já inicialmente não estavam previstas para ficar prontas antes da Copa das Confederações – a previsão inicial de inauguração era dezembro deste ano e foi revista para novembro.

Contactada pela BBC Brasil, a Secretaria Municipal Extraordinária da Copa de Fortaleza argumentou que a atual gestão na prefeitura, que assumiu em janeiro deste ano, recebeu as obras com apenas 2% de andamento e conseguiu cumprir "98%" do que estava previsto naquela ocasião para a Copa das Confederações.

Mesmo sem as melhorias de transporte e acesso prometidas inicialmente para a Copa das Confederações, a prefeitura defende que não haverá problemas de acesso e sugere a chegada dos torcedores ao estádio em uma das oito linhas especiais de ônibus oferecidas nos dias de jogo.

O governo do Estado também afirma que os visitantes da cidade não enfrentarão problemas. Segundo a Secretaria Especial da Copa do Ceará, Fortaleza já é um dos maiores destinos turísticos do país e recebe anualmente um grande número de turistas, sem enfrentar problemas de acomodação e atendimento.

A Secretaria de Turismo do Estado divulgou na semana passada uma estimativa de que 265 mil turistas devem passar por Fortaleza durante este mês, um aumento de 30,8% em relação ao mesmo período do ano passado.

Transparência em questão

O Instituto Ethos, que vem fazendo um acompanhamento das ações públicas para a Copa do Mundo e para os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, divulgou recentemente um índice de transparência das cidades-sede e dos Estados, para avaliar a abertura dos órgãos públicos em relação às ações e gastos ligadas aos eventos.

A transparência da prefeitura de Fortaleza, assim como de outras nove cidades-sede, foi considerada "muito baixa" pelo instituto, que deu à capital cearense a terceira pior avaliação entre as 12 cidades-sede, à frente apenas de Cuiabá e Manaus. Apenas Porto Alegre e Belo Horizonte tiveram transparência classificada como média.

Entre os Estados, porém, o Ceará foi o mais bem avaliado, com transparência considerada "alta" – mesma classificação de Pernambuco, que teve um índice ligeiramente menor.

A Secretaria Municipal Extraordinária da Copa contesta a avaliação do Instituto Ethos e afirma que ela é "injusta". Segundo o órgão, a prefeitura disponibilizou desde o início das obras um sistema de acompanhamento e monitoramento, por acesso remoto, para o Tribunal de Contas dos Municípios do Estado do Ceará (TCM), onde seria possível acompanhar o andamento das obras.

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