Legado de colaboração em protestos inspira novas empresas no Egito

Image caption A internet teve papel fundamental para manter os protestos no Egito

Pode-se tirar pelo menos duas lições importantes das manifestações de protesto como as que se tem visto no Brasil e em outros países. A primeira delas é que o povo, aglutinado em uma multidão, pode conseguir qualquer coisa que deseja. A segunda é que é necessário haver redes de comunicação e colaboração capazes de convocar, reunir e ativar essa multidão.

No Egito, os protestos que acabaram levando à queda de um regime que se mantinha no poder há 30 anos, causaram também um outro impacto, menos aparente - acabaram se tornando o catalisador da criação de um enorme número de novas empresas de tecnologia em todo o país, as chamadas start-ups.

Agora, um grande número de jovens egípcios se dedica a reconstruir o país, não tijolo por tijolo, mas byte por byte.

Inspirados pelos princípios das manifestações de rua que acabaram levando à revolução que destronou o governo, inúmeras dessas novas empresas de informática se utilizam da noção de colaboração mútua e poder da multidão que orientaram os protestos.

Chamadas de graça

Para uma destas start-ups, a ideia do negócio nasceu entre os milhares de manifestantes que se comprimiam na Praça Tahrir, no centro da cidade do Cairo, para protestar contra o governo do então presidente, Hosni Mubarak.

Image caption A tecnologia Bluetooth permitiu a criação de uma rede independente na Praça Tahrir

"O governo tinha cortado a internet e todas as redes de comunicação em todo o país," relembra Mohammad Omara, um designer de chips semicondutores.

A ação do governo ameaçava a espinha dorsal do movimento, à medida que tirava dos manifestantes a capacidade de disseminar suas ideias rapidamente.

Omara conta que começou a pensar numa forma de manter as pessoas conectadas.

Decidiu apelar para a tecnologia Bluetooth, disponível em praticamente todos os telefones celulares, computadores e outros aparelhos que se comunicam remotamente a curta distância.

"Com Bluetooth, eu posso conectar meu celular com o seu, onde quer que você esteja, e imediatamente estabelecer uma linha de comunicação" diz ele.

O desafio de usar Bluetooth para conectar a multidão era imenso. O alcance é limitado a apenas uns 20 metros - e é idealizado para conectar apenas dois aparelhos de cada vez. Ele precisava encontrar um jeito de ao mesmo tempo cobrir toda a área da Praça Tahrir e construir uma rede efetiva.

Dois anos após as manifestações, a empresa criada por Omara oferece um aplicativo que ulitiza algorítimos inteligentes e permite que dispositivos Bluetooth recebam e façam ligações sem a necessidade de decodificá-las.

O aplicativo pode ser adquirido por US$5 (cerca de 11 reais) e fornece uma cobertura de até 300 metros quadrados.

Image caption Me liga: O novo aplicativo vai permitir que usuários façam ligações de graça de seus celulares

A empresa está desenvolvendo um aplicativo que vai permitir que os usuários façam ligações de graça pela rede, transformando os celulares numa espécie de walkie-talkie, conectando com outros celulares num raio limitado.

E poderá também acabar com o problema de sobrecarga enfrentado pelas operadoras de redes em situações de superlotação que provocam um nível elevado de acessos simultâneos.

Cerca de 4% de todas as ligações de celulares são feitas por usuários que estão geograficamente perto uns dos outros, como aconteceu na Praça Tahrir, lembra Omara.

Mente aberta

A empresa de Omara é apenas um dos muitos exemplos que mostram uma nova cultura empresarial criada no país quase que como um subproduto das manifestações.

Ahmed Alfi, presidente da Sawari Ventures acredita que "o talento tecnológico disponível no Egito agora conta também com gente com mente aberta, capaz de criar um produto, e com um mercado pronto para absorvê-lo". E isso, segundo ele, foi graças à instauração dessa mentalidade de cooperação a partir das manifestações.

Criada por dois jovens de 22 anos, recém-formados em Engenharia Eletrônica pela Universidade do Cairo, a empresa Instabug é outra start-up que exemplifica esse espírito de colaboração.

Image caption Os fundadores da Instabug, Omar Gabr (à esquerda) e Moataz Soliman

Observando que durante os protestos os manifestantes sacudiam seus celulares com raiva sempre que perdiam o sinal de contato, eles resolveram desenvolver um programa para estimular os usuários a informar as empresas criadoras de apps sempre que houver um mal funcionamento do aplicativo.

"Basta sacudir o celular", diz Moataz Soliman, um dos fundadores da empresa. Ele acredita que quando o usuário fica irritado por não obter o que espera do aplicativo a primeira coisa que faz é balançar o aparelho com raiva. "É uma reação natural!", diz ele.

Agitar o aparelho faz com que uma mensagem escrita na tela pelo próprio usuário seja automaticamente enviada à empresa indicando a ocorrência do mal funcionamento no programa utilizado o que permite que os programadores comecem a corrigir o aplicativo imeditamente.

Image caption O aplicativo permite que o usuário indique o erro escrevendo na própria tela do celular

"É muito difícil para as empresas obter esse tipo de informação, que é muito valiosa", acrescenta Soliman. Ele diz que os usuários dificilmente se sentem motivados a preencher formulários comunicando o erro.

Participação coletiva

Mas o espírito de colaboração presente nas start-ups egípcias vai além de conectar a massa de manifestantes e de consertar erros de programação.

Para tentar combater a crescente disparidade educacional existente no país, Mostafa Farahat, um dos fundadores da start-up Nafham, quer construir a maior plataforma educacional em vídeo online do mundo árabe.

"Temos 18 milhões de estudantes. Já estamos superlotados, mas em 2017 teremos um deficit de 700,000 cadeiras", diz Farahat.

Cada vez mais comuns nos países ocidentais, os cursos online ainda estão pouco disponíveis na língua árabe. Apenas 1% do conteúdo existente se encontra disponível em árabe, um idioma usado por mais de 300 milhões de pessoas.

A Nafham, que em árabe significa "nós compreendemos", criou um modelo pioneiro chamado de ensino de massa, que incentiva os estudantes a filmar e carregar na rede, eles próprios, as lições em formato de vídeo.

"Não queremos que o aprendizado ocorra numa via de mão única," diz Farahat. "Queremos estimular as pessoas a fazerem os próprios vídeos."

Depois de avaliados, os vídeos passam a integrar o currículo da rede de ensino público do Egito.

Image caption A menina Lara Hossam, de 14 anos ,criou um vídeo para uma aula de geografia

Os alunos competem mensalmente por prêmios que incluem computadores, tabletes, câmeras fotográficas e filmadoras digitais, que por sua vez vão colaborar para melhorar a qualidade do material que produzem.

Farahat acrescenta que a plataforma vai ajudar a eliminar a necessidade dos pais de contratarem professores particulares para seus filhos, o que atualmente representa um gasto anual de US$ 2 bilhões a US$ 3 bilhões às famílias egípcias.

Em apenas três meses, os estudantes já fizeram upload de mil vídeos no site.

Lara Hossam, de 14 anos, fez o upload de um gráfico que explica as características demográficas do deserto egípcio, para ser usado por quem tiver perdido a aula de geografia.

É essa mentalidade de participação coletiva e colaboração que está por trás deste boom das start-ups no Egito, e que tem se destacado mundialmente.

Agora, muitos jovens revolucionários egípcios estão buscando formas de mudança para o país que vão além de simplesmente tirar os políticos de sua confortável acomodação. Eles querem também acabar com a "mesmice" no mundo dos negócios.

"Temos que pensar de modo diferente, encontrar soluções alternativas," acrescenta Farahat.

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