Com hotéis lotados, amigos apelam a motel após jogo do Brasil em BH

William e Julio, que foram ao Mineirão torcer pelo Brasil (Foto: Rogerio Wassermann/BBC Brasil)
Image caption William (à esq) disse que a saída do Mineirão foi 'caótica'

A escassez de vagas e os preços altos dos hotéis em Belo Horizonte entre terça e quarta-feira, quando o Brasil venceu o Uruguai na cidade pela semifinal da Copa das Confederações, levaram muitos turistas-torcedores a apelar para soluções pouco usuais.

Após rodar pela cidade por mais de duas horas na noite de quarta-feira, em busca de um quarto vago de hotel, o microempresário paulista José Luís Gomes, de 33 anos, acompanhado de dois amigos, decidiu que a única solução era passar a noite em um motel na periferia da cidade.

"Desistimos de procurar. Parece que não há lugar em nenhum hotel", disse ele, olhando o relógio que já marcava 23h30. "Só não sei o que vão pensar ao ver três marmanjos entrando juntos de táxi no motel."

A mesma solução foi encontrada pelos amigos engenheiros agrônomos William Gustavo Bernardes Elias, de 32 anos, e Júlio Imamura Júnior, 26, que foram de Cuiabá, onde moram, até Belo Horizonte para assistir à partida no estádio do Mineirão.

Os dois pretendiam voltar a Cuiabá ainda na noite de quarta-feira, mas perderam o voo e tiveram que ficar na capital mineira por mais uma noite. "Não conseguimos chegar a tempo no aeroporto por causa das manifestações. A saída do estádio foi caótica", disse Elias.

Após tentar até a 1h da manhã encontrar um hotel com vaga, eles acabaram se contentando em passar a noite em um motel em Vespasiano, município da região metropolitana de Belo Horizonte próximo ao Aeroporto Tancredo Neves.

Além da falta de vagas nos hotéis, os dois reclamavam também dos preços cobrados dos turistas. "As tarifas estavam bastante salgadas, até no motel", comentou Iamamura Júnior. "Até os táxis para sair do Mineirão estavam aproveitando para cobrar acima da tabela."

Ampliação

Segundo o Sindicato dos Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Belo Horizonte (Sindhorb), a ocupação média dos hotéis da cidade nos últimos dias ficou entre 80% e 90%, bastante superior aos 65% a 75% normalmente verificados nesta época do ano. Entre os hotéis com categoria superior a três estrelas, no entanto, a ocupação era de praticamente 100%.

Com a procura em alta, muitos hotéis aproveitaram para elevar suas tarifas em mais de 100%. Alguns hotéis de categoria superior chegavam a cobrar quase R$ 2 mil por uma noite em um quarto individual com reserva de última hora.

Image caption Alfonso Torres não recomenda vinda ao Brasil

Segundo Paulo César Pedrosa, presidente do Sindhorb, somente houve um aumento significativo na ocupação dos hotéis da cidade no período do jogo do Brasil. "Nos dois primeiros jogos da Copa das Confederações no Mineirão (Nigéria e Taiti, no dia 17, e Japão e México, no dia 22) o movimento foi normal", disse.

A alta ocupação dos hotéis e a elevação acentuada das tarifas ocorreu também em outras cidades. Em Brasília, por exemplo, onde foi jogada a partida de abertura da competição, entre Brasil e Japão, no dia 15, a ocupação hoteleira chegou a 95% e também havia casos de diárias elevadas em mais de 100%.

Mas o problema foi mais acentuado em Belo Horizonte, cidade mais acostumada a receber turismo de negócios do que de lazer.

Segundo o Ministério do Turismo, a região metropolitana de Belo Horizonte tem hoje 21.809 unidades habitacionais no setor hoteleiro, com a previsão de implantação de mais 8.209 até o ano que vem.

Para Pedrosa, o grande problema da rede hoteleira de Belo Horizonte não será conseguir atender à demanda da Copa do Mundo de 2014, que dependendo da importância das partidas poderá ser inferior à esperada, como aconteceu no atual torneio.

"O maior problema vai ser onde arrumar tanto hóspede para encher esses quartos depois que a Copa passar", disse.

Segundo ele, o sindicato pede ao governo a construção de novos centros de convenções e exposições para estimular o turismo de negócios. "Belo Horizonte não tem hoje um problema de hotelaria, mas tem problema de falta de espaço para eventos", afirma.

'Não recomendo'

Para Pedrosa, as altas tarifas cobradas pelos hotéis são normais em momentos de alta demanda. "O turista que vem para a Copa precisa estar preparado para esse tipo de contratempo", diz.

O alto custo das diárias foi apontado pelo aposentado mexicano Alfonso Torres, de 67 anos, como uma das razões para desistir de vir novamente ao país no ano que vem, para a Copa do Mundo.

"Saí muito decepcionado com essa Copa das Confederações", disse ele, que assistiu às três partidas disputadas no Mineirão e às duas realizadas até aqui no Maracanã, no Rio de Janeiro (México e Itália, no dia 16, e Espanha e Taiti, no dia 20).

Além dos preços altos, Torres reclama das manifestações, dos sistemas de transporte e da falta de informações. "Aqui ninguém fala espanhol", observa.

Ele diz ter caminhado mais de quatro quilômetros, entre o Mineirão e o aeroporto da Pampulha, em busca de um táxi para voltar ao hotel depois do jogo do Brasil. "Não recomendo a outros turistas que venham ao Brasil para a Copa", afirmou.

Notícias relacionadas