Presidente do Egito completa um ano de poder com país dividido

Protestos contra governo Morsi | Foto: BBC
Image caption Divisão: em nova crise política, opositores pedem saída de Morsi

Há um ano, ao herdar um país contaminado pela corrupção e destruído economicamente, o presidente Mohammed Morsi assumiu a liderança do Egito com a promessa de mudar a trajetória da nação em apenas 100 dias.

Mas, passado um ano desde sua eleição, ele enfrenta a ira e a frustração de grande parte do país. Nesta semana, nas ruas do Cairo, em frente a uma mesquita no distrito de Nasr, apoiadores e oponentes do governo Morsi entraram em violento confronto.

A tensão entre os dois grupos parece estar se espalhando por todo o país, com dezenas de feridos e pelo menos um morto em Alexandria (segundo a TV estatal egípicia, seria um jornalista norte-americano).

Estima-se que ao menos cinco pessoas tenham morrido durante os confrontos no norte do país, o que indica o retorno de um cenário de instabilidade política.

Frustração

A chegada ao poder de Morsi concluiu o período de transição sob a direção militar que se seguiu à queda, em fevereiro de 2011, do regime de Hosni Mubarak.

Mas essa transição parece não ter contido a insatisfação, de pelo menos uma parte da população, diante da ausência de um plano sócio-econômico eficaz para tirar o país da crise.

Desde começo de seu mandato de quatro anos, Morsi parece ter caído em desgraça na relação com os representantes de instituições-chave do país, como o chefe do Judiciário e da polícia, além não manter boa relação com a mídia e parte da classe artística.

Nesta semana, numa tentativa às pressas de reverter a onda de descontentamento contra seu governo, Morsi fez um pronunciamento na TV para tentar conter os ânimos dos opositores, que devem ir às ruas em um grande protesto marcado para domingo.

"Desde o primeiro dia tenho enfrentado uma conspiração atrás da outra, eu que sou o primeiro presidente eleito com liberdade democrática", disse Morsi em audiência com oficiais de alto escalão do governo e apoiadores, no Cairo.

Image caption Mohhamad Morsi foi à TV para tentar acalmar os ânimos da oposição

"Como sequer o melhor dos líderes poderia obter grandes conquistas num ambiente tão envenenado? Em apenas um ano, tivemos quase 4,9 mil greves e 22 tentativas organizadas de protesto para tentar levar um milhão de pessoas às ruas. Os ex-aliados ao antigo regime (de Mubarak) planejam o colapso do Estado", concluiu o primeiro presidente islâmico do Egito.

Oposição

A divisão entre opositores e simpatizantes de Morsi parece ter atingido seu nível mais crítico.

O grupo opositor, que inclui esquerdistas, liberais e secularistas, está unido contra os islâmicos de Morsi, mas aparentemente sem uma estratégia unificada. Ainda assim, ameaçam tentar repetir, no domingo, o levante que derrubou Mubarak.

"A revolução ainda não acabou", disse Mohamed ElBaradei, ex-diplomata na ONU, que se tornou um dos rostos mais conhecidos da oposição a Morsi, em declaração ao jornal jornal Al-Hayat.

A oposição acusa o presidente e seu partido, a Irmandade Islâmica, de tentar "islamizar" - legitimar a religião acima do Estado - o país, dando aos islâmicos o monopólio do poder em instituições importantes.

Os jovens egípcios também parecem ter embarcado na campanha de oposição, com o movimento chamado Tamarud (Rebelde), e apoiam partidos e figuras opositoras como ElBaradei.

Durante a campanha, eles afirmaram ter coletado mais de 15 milhões de assinaturas pedindo que Morsi deixe do poder.

"Esse é um voto de desconfiança à Irmandade Islâmica do presidente", disse à BBC Árabe Mahmoud Badr, líder do Tamarud.

Mais conflitos

Com essa convocação de opositores para uma grande demonstração no domingo, os islâmicos que apoiam o governo Morsi também passaram a organizar manifestações - e o encontro dos dois grupos pode resultar em um violento conflito.

Com slogans pró-islamismo, os manifestantes da situação prometeram defender o presidente. "Eles estão nos ameaçando com os protestos, mas hoje prometemos que eles serão massacrados (no domingo)", ameaçou no início da semana Tarek Zomor, um dos líderes do Gamaa al-Islamiya, um dos grupos militantes mais importantes de apoio a Morsi.

Temendo um conflito em massa, o Exército egípcio já está se mobilizando com veículos e tropas em localidades estratégicas do país.

O ministro da Defesa, general Abdel-Fattah al-Sisi, alertou para uma possível intervenção militar para evitar que o país entre num novo período de intensos conflitos.

Mídia

No Egito, a TV e a internet têm sido canais de grande oposição ao governo de Morsi, que tem dado mais liberdade à mídia em comparação com o regime de Mubarak.

Um grande número de canais privados de TVs e jornais que têm surgido nos últidos anos mostra, quase diariamente, Morsi sendo ridicularizado em sátiras, programas de entrevistas e por colunistas.

"Se Morsi fosse uma pessoa mais sensível, ele já teria saído do poder a pedido dos milhões de egípcios que perderam a fé em seu governo e que vão tirá-lo do poder no dia 30 de junho", escreveu o famoso escritor Alaa Al-Aswan, em sua coluna no jornal Al-Masry Al-Youm.

Economia

Para millhões de pobres no Egito, a economia estagnada mostra sua face no colapso de setores como o do turismo, no aumento de preços dos alimentos e no crescimento de uma população cada vez mais dependente do programa de distribuição de pão.

As reservas internacionais representam hoje metade do que eram no regime de Mubarak, e o valor da moeda egípcia caiu 10% em relação ao dólar desde o ano passado.

O número de crimes também cresceu no último ano, já que policiais abandonaram seus postos, e o serviço público que já era deficiente sofre mais ainda com as greves quase que diárias dos funcionários.

Até o momento, a única resposta do governo para combater a crise têm sido os discursos contra os protestos da oposição.

"Isso é um absurdo. A cada dois ou três meses eles vão querer mudar de presidente. Aqueles que dizem que o presidente será derrubado no domingo vivem uma ilusão", rebate Mostafa el-Gheinemy, um dos líderes da Irmandade Islâmica.

Notícias relacionadas