Brasil e Espanha disputam final, enquanto Rio espera novo megaprotesto nas ruas

Seleção brasileira treina no Maracanã | Foto: AP
Image caption Brasil e Espanha se enfrentam pela primeira vez desde 1999

Brasil e Espanha entram em campo às 19h (de Brasília) deste domingo, no reformado estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, para disputar a final da Copa das Confederações. A partida era altamente esperada, mas parecia pouco provável antes da competição.

Do lado de fora do estádio, nas ruas do Rio de Janeiro, é esperado outro evento que não passava pela cabeça da maioria das pessoas antes do torneio, mas que se tornou rotina nos jogos da competição até aqui: uma manifestação que deve reunir milhares de pessoas.

O objetivo da manifestação é mais uma vez protestar contra os gastos públicos com a organização da Copa do Mundo do ano que vem, para a qual a Copa das Confederações serve como "ensaio", e para a Olimpíada de 2016, que acontecerá no Rio de Janeiro.

Antes do torneio, as seleções de Brasil e Espanha não poderiam viver momentos mais distintos entre si. O Brasil, que amargava a 22ª posição no ranking da Fifa, sua pior posição da história, vinha desacreditado com uma série de maus resultados em amistosos.

A Espanha, atual campeã mundial e vencedora dos últimos dois torneios continentais europeus, é líder absoluta de seu grupo nas eliminatórias para a Copa de 2014, está invicta há 19 meses e lidera o ranking da Fifa desde outubro de 2011.

Mas o Brasil chega à final em ascensão, após cinco vitórias consecutivas (além das quatro vitórias na Copa das Confederações, havia vencido um amistoso contra a França antes do torneio) e com a credibilidade recuperada.

A Espanha chega ainda apontada por muitos como "favorita", mas cansada após uma semifinal disputada contra a Itália na quinta-feira (um dia após a semifinal entre Brasil e Uruguai). A Espanha venceu a Itália somente nos pênaltis, após um 0 a 0 em exaustivos 120 minutos sob um calor de 30 graus e umidade relativa do ar de 70% em Fortaleza.

Favoritismo

Em uma entrevista coletiva no fim da tarde deste sábado, o técnico brasileiro, Luiz Felipe Scolari, disse não considerar a Espanha como favorita, apesar do retrospecto da equipe nos últimos seis anos.

"Eles levam alguma vantagem, mas temos algo que é importante: voltamos a ter credibilidade com os torcedores. Vamos buscar aquilo que queremos desde o início", afirmou.

Image caption Organização teme novo confronto entre policiais e manifestantes

Scolari disse que prefere ganhar mesmo com um estilo de jogo feio. "O resultado fica para a história, o jogo bonito passa. Esse é o meu pensamento, gostem ou não."

No dia anterior, a principal estrela da equipe brasileira, o atacante Neymar, havia admitido o favoritismo espanhol. "A Espanha é favorita. Eles são os melhores do mundo", disse, para depois afirmar que a seleção brasileira "venderá caro" qualquer resultado e lutará pela vitória até o final.

Do lado espanhol, o atacante Fernando Torres, o artilheiro da competição até aqui, com cinco gols, afirmou que sua seleção é "o Brasil do presente".

"Somos o rival a ser batido", disse ele, afirmando que o país anfitrião é o favorito. "O Brasil tem tudo a seu favor, joga em seu país, tem o ambiente a seu favor e, além disso, todos querem ganhar da Espanha."

Medo de protestos

A expectativa em relação à partida é acompanhada do temor sobre possíveis confrontos entre manifestantes e a polícia nas proximidades do Maracanã, como ocorreu no dia 20 de junho, quando Espanha e Taiti jogaram no estádio enquanto 300 mil pessoas participavam de passeata desde a igreja da Candelária, no centro, até a sede da prefeitura, a cerca de três quilômetros dali do estádio.

Um grupo desgarrado da manifestação chegou a tentar se aproximar do Maracanã, mas foi dispersado pela polícia com bombas de gás lacrimogêneo.

O temor sobre a ocorrência de episódios de violência levou a Fifa a anunciar o reforço da segurança privada dentro do estádio para a final deste domingo, enquanto a Polícia Militar elevou em 42% o efetivo de segurança dentro e fora do Maracanã, que contará com cerca de 6 mil homens.

A prefeitura também anunciou o aumento de 12 para 16 no número de ruas interditadas nas imediações do estádio e antecipou em uma hora, para as 13h, o início da interdição.

A manifestação deste domingo, convocada pelos Comitês Populares da Copa e da Olimpíada no Rio de Janeiro, pretende protestar contra as remoções de moradores para as obras dos dois megaeventos esportivos e contra a privatização do Maracanã.

O custo da reforma do Maracanã, inicialmente estimado em R$ 650 milhões, foi elevado para mais de R$ 1 bilhão no decorrer das obras, bancadas em grande parte pelo governo do Estado do Rio de Janeiro e por financiamentos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

Os manifestantes pretendem se reunir a partir das 10h na praça Saens Peña, localizada a cerca de 2,5 quilômetros do Maracanã, e seguir depois em passeata na direção do estádio. Segundo os organizadores do protesto, o movimento é pacífico e não há a intenção de furar os bloqueios policiais para tentar se aproximar do estádio.

"Este é o nosso quinto ato, não temos nenhuma intenção de atrapalhar o jogo", afirmou um dos integrantes do Comitê Popular, Renato Cosentino, na sexta-feira. "Esperamos ter a garantia de poder fazer essa manifestação, que é um direito constitucional nosso."

'Touradas em Madri'

Do lado de dentro do campo, Brasil e Espanha fazem a esperada final do torneio, entre a seleção pentacampeã mundial e vencedora de três edições da Copa das Confederações, incluindo as últimas duas, em 2005 e 2009, e a equipe que venceu quase todos os torneios que disputou desde 2008.

Image caption Espanhóis dizem ser 'o Brasil do presente'

O único grande torneio que falta à Espanha é justamente a Copa das Confederações. Na última edição, em 2009, na África do Sul, todos davam como quase certa uma final entre Brasil e a Espanha, mas a seleção espanhola acabou derrotada na semifinal pelos Estados Unidos, batidos depois na final pelo Brasil.

A final que não aconteceu em 2009 e que ocorre agora de maneira mais inesperada é o primeiro jogo entre as duas seleções desde 1999, quando Brasil e Espanha empataram em 0 a 0 num amistoso disputado em Vigo. Na ocasião, a Espanha ainda não era a potência futebolística na qual se transformou nos últimos anos.

As duas seleções se enfrentaram apenas oito vezes na história, cinco delas em Copas do Mundo. O confronto mais memorável entre as duas equipes é talvez a vitória brasileira por 6 a 1, no mesmo Maracanã da final deste domingo, durante a primeira Copa do Mundo disputada no Brasil, em 1950.

O jogo se tornou famoso pela forma como a torcida de mais de 150 mil pessoas presente no estádio comemorou a vitória, cantando a música "Touradas em Madri", de Braguinha.

No histórico dos oito confrontos, o Brasil leva a melhor, com quatro vitórias, contra apenas duas dos espanhóis e dois empates.

O histórico das partidas disputadas pelo Brasil no Maracanã também é amplamente favorável à seleção nacional. Em 104 jogos, foram 74 vitórias, 23 empates e 7 derrotas – incluindo a mais famosa e dolorida de todas, a da final da Copa de 1950, contra o Uruguai, no chamado "Maracanazzo".

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