Fukuyama diz que protestos no Brasil resultam de 'nova classe média'

  • 30 junho 2013
Foto: Reuters
Image caption Protestos no Brasil: para Fukyama, há conexão com Primavera Áarbe

Em artigo publicado no Wall Street Journal, o cientista político americano Francis Fukuyama afirma que nada nas recentes manifestações no Brasil - que ele diz serem resultantes do surgimento da nova classe-média brasileira - sugere que haverá mudanças duradouras. E que manifestantes têm "como desafio evitar cooptação ou se vender ao sistema"

Fukuyama ficou conhecido pelo livro "O Fim da História e o Último Homem" ("The End of the History and the Last Man", 1992), no qual afirmava que a democracia liberal ocidental seria o modelo definitivo da evolução socio-cultural da Humanidade e forma final de governo. Ele mais tarde, reformaria o próprio conceito. O cientista político também é conhecido por suas colaborações com os conservadores norte americanos, em especial os presidentes Ronald Reagan e George W. Bush.

No artigo entitulado "A Revolução da Classe Média", Fukuyama afirma que o que conecta os recentes protestos no Brasil, na Turquia, nos países que foram cenário da chamada Primavera Árabe ou até mesmo na China é "o crescimento de uma nova classe média global".

"Em todos os lugares onde emerge, a classe média moderna causa fermentação política, mas raramente foi capaz de, por si mesma, trazer mudanças políticas duradouras. Nada visto ultimamente nas ruas de Istambul ou Rio de Janeiro sugere que estes casos serão uma excessão".

O filósofo afirma que em países como Turquia, Brasil, Tunísia e Egito, os protestos não foram liderados pelos pobres, mas por uma juventude com "nível educacional acima da média".

"Eles sabem usar tecnologia e as mídias sociais como o Facebook e Twitter para espalhar informação e organizar manifestações", afirma.

'Sistema corrupto'

No caso específico do Brasil, Fukuiama diz que os manifestantes combatem uma "entranhada elite corrupta que exibe projetos glamurosos como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, mas que ao mesmo tempo falha em prover serviços básicos como educação e saúde".

"Para eles, não é suficiente que a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, tenha sido uma ativista de esquerda presa pelo regime militar durante os anos 70, nem que seja líder do progressista Partido dos Trabalhadores. Aos olhos deles (manifestantes) o partido foi sugado pelo "sistema" corrupto como revelado por recente escândalo de compra de votos".

Ao lembrar que diferentes instituições vêm quantificando o avanço das classes médias - que devem chegar a 4,9 bilhões de pessoas até 2030, ou metade da população global - Fukuyama lembra que este grupo precisa ser definido por também por educação, ocupação, posses de bens e comportamento político, para além dos clássicos parâmetros de renda.

"Um grande número de estudos (...) mostra que níveis mais altos de educação estão correlacionados a uma maior valorização da democracia, liberdade individual e tolerância com modos de vida alternativos", diz.

Ele cita ainda que famílias que têm imóvel próprio e passam a recolher impostos tendem a pedir mais clareza em relação às contas dos governos.

Fukuyama, porém, diferencia o Brasil dos países do Norte da África e Turquia, onde protestos muitas vezes geram respostas repressivas do governo. No Brasil, ele diz, "manifestantes não vão enfrentar forte repressão da presidente Rousseff".

"Ao contrário, o desafio é evitar cooptação no longo prazo pelo sistema arraigado e corrupto. O status de classe média não significa que um indivíduo automaticamente apoiará a democracia e um governo limpo. Principalmente, porque grande parte da antiga classe média no Brasil era empregada do poder público, no qual era dependente de apadrinhamentos e do controle estatal sobre a economia. As classes médias, lá como em países asiáticos como Tailândia e China, deram apoio a governos autoritários quando lhes pareceu que era a melhor maneira de asssegurar seu futuro econômico".

O cientista político afirma que este grupo tanto "poderia fazer parte de uma coalizão de classe-média que quer a reforma do sistema político" para orientá-lo ao atendidmento do público, como também "dissipar suas energias em distrções como políticas de identidade (questões de raça, gênero e outras, do termo em inglês "identity politics") ou se vender ao sistema que dá grandes recompensas aos que se submetem a jogar o jogo".

Muito do desdobramento dos protestos, diz, depende de lideranças.

"A presidente Dilma Rousseff tem uma tremenda oportunidade de usar os levantes para lançar uma reforma sistêmica mais audaciosa", diz. "Até agora, ela tem sido cautelosa sobre o quanto ela quer se livrar do velho sistema, limitada pela sua própria coalizão partidária", observa.

Fukuyama encerra seu artigo afirmando que com baixo crescimento e altíssimas taxas de desemprego entre os jovens, os líderes das economias desenvolvidas não devem pensar que o que está ocorrendo em Istambul ou São Paulo "não pode se passar por aqui".

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