Vozes das ruas mostram Egito polarizado

Protesto no Cairo (Foto: Reuters)
Image caption Milhões voltaram às ruas do Cairo

O Exército do Egito deu aos partidos do país um prazo de 48 horas para que encontrem uma solução que ponha fim à nova onda de protestos que tomou conta do país.

Caso a crise não seja resolvida, o próprio Exército disse que elaboraria uma "rota para a paz" que atendesse aos "anseios do povo".

Em resposta, o governo do presidente Mohammed Morsi afirmou que seguirá seus próprios planos para atingir a reconciliação nacional e acabar com a onda de tumultos.

O governo afirmou ainda que os militares não consultaram Morsi antes de divulgar o comunicado e que uma intervenção do Exército causaria mais confusão no país.

O Exército negou que a estipulação do prazo seja parte de uma tentativa de golpe de Estado.

No domingo, o Egito testemunhou um dos maiores protestos no país desde a onda de manifestações em 2011 que acabou derrubando o presidente Hosni Mubarak.

Milhões de pessoas foram à praça Tahrir, no centro do Cairo e outras cidades para protestar contra o presidente Morsi, eleito há um ano.

Ele se tornou o primeiro presidente islâmico do Egito, depois de vencer uma eleição considerada livre e justa por observadores internacionais.

Mas grande parte da população acusa Morsi de ter sido incapaz de encontrar soluções para os problemas econômicos que o país enfrenta, e quer a renúncia do presidente. Quatro ministros já teriam renunciado aos cargos.

Segundo o Ministério da Saúde do país, pelo menos 16 pessoas morreram devido a confrontos nos protestos e outras 781 ficaram feridas desde domingo.

A BBC foi às ruas, conversou com egípcios de várias correntes políticas e pode observar que a população está dividida quanto ao pedido de renúncia do governo.

Ahmed Raafat, Cairo

Image caption Para Ahmed Raafat Egito precisa de novas eleições

"Estamos protestando contra a corrupção, a crise econômica e as condições de segurança no país.

Acreditamos que ocorrem graves violações dos direitos humanos. A Irmandade Muçulmana (o partido) de Morsi realizou ataques contra manifestações pacíficas.

Exigimos eleições."

Salma Ashraf, Cairo

"Não concordo com aqueles que pedem a renúncia de Morsi. Apesar de respeitar o direito democrático ao protesto.

Morsi foi eleito para um mandato de quatro anos e deve completá-lo. É absurdo pedir por novas eleições agora, depois de apenas um ano. É como mudar as regras de um jogo só porque você não gosta dos resultados. É antidemocrático e infantil.

Image caption Salma afirma que um ano não é o bastante para o presidente mudar o país

Um ano simplesmente não é o bastante para acabar com todos os problemas da sociedade causados por Mubarak. O que precisamos é nos unir e apoiar Morsi, que foi eleito como o presidente de todos os egípcios.

Alguns dizem que Morsi está tentando 'islamizar' o Estado e suas instituições. Mas isto não é verdade. Qualquer um que acompanha as notícias sabe muito bem que o primeiro-ministro Hisham Qandil ofereceu, no passado, cargos do governo e nos ministérios para nomes da oposição, mas eles sempre se recusaram a trabalhar com o partido governante.

Temos que cultivar o respeito pela lei e pela (decisão das) urnas."

Abdel Rahman Ibrahim, Alexandria

"Não apoio Morsi, mas não concordo com os manifestantes.

Image caption Abdel Ibrahim não é partidário de Morsi mas discorda de protestos

O Egito está sendo mergulhado em uma guerra civil e isto não está sendo levado à sério. Tenho certeza de que haverá violência e muito sangue derramado.

Pressionar Morsi através do Parlamento é uma solução democrática."

Yasser Fouad Ahmed, Cairo

"Como os manifestantes podem pedir para ele (Mohammed Morsi) renunciar? Morsi foi eleito por 13 milhões de eleitores entre os 25 milhões de egípcios que podiam votar.

Concordo que Morsi não cumpriu todas as promessas do ano passado e que o partido do governo não conseguiu gerenciar o país. Mas isto não anula o fato de que ele ainda é o presidente eleito legitimamente. O primeiro presidente eleito democraticamente em eleições livres e justas.

Se os manifestantes conseguirem o que querem, não será um bom prenúncio para o futuro deste país, pois quem quer que ocupe o cargo depois de Morsi não ficará no poder nem mesmo por seis meses.

Image caption Yasser Ahmed não quer que o país mergulhe no caos

Quem não estiver satisfeito com as coisas sempre poderá mudar tudo na próxima eleição. Se o movimento rebelde pode conseguir 22 milhões de assinaturas, como eles alegam, por que eles não contestam as eleições e começam a fazer parte do processo de tomada de decisões?

Peço que todos estes manifestantes voltem para casa. Caos é a última coisa que este país precisa."

Atef Rezk Kalla, Alexandria

"Estamos protestando pois Morsi não é um presidente para todos os egípcios. Ele apenas se importa com o próprio grupo, a Irmandade Muçulmana. Ele não se esforça para desenvolver o Egito.

Ele abusa do cargo que ocupa para influenciar todos os aspectos do poder com seus pensamentos religiosos e terroristas. Não queremos que o Egito seja o próximo Afeganistão, Irã ou Sudão. Queremos continuar sendo o Egito.

Image caption Atef Kalla afirma que, com mais um ano de Morsi, Egito ficará arruinado

A situação econômica é terrível. Não há petróleo e eletricidade. Enfrentamos um grande problema com o (rio) Nilo também.

A Constituição é uma grande razão para os protestos, pois ele (Morsi) também não se importa com as minorias. Ele cometeu erros e não inclui todos os egípcios.

Morsi e seu grupo manipulam a imprensa - TV, rádio e jornais - e o Ministério da Cultura também influencia as pessoas.

Sou cristão e acho que nossa situação nesta ficou pior do que no regime anterior, que também não era boa.

Quatro xiitas foram mortos de uma forma terrível recentemente por causa de um pedido dos imãs durante uma reunião com Morsi. Nunca vimos isto no Egito antes.

Ele está no poder há apenas um ano e (este ano) tem sido mais terrível do que anos anteriores. Se esperarmos o outro ano, o Egito ficará totalmente arruinado."

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