Um passeio pelo Vale da Morte, o lugar mais quente do mundo

  • 2 julho 2013
Vale da Morte / Jaime González (BBC)
Image caption O Vale da Morte, na Califórnia, é um dos locais mais quentes do planeta

Bem-vindos ao Vale da Morte, ao lugar que especialistas dizem ser o mais quente de nosso planeta.

Nesta inóspita paisagem com uma geografia "marciana", no leste da Califórnia, no dia 10 de julho de 1913, o termômetro marcou a temperatura mais alta já registrada na história: 56,7°C.

Habitado por ao menos mil anos pela tribo dos Timbisha, o Vale da Morte ganhou o nome dos aventureiros que se atreveram a cruzá-lo no início do século 19, atraídos pela febre de ouro.

Em 1994, o local foi declarado parque nacional. Atualmente, cerca de 1 milhão de pessoas visitam o Vale da Morte a cada ano para desfrutar de sua espetacular paisagem desértica.

Entrar neste lugar quando as previsões meteorológicas apontam para temperaturas superiores a 53°C não parece ser uma boa ideia.

Mas é fácil não se dar conta dos riscos, até o momento em que se está sob sol ardente com uma estrada pela frente que parece levar ao infinito.

Minha primeira parada da viagem se dá no posto de informações situado em uma das entradas do parque.

O sistema de navegação no meu celular há algum tempo deixou de funcionar devido à falta de cobertura e eu não tenho escolha a não ser recorrer a um mapa tradicional.

A mulher que me atendeu me perguntou em tom inquisidor se eu tinha a intenção de ir até a Bacia de Badwater, um dos lugares mais quentes do vale.

Depois de me lembrar de que há um alerta em vigor sobre a onda de calor que varre a região e se certificar de que tenho água suficiente no carro, ela brinca: "Não se preocupe se você se perder, dentro de alguns dois dias encontramos seu corpo".

Um casal francês e suas duas filhas observa com ar divertido a nossa conversa. Eles me contam que tinham viajado para o Vale da Morte com a intenção de acampar, mas após perceber que não poderiam deixar o carro por mais de cinco minutos, desistiram da ideia e passaram a noite em um hotel de estrada.

"Foi uma excelente experiência. A experiência mais quente de nossas vidas", disse o marido, rindo.

Bacia de Badwater

Image caption A Bacia de Badwater é o ponto mais baixo da América do Norte e um dos mais quentes do mundo

A Bacia de Badwater é o ponto mais baixo da América do Norte e um dos lugares mais secos e quentes do mundo.

E é também o meu primeiro objetivo marcado no mapa, separado de onde estou por 100 quilômetros.

Situado a 85,5 metros abaixo do nível do mar, trata-se da atração mais emblemática do parque.

As chuvas anuais na bacia, cuja superfície está coberta por uma grossa camada de sal, não chegam a 50 milímetros e há anos em que a chuva nem dá as caras.

As temperaturas infernais registradas em Badwater, especialmente nos meses de verão, têm muito a ver com a geografia do lugar. Quando o ar ao nível do solo esquenta e começa a subir, ele acaba sendo bloqueado pelas montanhas que circulam a bacia e pela pressão atmosférica.

Isso cria correntes de ar quente circulares que fazem com que, mesmo se estando à sombra, o calor seja insuportável. De acordo com os meteorologistas, aqui são registradas as temperaturas constantes mais elevadas da Terra.

Ao chegar à bacia, saio do carro disposto a me juntar à dezena de turistas que estão tirando fotos. Mas assim que abro a porta, uma massa de ar quente me golpeia o rosto. É quase meio-dia e não há tempo a perder.

Ainda que tenha me certificado de estar com a cabeça bem coberta, começo a sentir a temperatura da armação de meus óculos subindo e o suor escorrendo pelo meu rosto.

Em poucos minutos, minha câmera fotográfica, assim como o telefone que carrego no bolso esquentaram tanto que quase não consigo carregá-los. É então que decido ter chegado o momento de voltar para o automóvel.

Uma equipe de uma rede de TV americana colocou uma frigideira no chão com um termômetro. A leitura da temperatura: 153°F (o equivalente a 70°C).

Água e mais água

Image caption Temperaturas no Vale da Morte podem superar 70 graus

A uns 20 quilômetros da bacia de Badwater fica o centro de visitantes de Furnace Creek.

Foi aqui que, no dia 10 de julho de 1913, o termômetro alcançou 56,7°C, uma temperatura que, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), foi a mais alta já registrada.

Por décadas acreditava-se que o recorde pertencia à localidade de Al Azizia, na Líbia. Mas no ano passado, especialistas da OMM determinaram que a temperatura medida no local, de 58° C , em setembro de 1922, se deu por um erro humano. Assim, o título de lugar mais quente do planeta regressou ao Vale da Morte.

À entrada do centro de visitantes um termômetro digital marca uma temperatura que oscila entre os 126ºF e 128ºF (na faixa de 53ºC).

Carole Wendler, a diretora do centro, me explica que, em dias como este, o que mais lhes preocupa é a "segurança dos turistas e trabalhadores do parque".

"Temos que garantir que as mensagens de alerta que lançamos cheguem a todo mundo. Esta não é uma boa semana para se fazer trilhas. O melhor é se locomover de automóvel com quantidades suficientes de água", afirma.

De acordo com Wendler, "a maior parte das pessoas segue as recomendações" dadas, ainda que, todos os anos, os funcionários do parque tenham que sair em resgate de algum turista.

"Muitos não bebem água suficiente. Não se dão conta de que o lugar não é apenas quente, mas também muito seco, e, assim, se perdem rapidamente os fluidos corporais", explica.

Hotéis

Para evitar se tornar uma vítima da onda do calor, me abriguei no restaurante de um dos poucos hotéis que atuam na área e que nesta época do ano é ocupado principalmente por turistas europeus.

O garçom que me serviu me disse que este é o seu segundo verão no Vale da Morte. "É divertido", diz ele. "A maioria dos trabalhadores vêm do exterior para passar o verão aqui."

Ao lado do restaurante, há uma piscina, na qual algumas pessoas tentam lidar com a onda de calor da melhor forma possível.

Eu decido sentar à sombra e esperar que o sol se ponha um pouco antes de começar a minha viagem de volta, embora esta seja uma má ideia.

Em poucos minutos, a tela do meu telefone apresenta uma mensagem de aviso dizendo que o dispositivo está superaquecido e o laptop no qual eu estou trabalhando deixa de funcionar sem aviso prévio. A tecnologia, que tantas vezes nos faz evitar problemas, não resiste às temperaturas do Vale do Morte.

Armado com um mapa e de vários litros de água, faço o meu caminho de volta para Los Angeles.

Sem dúvida, depois desta experiência, a palavra calor adquiriu uma nova dimensão.

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