Militares anunciam afastamento do presidente do Egito; constituição é suspensa

Praça Tahrir / Getty
Image caption Milhares de pessoas se reuniram na Praça Tahrir para pedir a renúncia de Morsi

Em pronunciamento feito na tarde desta quarta-feira na TV estatal, o chefe das Forças Armadas do Egito, general Abdul Fattah al-Sisi, anunciou a suspensão da Constituição e a convocação de novas eleições presidenciais. O presidente Mohammed Morsi teria sido detido.

Segundo Sisi, o país será governado internamente pelo chefe da Suprema Corte de Justiça do Egito.

"As Forças Armadas consideram que o povo do Egito está nos pedindo apoio, não para tomar o poder ou governar, mas servir ao interesse público e proteger a revolução. Essa é a mensagem que os militares receberam de todos os cantos do Egito", afirmou.

Segundo ele, Morsi "falhou em atender as demandas do povo egípcio".

Morsi e ao menos dois líderes da Irmandade Muçulmana estão sendo mantidos sob custódia das Forças Armadas, segundo autoridades da entidade islâmica.

Logo após o pronunciamento de Sisi, manifestantes reunidos no Cairo na Praça Tahrir - palco dos protestos que levaram em 2011 à renúncia do ex-presidente do Egito, Hosni Mubarak -, comemoram a saída de Morsi.

O presidente Barack Obama afirmou estar profundamente preocupado com os últimos eventos no Egito e pediu para que um governo civil seja retomado rapidamente.

Em uma nota divulgada após o pronunciamento de Sisi, a Presidência egípcia qualificou o anúncio dos militares como um "golpe militar" que deve ser rejeitado por "por todas as pessoas livres" do país, "aquelas que lutaram por uma sociedade democrática e civil."

"Morsi, na posição de presidente e comandante supremo das Forças Armadas, pede a todos os cidadãos – civis ou militares – que respeitem a Constituição e não respondam a este golpe.'

Tropas nas ruas

Soldados foram mobilizados em vários pontos da capital do Egito em meio à expectativa de que o Exército divulgasse a declaração sobre o futuro do país.

Os oponentes de Morsi dizem que a Irmandade Muçulmana está tentando implantar no país um regime com características islâmicas e exigem sua saída do poder.

Ao mesmo tempo que os manifestantes na Praça Tahrir, simpatizantes de Morsi também realizavam manifestações na capital egípcia em apoio ao líder. Veículos militares foram vistos perto da principal manifestação pró-Morsi.

Nesta quarta-feira, após quatro dias de intensas manifestações no país, o presidente reafirmou que não pretendia renunciar e repetiu uma oferta de criação de um governo de consenso.

Emissoras de televisão que pertenciam à Irmandade Muçulmana foram tiradas do ar imediatamente após o pronunciamento dos militares. Forças de segurança teriam ainda invadido escritórios do canal de TV Mubasher Misr, da rede al-Jazeera, prendendo diversos funcionários.

Choques irromperam na cidade de Marsa Matrouh, no norte do país, e causaram ao menos quatro mortes.

Outra pessoa teria sido assassinada na cidade costeira de Alexandria. Essas mortes elevariam o número de vítimas fatais nas últimas 24 horas para 21.

Dois membros da cúpula da Irmandade Muçulmana afirmaram que Morsi foi detido por autoridades egípcias. Relatos anteriores diziam que o presidente e seus partidários seriam impedidos de deixar o país.

EUA

"Os EUA não apoiam indivíduos nem partidos políticos em particular, mas estamos comprometidos com o processo democrático e o respeito ao Estado de Direito", afirmou o presidente Barack Obama.

Ele ordenou a revisão da ajuda externa ao Egito que, pela lei americana, deve ser suspensa caso um presidente democraticamente eleito seja deposto por um golpe militar.

Atualmente, a ajuda anual americana ao país gira em torno de US$ 1,5 bilhão (R$ 3,3 bilhões).

"Agora, peço às Forças Armadas do Egito que caminhem rapidamente e responsavelmente para devolver a autoridade total para um governo civil democraticamente eleito, e evitem as prisões arbitrárias do presidente Morsi e de seus simpatizantes", disse Obama em pronunciamento.

Plano pós-Morsi

Durante todo o dia, representantes do Exército manteve reuniões com líderes políticos e religiosos para discutir a crise.

Membros do movimento Tamarod, que vêm mobilizando milhões nas ruas do Cairo para pedir a renúncia de Morsi, teriam participado das discussões. Por outro lado, o Partido Liberdade e Justiça – o braço político da Irmandade Muçulmana – teria ficado de fora.

O comandante do Exército, general Sisi, teria se reunido com seus oficiais de alta patente nesta quarta-feira. Segundo a agência de notícias AFP, eles teriam discutido ideias para o cenário posterior à saída de Morsi.

Sisi disse que o chefe da Suprema Corte de Justiça Adli Mansour receberia a tarefa de "comandar o país durante o período de transição, até a eleição de um novo presidente".

Presidente eleito

Morsi tornou-se o primeiro presidente egípcio com uma plataforma islâmica a ser eleito democraticamente no dia 30 de junho de 2012, após vencer eleições presidenciais que se seguiram à queda do ex-presidente Hosni Mubarak.

Mas desde que Morsi assumiu o posto, o descontentamento aumentou gradativamente no Egito. Parte da população dizia-se pouco satisfeita com as mudanças ocorridas durante o período pós-revolucionário no Egito e acusou a Irmandade Muçulmana de tentar proteger seus próprios interesses.

"Esse presidente está ameaçando seu próprio povo. Nós não o consideramos presidente do Egito", afirmou Mohammed Abdelaziz, líder do Tamarod.

No entanto, Morsi e a Irmandade Muçulmana ainda tinham amplo apoio popular, e ambos os lados levaram às ruas um grande número de manifestantes nos últimos dias.

Notícias relacionadas