Setor privado tenta se reerguer em meio à concordata de Detroit

Centro de Detroit (Getty)
Image caption Publicidade convida à terceirização de empregos para Detroit; centro da cidade passa por revitalização

O setor privado de Detroit, a maior cidade americana a pedir concordata, ensaia um momento de renovação, apesar das elevadas dívidas da capital do Estado do Michigan - famosa por ser o berço da indústria automobilística do país.

Alguns empresários apoiaram abertamente a declaração do governador de Michigan, Rick Snyder, segundo quem a cidade se reerguerá "mais forte" após a concordata solicitada na quinta-feira.

O pedido, o último passo antes da falência, reflete a decadência da cidade, que soma dívidas de US$ 18 bilhões (cerca de R$ 40 bilhões).

Na última década, Detroit perdeu um terço de seus habitantes. Hoje, registra desemprego de 18,6% e tem cerca de 70 mil construções abandonadas, bem como um serviço público à beira do colapso.

Ao anunciar a crise, na quinta-feira, Snyder afirmou que a cidade está "basicamente quebrada" após "60 anos de declínio" - sobretudo de seu setor industrial.

Mas, ironicamente, tudo isso ocorre ao mesmo tempo em que o centro de Detroit vive um momento de ascensão - de melhorias, investimentos, novos empregos e aumento na ocupação residencial e comercial, relata o correspondente da BBC Jonny Dymond.

Revitalização

Aportes de empresas como a financeira QuickLoans levaram, segundo agências de notícias, cerca de 7 mil empregos ao centro da cidade, para negócios como os de TI e incubadoras de start-ups. Novos restaurantes e lojas também surgiram.

Segundo a Forbes, dois grandes hospitais locais investem cerca de US$ 1,5 bilhão (R$ 3,4 bilhões) para expandir suas instalações, e a vida universitária também injeta novo ânimo à cidade.

Image caption Abandono de moradores deixou rastro de casas e prédios vazios na cidade

"Detroit foi construída a partir da inovação e da criatividade", disse à BBC, no mês passado - quando os problemas da cidade já ameaçavam deixá-la na bancarrota - o pequeno empresário Michael Sharber, que comanda uma start-up de energia solar.

"A cidade está cheia de oportunidades. É como um Velho Oeste sendo reconstruído."

"O setor privado está prosperando, e empresários continuam a investir em Detroit", disse nesta quinta-feira à agência de notícias Reuters o diretor da câmara de comércio local, Sandy Baruah, que vê com bons olhos o pedido de concordata. "Enfrentar a instabilidade financeira da cidade é a última fronteira para recuperar seu crescimento."

Desafios

Mas os desafios administrativos de Detroit são gigantescos e exigirão mais do que espírito empreendedor para serem solucionados, relata Dymond.

Com dezenas de milhares de credores, Detroit já era ré em diversos processos judiciais mesmo antes da concordata.

O governo municipal terá de vender os bens da cidade para pagar dívidas e pensionistas, caso a Justiça federal americana aprove o pedido de proteção contra a falência. E, mesmo com a aprovação, analistas preveem que a batalha legal em torno das dívidas se arrastem ao longo de anos, a custos milionários.

No mês passado, parte da dívida da cidade deixou de ser paga, e Kevyn Orr, gerente emergencial encarregado das finanças municipais, propôs acordos com parte dos credores, mas nem todos aceitaram.

Há, também, os problemas e carências sociais. Só entre 2000 e 2010, cerca de 250 mil moradores abandonaram a cidade, em busca de melhores oportunidades de vida.

Nos últimos anos, a cidade foi palco de diversos escândalos de corrupção envolvendo seus governos municipais.

A taxa de homicídios chegou ao maior nível dos últimos 40 anos, e os serviços públicos não conseguem atender as demandas da população. No início deste ano, por exemplo, apenas um terço das ambulâncias da cidade mantinha-se em operação.

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