Britânica adia tratamento contra câncer para proteger sonho de ser mãe

  • 24 julho 2013
Amy Miller e Justin Ward | Foto: Arquivo pessoal
Image caption Casal britânico defende aconselhamento sobre tratamentos de fertilidade em casos de câncer

Em março de 2008, médicos disseram à britânica Amy Miller que ela tinha câncer no intestino.

Ao ouvir o diagnóstico, o primeiro pensamento que ocorreu à paciente, na época com 32 anos de idade, foi vencer a doença.

"Eu disse aos médicos, meu Deus, façam alguma coisa imediatamente".

Mas os médicos sugeriram que ela adiasse o tratamento por 20 dias.

Àquela altura, o tumor tinha cerca de 10 centímetros de diâmetro e estava localizado em um ponto muito próximo dos órgãos reprodutores de Miller.

"Isso pode não ser aconselhável para todo mundo, mas no meu caso não era uma forma agressiva de câncer e me disseram que um atraso de 20 dias não faria qualquer diferença em relação à eficácia do tratamento, disse Miller, que é PhD em história da arte medieval, à BBC.

"Por outro lado, sem esse atraso, eu jamais seria capaz de ter meus próprios filhos".

'Conversa difícil'

Logo após o diagnóstico, Miller e o namorado Justin Ward ─ hoje seu marido ─ receberam aconselhamento de um especialista em fertilidade.

"Eu não estava desesperada para ter filhos", disse Miller.

"Eu tinha 32 anos, estava estudando para o meu PhD e meu marido também. Não tínhamos pensado em ter filhos. Mas termos de nos deparar com a possibilidade de nunca poder tê-los, isso era muito diferente".

Tratamentos para câncer frequentemente destroem os óvulos da mulher e deixam a paciente infértil, mas com uma intervenção médica no início do processo, os óvulos podem ser extraídos e fertilizados, e os embriões podem ser congelados e guardados até que o casal decida usá-los.

"De repente, tivemos de ter uma conversa muito difícil. Ainda estávamos assimilando a notícia do câncer, não sabíamos se eu ia sobreviver e eles estavam perguntando se pretendíamos ter filhos".

Eram decisões sérias para um casal. "Eles explicam como funciona a adoção e discutem o que aconteceria aos embriões se nos separássemos, ou caso um de nós morresse".

De fato, foram conversas difíceis, diz ela. "Mas estou tão feliz que tenham feito isso".

Sem Culpa

Miller, que é da cidadezinha de Kenilworth, no condado de Warwickshire, na Inglaterra, conta que, em meio ao intenso tratamento para o câncer, as sessões de aconselhamento sobre fertilidade lhe trouxeram conforto.

"Quando você está lidando com o câncer, não sabe se terá algum futuro. Fazer o tratamento para fertilidade, criar embriões viáveis, fez com que me sentisse bem porque eu sabia que se algo acontecesse, ao menos Justin e minha família teriam algo de mim que sobreviveria no futuro".

"Acho importante receber aconselhamento e ter essas conversas a respeito do impacto (do tratamento) sobre seus órgãos reprodutores logo no início. E não apenas se você quer ter filhos. É compreensível que os oncologistas queiram se focar no tratamento do câncer, mas o câncer não deve definir a pessoa".

"Tomar decisões sobre seu próprio sistema reprodutivo é importante para que mantenhamos nossa percepção de nós mesmos como seres inteiros, isso dá mais controle ao paciente".

Quatro anos após ter sido operada e recebido sessões de radioterapia, Miller continua livre do câncer. Ela diz, no entanto, que não tem planos imediatos de começar uma família. Por outro lado, ela e o marido não sentem qualquer pressão nesse sentido, disse.

"Um resultado positivo disso tudo é que não me sinto culpada por ter filhos mais tarde na vida, porque meus óvulos foram congelados quando eu tinha 32. E como teríamos de usar uma barriga de aluguel, não existe qualquer risco para o bebê por conta desse atraso".

Adolescentes

A entidade beneficente britânica The Teenage Cancer Trust, que oferece assistência a adolescentes com câncer, disse que mulheres jovens que sofrem de câncer - e que requerem tratamentos que podem prejudicar suas chances de ter filhos - deveriam receber mais atenção dos médicos.

E o oncologista infantil Dan Yeomanson, do Children's NHS Foundation Trust, em Sheffield, disse que é importante conversar sobre fertilidade com pacientes jovens - especialmente mulheres - antes do início do tratamento, mesmo que não haja opções disponíveis para preservar a fertilidade do paciente.

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