Papa defende a proximidade da Igreja com fiéis

Fiel beija a mão do papa Francisco no Theatro Municipal do Rio (foto: Reuters)
Image caption Papa diz que diálogo é opção entre individualismo e protestos violentos

O papa Francisco afirmou em entrevista exclusiva à Rede Globo que a proximidade da Igreja com seus fiéis deve ser a resposta para a perda de adeptos para outras correntes religiosas. Ele também disse não sentiu medo durante a falha de segurança no primeiro dia de sua visita ao Brasil por conta da Jornada Mundial da Juventude.

A entrevista exclusiva do papa ao programa Fantástico, da Rede Globo, não tem precedentes na TV brasileira. Ela reflete o estilo do novo prontífice, que durante sua visita de seis dias ao Brasil agiu de forma carismática, se aproximando do povo e dando demonstrações de aparente simplicidade.

A Igreja Católica vem perdendo fiéis no Brasil especialmente para correntes evangélicas. Dados do último Censo, em 2010, revelaram que os católicos somavam 123,3 milhões, ou 64,6% da população brasileira, contra aproximadamente 125 milhões, ou 73,6% do total, em 2000.

O papa afirmou não saber as razões específicas do fenômeno, mas levantou a hipótese de que isso aconteça porque a instituição esteja mantendo contato com os féis por meio de documentos.

"Não saberia explicar esse fenômeno. Vou levantar uma hipótese. Pra mim é fundamental a proximidade da Igreja. Porque a Igreja é mãe, e nem você nem eu conhecemos uma mãe por correspondência. A mãe dá carinho, toca, beija, ama. Quando a Igreja, ocupada com mil coisas, se descuida dessa proximidade, se descuida disso e só se comunica com documentos, é como uma mãe que se comunica com seu filho por carta. Não sei se foi isso o que aconteceu no Brasil. Não sei, mas sei que em alguns lugares da Argentina que conheço isso aconteceu."

Francisco afirmou que não sentiu medo quando o motorista de seu carro errou o caminho e o veículo foi cercado por uma multidão na última terça-feira. "As duas seguranças (do Vaticano e do Brasil) trabalharam muito bem. Mas ambas sabem que sou um indisciplinado nesse aspecto", disse.

Ele afirmou que propositalmente andou com as janelas do carro abertas e por determinação sua o papamóvel também era aberto nas laterais. Isso tudo para ter contato com a população. Ele disse que não poderia vir visitar os brasileiros e ficar escondido em uma "caixa de vidro".

Escândalos

O papa também comentou a recente prisão de um padre italiano, suspeito de envolvimento em um esquema de fraude e corrupção no Banco do Vaticano.

"Belo favor faz esse senhor à Igreja, não é? Mas é preciso reconhecer que ele agiu mal, e a Igreja tem que dar a ele a punição que merece, pois agiu mal", disse o papa ao reporter Gérson Camarotti, da GloboNews.

O pontífice também afirmou que uma comissão internacional está investigando os escândalos do Vaticano.

Francisco abordou ainda o tema da simplicidade, ao ser questionado sobre o porquê de não usar um carro luxuoso. Ele deu a entender que os sacerdotes da Igreja têm que dar exemplo de humildade.

"Penso que temos que dar testemunho de uma certa simplicidade - eu diria, inclusive, de pobreza. O povo sente seu coração magoado quando nós, as pessoas consagradas, são apegadas a dinheiro."

Sobre a rivalidade entre brasileiros e argentinos respondeu à Rede Globo: "está totalmente superada. Porque negociamos bem: o Papa é argentino e Deus é brasileiro."

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