Quem é o soldado condenado por vazar segredos dos EUA

Bradley Manning é levado para fora do tribunal em Fort Meade nesta terça-feira | Foto: AP
Image caption Manning pode ser condenado a 136 anos de prisão

O soldado americano Bradley Manning cantarolava uma música de Lady Gaga enquanto baixava milhares de documentos confidenciais dos servidores do Exército americano para o seu computador, de acordo com um hacker que se tornou seu amigo.

Agora, o militar de 25 anos pode ser condenado a uma vida na prisão, depois de dar início ao que já é considerado o maior vazamento de arquivos secretos americanos.

Nesta terça-feira, em um tribunal militar, Manning foi condenado por espionagem, mas inocentado da acusação de ajudar os inimigos dos Estados Unidos ao divulgar mensagens diplomáticas e arquivos do Exército sobre a guerra do Afeganistão.

Manning foi considerado culpado de 20 acusações no total, incluindo roubo e fraude de computador.

Ele admitiu ter vazado os documentos para a organização WikiLeaks, mas disse que o fez para iniciar um debate sobre a política externa americana.

A sentença deve ser anunciada na próxima quarta-feira.

Como analista de inteligência no Exército, Manning tinha acesso a uma grande quantidade de informações confidenciais.

No entanto, ele era de baixa graduação e tinha um salário relativamente baixo.

De acordo com seus amigos, ele tinha se frustrado com a carreira militar, que parecia estar estagnada.

'Figura engraçada'

Manning entrou para o Exército em 2007 depois de passar por diversos empregos mal pagos.

Ele foi criado em Crescent, uma pequena cidade no Estado de Oklahoma, no centro sul do país. Seu pai, Brian, teria passado cinco anos no Exército.

Mas os pais de Manning se divorciaram quando ele era adolescente, e ele foi morar com sua mãe em Haverfordwest, no sudoeste do País de Gales.

Relatos na mídia britânica e americana dizem que sua adolescência foi difícil. Aparentemente, Manning tinha o temperamento explosivo e era frequentemente provocado por ser nerd.

"Ele se chateava e atirava livros na mesa se as pessoas não o escutassem ou entendessem seu ponto de vista", disse Chera Moore, uma colega de classe em Oklahoma, ao jornal New York Times.

Outro amigo da escola de Manning no País de Gales, James Kirkpatrick, disse à BBC que ele era "uma figura engraçada" e obcecado por computadores.

Segundo outros relatos, o adolescente passou por momentos difíceis na Grã-Bretanha, quando sofria abusos verbais por ser gay.

Ao terminar a escola, Manning voltou aos Estados Unidos e foi para o Exército. Amigos dizem que ele se alistou para ajudar a pagar a universidade.

"Claro que o Exército (americano) tem muita tecnologia e bom treinamento em computação, por isso entendo porque ele se alistou, mas ninguém esperaria que ele o fizesse", disse Kirkpatrick.

'Sensação ruim'

Como parte do batalhão de suporte da 2ª Brigada da 10ª Divisão da Estação de Operação de Contingência, Manning foi enviado para o Iraque em outubro de 2009, mas mensagens que deixava no Facebook mostram que ele não parecia estar feliz.

Em maio de 2009, ele escreveu no site que estava "para lá de frustrado com as pessoas e a sociedade como um todo".

Outras mensagens se seguiram, entre elas a que dizia: "Bradley Manning não é um equipamento".

Uma semana antes, ele tinha escrito: "Bradley Manning agora está com a sensação ruim de que já não tem nada". Algumas das atualizações parecem se referir ao fim de um namoro.

Semanas depois, no entanto, suas palavras pareceriam proféticas, quando ele foi preso por investigadores militares sob a suspeita de roubar informações secretas.

O hacker Adrian Lamo disse à mídia internacional que Manning havia confessado ter roubado os dados durante conversas que eles tiveram na internet.

"Ouvi e cantei (a música) Telephone, de Lady Gaga, enquanto extraía o que é possivelmente o maior derramamento de informações na história americana", teria escrito Manning, de acordo com uma transcrição das mensagens publicada no site da revista americana Wired.

"Servidores fracos, login fraco, segurança física fraca, contrainteligência fraca, análise de sinal desatenta...uma combinação perfeita", afirmou.

Lamo disse que levou as mensagens às autoridades.

Papel do exército

Image caption Grupo de apoio pagou parte das despesas da defesa do soldado

No dia 5 de julho de 2010, Manning foi acusado de diversas infrações relacionadas ao roubo de informações secretas.

Ele também foi acusado de dar à organização WikiLeaks um vídeo que mostrava um helicóptero militar Apache matando 12 civis em Bagdá em 2007.

O WikiLeaks liberou milhares de documentos relacionados à guerra com o Afeganistão para veículos de comunicação internacionais.

O site também revelou mensagens confidenciais escritas por diplomatas americanos e registros militares da guerra do Iraque, causando vergonha ao governo americano.

Em março de 2011, o Exército fez mais 22 acusações extra sobre a possessão e distribuição não autorizada de mais de 720 mil segredos diplomáticos e documentos militares.

O soldado não negou o vazamento das informações e em fevereiro, se declarando culpado de 10 das acusações contra ele, mas não da mais séria delas ─ ajudar o inimigo.

Ele disse ao tribunal que divulgou os documentos para acender um debate público nos Estados Unidos sobre o papel do exército e sobre a política externa americana.

Além das múltiplas acusações de espionagem, Manning também foi considerado culpado de cinco acusações de roubo, duas acusações de fraude de computador e múltiplas infrações militares. Ele pode ser condenado ao máximo de 136 anos.

Um dos juízes militares admitiu que o tratamento que o soldado teve na prisão foi duro e concordou em reduzir sua pena em 112 dias, para compensá-lo.

Por causa da gravidade das acusações, Manning manteve um advogado civil que já foi reservista do Exército, David Coombs, que já participou de mais de 130 casos militares.

Um grupo de apoio ao soldado, The Bradley Manning Support, disse à rede de TV americana CNN que pagou cerca de US$ 150 mil (R$ 339 mil) pela defesa do soldado ─ a maioria conseguido com pequenas doações.

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