Emprego mais estável é próximo desafio da nova classe média

  • 5 agosto 2013
Consumidores olham vitrine de loja de eletrônicos no Rio e Janeiro (AFP/Getty)
Image caption Formalização de empregos aumentou renda do brasileiro

O aumento do emprego formal foi crucial para formar uma nova classe média no país, que viu sua renda per capita aumentar em 50% na última década.

Mas novos avanços desse grupo social – de renda familiar entre R$ 1 mil e R$ 5 mil por mês – agora passam por empregos mais estáveis, menos rotativos e mais produtivos, aponta estudo divulgado nesta segunda-feira pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) do governo federal.

Entre 2001 e 2011, foram gerados 16 milhões de postos de trabalho. E a renda per capita da classe média cresceu 50%, de R$ 382 por mês para R$ 576 – puxada, sobretudo, pelo aumento do emprego formal e dos salários e, em menor medida, pelos programas de transferência de renda (como Bolsa Família) e pelo fato de as famílias terem menos crianças e, ao mesmo tempo, mais adultos trabalhando.

Entretanto, se o emprego formal nunca esteve em nível tão alto como agora, o mesmo pode ser dito da rotatividade dos trabalhadores.

O governo diz que 40% dos trabalhadores trocam de emprego em um ano, porcentagem que chega a 80% nos trabalhadores que ganham até 2 salários mínimos (ou cerca de R$ 1,3 mil). E esses números, que já estão entre os mais altos do mundo, estão aumentando.

Vínculos frágeis

"Os vínculos de trabalho duram pouco, e os postos de trabalho são pouco estáveis", disse nesta segunda o ministro interino de Assuntos Estratégicos, Marcelo Néri, ao apresentar o estudo, chamado Vozes da Nova Classe Média.

O problema disso, acrescentou o ministro, é que esse trabalhador "rotativo" adquire poucos conhecimentos durante seu trabalho e também recebe poucos investimentos de seu empregador.

"São relações fugazes, em que ninguém investe em ninguém (nem trabalhador, nem empregador). Isso gera custos e causa perda de conhecimentos específicos. É um problema crescente perante padrões internacionais", declarou Néri.

Para os cofres públicos, um efeito colateral é o grande número de pedidos de seguro-desemprego, também em níveis recordes atualmente.

E o país como um todo também perde em produtividade, considerada um dos maiores empecilhos para a competitividade internacional brasileira.

Propostas

A Secretaria de Assuntos Estratégicos apresentou duas propostas para aumentar os vínculos dessas relações de trabalho.

A primeira é aumentar a oferta de cursos de aprimoramento profissional para quem já está empregado – em vez de focar apenas em quem está procurando emprego.

Néri propõe a adoção de cursos de 40 horas que sejam pagos na metade pelo empregador e na outra metade pelo empregado, para incentivar o elo entre ambos.

A proposta visa combater a alta rotatividade e também as deficiências educacionais da mão de obra brasileira: a escolaridade média dos trabalhadores aumentou 27% em dez anos, mas a educação ainda é baixa - passou de 6,7 anos em 2001 para 8,5 anos em 2011.

A segunda proposta consiste em reformular políticas já existentes de benefícios para trabalhadores de baixa remuneração (1 a 2 salários mínimos), como o abono salarial (pago anualmente pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador) e o salário família (concedido pela empresa, mediante descontos no pagamento do INSS, em proporção ao número de filhos de um trabalhador de baixa renda).

Néri sugeriu unificar os benefícios em pagamentos mensais, que, segundo os cálculos da Secretaria de Assuntos Estratégicos, poderiam aumentar em até 13% o salário de um trabalhador que recebe o mínimo e ajudariam a incentivar esse empregado a permanecer em seu posto.

As propostas ainda estão sendo debatidas e não foram formalmente apresentadas dentro do governo federal, segundo Néri. Mas o ministro sustenta que elas não trariam custos adicionais porque apenas redirecionariam recursos já existentes.

Sonhos

Para Ricardo Paes de Barros, subsecretário de ações estratégicas da SAE, o trabalhador de baixa renda do país tem feito a transição de uma "estratégia de sobrevivência" – em que o trabalho é transitório e serve apenas para garantir a subsistência – a uma "estratégia de vida".

Nela, o trabalho passa a ser visto como uma opção de carreira, e o trabalhador começa a ter planos e sonhos de longo prazo.

"Se o sonho da década passada era o emprego de carteira assinada e o salário maior, o sonho para a próxima década é esse mesmo emprego formal e mais bem pago, porém mais estável e produtivo", afirmou Paes de Barros.

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