Conflito sírio transforma alegria do fim do jejum do Ramadã em medo

Pessoas caminham pela devastada cidade de Homs
Image caption Cidade de Homs é um dos principais palcos do conflito sírio e foi devastada

Mohammed* acordou às 6h da manhã e rompeu o jejum do Ramadã, o mês sagrado dos muçulmanos, com um pedaço de pão amanhecido e uma pequena fatia de queijo.

O autoproclamado ativista pela paz comeu sozinho, sentado silenciomente em sua cozinha na cidade síria de Homs, que está sendo devastada pelo conflito interno no país.

Até o começo da insurgência, em 2011, a família do jovem de 27 anos costumava se unir para romper o jejum com um banquete de carnes e tortas, uma tradição típica do Eid ul-Fitr, como é conhecida a celebração muçulmana que marca o fim do jejum do Ramadã.

"A minha família inteira costumava ir à casa dos meus avós e minha avó passava dias arrumando tudo e fazendo marmoul – um tipo de massa feita com tâmaras ou pistache", ele conta à BBC.

Mas isso não acontece mais. Há três anos que sua família não celebra mais o Eid al-Fitr.

"É por causa de todas as mortes. Nós não comemoramos o Eid quando alguém morre. Todo mundo conhece alguém que morreu. Eu não perdi ninguém da minha família, mas perdi muitos amigos."

'Liberdade, não comida'

Mohammed diz que está trabalhando pela derrubada do presidente Bashar al-Assad ao promover as atividades dos rebeldes.

Seu trabalho em redes sociais o transformaram em alvo do regime. Isso fez com que ele se acostumasse a viver uma vida solitária, já que ele não quer colocar a vida de seus familiares em risco.

Mas apesar do perigo que enfrenta, ele não quer deixar a cidade onde nasceu.

"Eu sou apenas um comerciante, não tenho pontos de vista políticos, mas quero liberdade para meu país", diz ele em entrevista via Skype.

Dois desafios rotineiros para Mohammed é dormir e conseguir mantimentos. Os estoques de comida em Homs são esporádicos. Nesta época do ano, com o fim do jejum, existe uma grande demanda.

Mas Mohammed conhece os melhores lugares para conseguir comida. Antes de participar das demonstrações na Síria em março de 2011, ele trabalhava para restaurantes comprando estoques.

Ele sonha em voltar a trabalhar com isso no futuro, mas diz que não pensa muito em como será a vida depois do regime de Assad.

"Esta revolução é por liberdade, não por comida", diz.

Muçulmano praticante, Mohammed não acha que a Síria precise ser governada necessariamente por um regime islâmico. Ele quer que o povo possa escolher seus governantes através de eleições livres e justas.

"Seja islâmico ou secular, não me importa. O que interessa são a Justiça e a dignidade do povo sírio."

Sem jardim, Mohammed caminha pelas ruas em busca de sol e ar fresco.

O som de disparos é comum em vários bairros, mas durante o Eid al-Fitr – tradicionalmente um período de reconciliação e reflexão – tudo é mais tranquilo.

O Eid também é marcado por grandes aglomerações de pessoas em mesquitas, mas isso mão acontece mais em Homs.

"Não é fácil sair de casa para comprar pão, mas depois de tantos anos você se acostuma com o medo."

* Nome fictício para proteger a identidade da fonte.

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