Governo admite que já passa de 500 o número de mortos no Egito

Mulheres ao lado de corpos das vítimas. Crédito: AP
Image caption Mortes ocorreram durante operação das forças egípcias contra manifestantes pró-Morsi

Pelo menos 525 pessoas foram mortas na quarta-feira durante as operações das forças de segurança do Egito para desmantelar dois acampamentos de simpatizantes do presidente deposto Mohammed Morsi.

Mas, segundo a Irmandade Mulçumana, grupo político que apoia Morsi, esse número já passa de 2 mil.

Um toque de recolher foi imposto pelo governo depois do dia mais sangrento no Egito desde a revolução pró-democracia que derrubou o ex-líder Hosni Mubarak, há dois anos.

E as tensões continuam no país: a Irmandade Muçulmana convocou protestos no Cairo e em Alexandria, e seus simpatizantes atearam fogo a dois edifícios governamentais nos arredores da capital, em retaliação aos eventos de quarta-feira.

Segundo a repórter da BBC no Cairo, Bethany Bell, o sentimento entre os egípcios é de incerteza, em meio a temores de mais violência.

A matança também despertou reações da comunidade internacional. O presidente dos EUA, Barack Obama, condenou nesta quinta-feira a repressão oficial aos protestos, alegando "deplorar a violência contra civis", e advertindo que o Egito seguiu por um “caminho mais perigoso”.

Obama cancelou exercícios militares conjuntos com o Egito, previstos para o mês que vem, mas até o momento não cancelou a ajuda anual de US$ 1,3 bilhão que os EUA oferecem ao país árabe.

Navi Pillay, alta comissária de direitos humanos da ONU, pediu uma investigação independente para apurar os fatos no Egito.

"O número de mortos ou feridos, mesmo de acordo com as contas do governo, apontam para o uso excessivo - ou mesmo extremo - da força contra os manifestantes", disse Pillay.

Protestos

Mohammed Morsi - o primeiro presidente democraticamente eleito do país - foi deposto por um golpe militar em julho, enfraquecido por uma grave crise de popularidade e acusações de favorecer muçulmanos e não conter o deterioramento da economia do país.

Desde então, protestos de simpatizantes da Irmandade Muçulmana têm sido reprimidos por forças de segurança, mas o auge dos enfrentamentos foi na quarta-feira.

Segundo o governo interino, que é apoiado pelos militares, mais de 200 mortes ocorreram em três pontos do Cairo; e outras 200 pessoas morreram em outras províncias do país.

Mas Khaled Ezzelarab, também da BBC, disse ter visto pelo menos 140 corpos na mesquita de Eman, próxima ao local de um dos acampamentos reprimidos no Cairo. Esses corpos não estariam na contagem oficial.

Pelo menos 43 policiais estão entre os mortos, e o número de feridos chega a 3.572.

Segundo o editor de Oriente Médio da BBC, Jeremy Bowen, a Irmandade Muçulmana continuará com a onda de protestos.

"Eles esperaram 80 anos para tomar o poder no Egito, e agora sentem que o poder foi retirado deles de forma injusta", avalia Bowen.

Em um discurso transmitido pela televisão, o primeiro-ministro interino do Egito, Hazem Beblawi, defendeu a operação de quarta-feira e afirmou que as autoridades precisaram restabelecer a segurança.

Expressando pesar pelas mortes, ele disse que o estado de emergência nacional será levantado assim que possível.

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