Paraguai: o país da AL com menos alternância de poder

  • 15 agosto 2013
Horacio Cartes (foto: Reuters)
Image caption Partido Colorado volta ao poder no Paraguai após mandato incompleto de Lugo

O empresário milionário Horacio Cartes assumiu nesta quinta-feira a Presidência do Paraguai. Ele venceu as eleições gerais de abril trazendo de volta ao poder o Partido Colorado, que havia perdido o pleito em 2008 após seis décadas consecutivas de hegemonia.

Com a Presidência de Cartes, o Partido Colorado consegue o que nenhum outro obteve na América Latina: dominar por 61 anos um país e voltar ao poder após um só mandato de seus oponentes.

Nem em Cuba ocorre um domínio mais prolongado como o do Partido Colorado no Paraguai.

Somente o Partido Revolucionário Institucional do México (PRI) conseguiu feito semelhante com sua volta ao poder em 2012. Porém, o PRI – que havia governado por 71 anos antes de perder o poder em 2000 – ficou fora do governo por dois períodos presidenciais antes do triunfo do atual mandatário Enrique Peña Nieto.

Por outro lado, o único que conseguiu derrotar os colorados desde 1947, Lugo, não conseguiu sequer completar sua gestão: em junho de 2012 foi destituído pelo Congresso com o aval do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), que até então participava do governo.

O ex-vice de Lugo, o liberal Federico Franco, completou seu mandato e nesta quinta-feira entregou o poder a Cartes.

O empresário colorado, que venceu as eleições com 45,8% dos votos, não apenas superou por oito pontos o candidato do PLRA, Efraín Alegre – o segundo mais votado – mas também deixou para trás Aníbal Carrillo, o representante da Frente Guasú, a aliança de esquerda de Lugo, que só obteve 3,3% dos votos.

Poder arraigado

A que se deve a hegemonia do Partido Colorado no Paraguai? E por que fracassou o projeto de de alternância de poder que em 2008 havia gerado um alto nível de adesão entre a população.

Mercedes Canese, integrante da Frente Guasú e ex-viceministra de Minas e Energia do governo Lugo, disse à BBC Mundo que apesar de ter ganho a eleição anterior com 40% dos votos, a aliança de centro-esquerda não conseguiu impor sua gestão em um país dominado pelo Partido Colorado.

"Tínhamos o Congresso contra nós. Os colorados também mantiveram o controle da maioria dos governos e municípios, além do aparato estatal, que tem funcionários colorados em todos os níveis".

Segundo Luis Rojas, fundador da Sociedade de Economia Política do Paraguai, o poder judiciário também tem uma forte inclinação colorada, já que a maioria de seus membros foram nomeados durante governos desse partido.

"O Paraguai foi ingovernável para uma aliança de esquerda, já que o poder real seguiu nas mãos da direita", afirmou à BBC Mundo.

Canese afirmou que o regresso dos colorados aconteceu a partir de um racha na coalisão de governo.

"Se o Partido Liberal tivesse mantido sua aliança conosco, os colorados não teriam tido os votos para fazer o impeachment de Lugo", disse.

Segundo Cartes, quando seu partido consegue superar suas divisões internas – que segundo muitos provocaram sua derrota em 2008 – se converte em uma força invencível:

Ao assumir o poder, Cartes disse que seu compromisso é com o Paraguai e não com o partido.

"Não estou na política para cuidar de uma carreira nem enriquecer um patrimônio econômico", disse.

Futuro assegurado?

Entretanto, nem todos acreditam que o regresso do Partido Colorado garantirá sua permanência no poder.

Alguns analistas anteciparam possíveis rachas no governo logo que Cartes anunciou sua equipe – que não inclui figuras fortes dentro do Partido Colorado.

O próprio Cartes teve choques com seu partido, ao qual se filiou apenas em 2009.

Antes de ele ser escolhido candidato, a presidente do partido, Lilian Samaniego, havia questionado o empresário por supostamente ter vículos com o narcotráfico.

Apesar dos problemas, Rojas diz acreditar que Cartes não ficará independente do partido que adotou.

"Cartes não poderá governar sem o Partido Colorado", disse.

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