Brasileiras relatam medo da violência durante confrontos no Egito

  • 18 agosto 2013
Helena Souza Martini | Foto: Arquivo pessoal
Image caption Helena (à direita): “Algumas pessoas nos dizem que eles podem invadir as residências, atear fogo contra as casas, eu até agora não sei o que vai levar tudo isso, mas eu rezo pelo Egito e pelas pessoas aqui”

As ações da polícia egípcia para dispersar manifestantes que apoiam o presidente deposto Mohammed Morsi, e que terminou com mais de 800 mortos e ao menos 2 mil feridos nos últimos dias, reiniciou mais um capítulo de violência na história do Egito.

Em meio à situação de caos e medo causada pelos confrontos da semana passada estavam duas brasileiras, que relataram à BBC Brasil como foram os últimos dias na capital Cairo e em Alexandria, a segunda maior cidade do Egito.

A carioca Mônica Fonseca contou que vizinhos relataram a diferença entre os recentes protestos com os anteriores, com maior distúrbios da vida civil e maior incidência de violência entre manifestantes e polícia.

"Tenho amigos que moram em bairros onde havia acampamentos antigoverno e me contaram sobre o pavor que sentiram com manifestantes invadindo seus prédios, pois eles queriam usar os chuveiros para tomarem banho, ameaçando alguns moradores", disse ela, que mora no Egito desde 2009.

Segundo Mônica, seus amigos e conhecidos egípcios, que aplaudem as medidas das Forças Armadas e do governo interino, relataram a ela que a indignação que têm com os protestos dos apoiadores de Morsi se devia aos distúrbios que causavam ao cotidiano das pessoas, supostamente invadindo residências vazias para uso indevido, prejudicando o comércio local e ameaçando moradores.

"Tenho amigos a favor de Morsi também, e a maioria deles também era contra os acampamentos e se mostrou aliviada pela polícia os ter desmontado".

"Na minha rua já houve outros protestos de gente da Irmandade, que carregavam cartazes e faixas. Sempre houve respeito por eles e vice-versa. Mas, desta vez, a situação mudou para pior", completou ela.

Jardim invadido

Image caption Mônica tem amigos pró e contra Morsi que não aprovaram retirada dos acampamentos

Os tumultos no país começaram em 3 de julho, dia em que Morsi foi deposto pelos militares, e um ano após ele ter sido eleito. Um governo interino foi instaurado, o que levou a Irmande Muçulmana a convocar amplos protestos antigoverno que exigem a volta de Morsi ao poder.

Mônica também contou sobre o caso de um amigo que passava o feriado de fim de Ramadã no norte do país quando amigos o avisaram de que supostos seguidores da Irmandade teriam invadido o jardim de sua casa no bairro de Heliópolis, no leste do Cairo.

"Ele me contou que seus vizinhos ligaram para seu celular e relataram a ele que havia homens usando seu jardim para montar armas que traziam dentro de caixas de papelão".

Os protestos contra a deposição do islamita Morsi têm resultado em confrontos sangrentos - na última quarta-feira, o Egito contabilizou ao menos 638 mortos, e outras 173 pessoas morreram em enfrentamentos na última sexta-feira. A Irmandade Mulçumana alega que o número de mortos é muito maior.

No início da manhã do dia 14 de agosto, as forças de segurança do Egito agiram para remover dois acampamentos ocupados por apoiadores de Morsi localizados na Praça Nahde e do lado de fora da mesquita Rabaa al-Adawiva, no oeste do Cairo.

Gás lacrimogêneo foi usado para dispersar os manifestantes, e rajadas de metralhadora também foram ouvidas. Escavadeiras foram utilizadas para remover os acampamentos e barricadas de pedra.

Já no sábado, as forças de segurança disseram que esvaziaram uma mesquita no Cairo que abrigava simpatizantes da Irmandade Muçulmana, elevando ainda mais a tensão e a crise política no país.

Toque de recolher

Em Alexandria, segunda maior cidade egípcia, houve inúmeros relatos de confrontos entre membros da Irmandade Muçulmana e forças de segurança.

Morando na cidade desde 2012, a gaúcha Helena Souza Martini, que é natural de Caxias do Sul, disse que presenciou da janela de sua casa uma blitz da polícia em seu bairro, na última quarta-feira, quando cerca de 50 manifestantes estavam nas ruas após o toque de recolher imposto pelo governo.

"Alguns estavam munidos de facas e espadas, outros apenas estavam na rua por desobediência civil mesmo. Um deles reagiu ao ser abordado para evitar ser preso e deu um soco em um policial".

De acordo com ela, as pessoas receberam mensagens em seus celulares no dia seguinte informando que o governo alterava o toque de recolher das sete da noite para as 21 horas na tentativa de impor a medida.

"O exército pedia para que o povo obedecesse e respeitasse o toque de recolher. Mas na minha rua, até as crianças estavam brincando após o horário estabelecido, poucos levaram a medida a sério", contou Helena.

A brasileira também contou que um parente de seu marido ligou pedindo que não saíssem de casa, pois haviam incendiado uma delegacia em frente a casa dele, em outro bairro. "Ele nos contou que a polícia reagiu ao ataque atirando gás lacrimogêneo e, mesmo com as janelas fechadas, estava difícil de respirar devido ao gás".

Cuidados

As duas brasileiras falaram que por conta da violência e protestos no Egito, foram aconselhadas a mudar um pouco seus hábitos, para evitarem tumultos, especialmente pelo fato de serem estrangeiras.

"Vizinhos aconselharam a evitar certos lugares, mas continuo indo ao clube para nadar e saio na rua para correr e me exercitar. Sou gerente em uma empresa multinacional e posso trabalhar de casa mesmo", salientou Mônica.

Já Helena disse que procura ficar em casa, mas quando precisa fazer compras de supermercado, por exemplo, ela pede que seja entregue pelos estabelecimentos em seu endereço. "Até já comprei vinagre, caso ocorra algum confronto em frente de casa e tenha gás (lacrimogêneo) no meio, minhas janelas e sacada estão fechadas e a porta esta trancada e chaveada", explicou.

Helena enfatizou quie sua família sente medo, pois não sabem o que ainda pode acontecer se a violência aumentar.

"Algumas pessoas nos dizem que eles podem invadir as residências, atear fogo contra as casas, eu até agora não sei o que vai levar tudo isso, mas eu rezo pelo Egito e pelas pessoas aqui".

"Sentimos receio pela violência, mas não sabemos até onde isso ainda irá. Ninguém ao certo sabe se poderá acontecer mais distúrbios violentos ou não", disse, por sua vez, a carioca Mônica.

Notícias relacionadas