Libertação de Mubarak reverte vitória simbólica da Primavera Árabe

Mubarak / Reuters
Image caption Ex-presidente do Egito, Hosni Mubarak foi libertado nesta quinta-feira

A libertação do ex-presidente do Egito Hosni Mubarak nesta quinta-feira reverte uma importante vitória simbólica da Primavera Árabe, como ficou conhecida a onda de levantes revolucionários que varreu os países do norte da África e do Oriente Médio.

Mubarak, de 85 anos, foi libertado da prisão de Tora, no Cairo, e foi encaminhado a um hospital de helicóptero. De lá ele será levado para casa, onde permanecerá em prisão domiciliar.

A libertação do ex-presidente egípcio ocorreu após a Justiça do país ter acatado suas apelações.

Ele, no entanto, ainda enfrenta acusações de corrupção e cumplicidade na morte de manifestantes durante os protestos que levaram à sua renúncia há três anos.

Para o correspondente da BBC no Oriente Médio, Kevin Connolly, a libertação de Mubarak, além de ter representado um duro golpe na revolução, aumenta a instabilidade do Egito, que vive um momento de grande tensão política.

Ele lembra que a imagem do ex-presidente sendo julgado em um tribunal do Cairo, permanecendo encarcerado dentro de uma sala de vidro, deu esperança a muitos egípcios de que os tempos obscuros de seu regime haviam chegado ao fim e o país poderia, a partir dali, trilhar um novo caminho, mais alinhado aos anseios da população.

Porém, em junho deste ano, os militares depuseram o primeiro presidente democraticamente eleito do Egito, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana. Desde então, o país vem sendo governado em estado de emergência.

À ascensão dos militares ao poder seguiu-se um banho de sangue. Centenas de membros da Irmandade Muçulmana vêm sendo detidos, incluindo seu líder supremo, Mohammed Badie, que foi preso com base em acusações de que incitava violência e assassinatos.

Para Connolly, por outro lado, ainda que o golpe dos militares tenha sido apoiado por parte da população egípcia, não há uma definição clara de que a libertação de Mubarak terá a mesma acolhida.

"Nesse momento radicalmente polarizado e volátil, o efeito disso na sociedade egípcia é imprevisível. Há muitos liberais seculares que, embora tenham festejado o golpe das Forças Armadas contra Morsi, ficariam horrorizados ao vê-lo sair da prisão", diz o jornalista da BBC.

Lei de emergência

Nesta quinta-feira, enquanto o helicóptero que levaria Mubarak ao hospital pousava na prisão de Tora, dezenas de simpatizantes do ex-presidente se reuniam do lado de fora agitando bandeiras.

Minutos depois, a TV egípcia mostrou ao vivo a aeronave transferindo Mubarak a um hospital militar da capital. O ex-líder foi visto sendo transferido do helicóptero a uma ambulância em meio a um grande esquema de segurança.

A libertação veio após uma decisão judicial determinando que o ex-presidente fosse solto. Ele foi acusado de corrupção por ter recebido presentes de uma editora estatal.

Como Mubarak havia reembolsado os valores aos cofres públicos, a Justiça considerou que o ex-presidente deveria ser liberado.

Image caption Mubarak governou o Egito por 30 anos

A decisão foi em última instância e nenhuma outra apelação poderia ser feita, informou o tribunal.

Os promotores tentaram, em vão, trazer novas acusações para evitar a libertação de Mubarak, logo após o anúncio da decisão.

Mas, imediatamente após a ordem judicial, o gabinete do primeiro-ministro Hazem el-Beblawi informou que o ex-presidente egípcio permaneceria em prisão domiciliar.

"No contexto da lei de emergência, o vice comandante militar emitiu uma ordem para que Mubarak fosse colocado em prisão domiciliar", disse o comunicado.

Resposta europeia

Mubarak foi condenado à prisão perpétua no ano passado por cumplicidade na morte de manifestantes, mas a realização de um novo julgamento havia sido determinada após a Justiça ter acatado sua apelação.

A nova tentativa foi aberta em maio, mas Mubarak já havia cumprido o tempo máximo de detenção pré-julgamento permitido nesse caso.

Na quarta-feira, os chanceleres da União Europeia concordaram em interromper a exportação de licenças de equipamentos militares ao Egito e reavaliar a cooperação de segurança em resposta à turbulência no país.

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