Tensão na Síria pode abrir caminho a acordo político para crise

enterro na Síria | Reuters
Image caption Médicos Sem Fronteiras contabilizaram 355 mortes por agentes tóxicos

O uso aparente de armas químicas nos subúrbios de Damasco, que causaram a morte de centenas de civis, elevou o conflito na Síria a um nível de crise ainda maior.

Com os Estados Unidos endurecendo sua posição militar no leste do Mar Mediterrâneo e o russos continuando a defender seu único aliado leal no mundo árabe, as previsões calamitosas feitas por analistas regionais há alguns meses de que a situação poderia desencadear rapidamente a Terceira Guerra Mundial, agora começam a parecer menos atraentes.

Contrariamente, há quem acredite que o nível de tensão a que chegou o conflito poderá forçar o desbloqueio do processo para que um acordo político seja alcançado.

Fora do caos e da tensão dos últimos dias, vários fatores emergem claramente.

Até o regime sírio e seus aliados próximos, Rússia e Irã, não contestam o fato de que armas químicas foram usadas nos subúrbios de Damasco nas primeiras horas de quarta-feira.

Evidências

As evidências apresentadas por imagens chocantes de um grande número de vídeos amadores são muito claras para serem rejeitadas.

No sábado, a organização Médicos Sem Fronteiras afirmou que 3,6 mil pacientes foram atendidos em três hospitais de Damasco com sintomas neurotóxicos. Deste total, 355 morreram.

E isto pode não ser tudo.

O Centro de Documentação de Violações, a mais equilibrada e talvez menos sensacionalista entre as organizações que registram as mortes no conflito, listaram nomes e detalhes de 457 pessoas que morreram de envenenamento por agentes químicos em oito áreas de Damasco na quarta-feira. E os números podem ser uma fração mínima do total.

Ao reconhecerem o ataque, autoridades russas e iranianas vêm adotando ou a retórica do governo sírio - a de que as armas químicas foram lançadas por rebeldes armados -, ou deixam em aberto a atribuição de responsabilidade.

Soma-se a isso a pressão para que os inspetores da ONU, que estão em Damasco desde a semana passada para investigar outros locais que teriam sofrido ataques semelhantes, tenham acesso ao local do último bombardeio.

Tanto Moscou quanto Teerã afirmam que estão pedindo as autoridades sírias que cooperem com os inspetores e o ministro iraniano das Relações Exteriores citou o colega sírio, Walid Muallem, que teria dito que o governo estaria em discussão com a equipe da ONU e preparando as condições para uma visita ao local.

A situação ainda proporcionou um raro contato direto entre Muallem e o secretário de Estado americano, John Kerry.

Obama relutante

Por enquanto, o que está claro é a grande relutância, por parte do presidente americano, Barack Obama, de mergulhar em um imbróglio do qual pode ser difícil de sair e que corre o risco de agravar a situação ainda mais.

No Ocidente, um sentimento quase irresistível de que algo deve ser feito para defender a população síria colide com a realidade de que não há opções de intervenção que sejam aceitáveis ou atraentes quando avaliados os riscos.

Obama também sabe que seu público não quer outra aventura cara e sem data para terminar no Oriente Médio.

Até a resposta mais minimalista, que seria treinar e armar as forças da oposição, não aparece como a opção mais viável.

O Ocidente nunca desejou a vitória dos rebeldes na Síria.

Sua estratégia tem sido esperar que, diante da forte pressão, o regime desmorone parcialmente, livrando-se da liderança de Assad e negocie uma transição que exclua o alto escalão do governo, mas mantenha a estabilidade e estrutura do Estado.

Mas nunca houve evidência de que este tipo de abordagem funcionaria.

Além disso, o Ocidente enfrenta a realidade de que a oposição moderada que vem tentando apoiar não se mostrou coerente, crível ou eficiente no terreno.

Em vez disso, à frente dos rebeldes estão facções islâmicas, muitas delas ligadas à Al-Qaeda.

Como aconteceu no Iraque, a intervenção do Ocidente corre o risco de fragmentar a Síria ainda mais, criando uma situação incontrolável que poderia ver o poder cair nas mãos de seus inimigos. E, neste sentido, Washington e Moscou tem mais pontos de vista em comum do que os olhos podem ver.

Os russos, traumatizados com a Chechênia, também ficam petrificados diante da possibilidade de uma dominação islâmica na Síria.

E é por isso que alguns observadores acreditam que ainda há chances de entendimento entre russos e americanos, cujos ministros das Relações Exteriores concordaram em maio em trabalhar juntos na busca por um consenso político sobre a Síria.

Mas até então isto estava se provando difícil de acontecer.

Então agora não parece fora de questão que as recentes pressões causadas pelo uso de armas químicas contra civis seja o suficiente para estourar a rolha e forçar as negociações.

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