EUA e britânicos dão passo atrás sobre ação na Síria

  • 29 agosto 2013
Barack Obama e David Cameron
Image caption Líderes dos EUA e Grã-Bretanha responsabilizaram governo sírio sobre ataque químico em Damasco

Apesar das indicações de que os Estados Unidos, Grã Bretanha e França se moviam para iniciar uma ofensiva militar na Síria neste fim de semana, resistências internas e externas enfrentadas por esses países podem forçá-los a recuar – ao menos, momentaneamente.

Na noite de quarta-feira, o premiê britânico, David Cameron, sinalizou que deixaria de propor uma votação no Parlamento do país nesta quinta que autorizasse uma ação militar na Síria, após opositores do Partido Trabalhista pedirem mais tempo para colher provas sobre a autoria de um possível ataque com armas químicas na nação árabe.

Cameron busca apoio doméstico para embasar sua posição favorável ao ataque.

Também nesta quarta, o presidente dos EUA, Barack Obama, disse em entrevista à emissora pública americana PBS que ainda não havia tomado uma decisão sobre um ataque militar na Síria.

Obama, porém, responsabilizou o governo sírio pelo ataque e disse que "as normas internacionais contra o uso de armas químicas devem ser cumpridas". Não está claro se Obama pretende pedir apoio do Congresso americano caso opte por uma intervenção na Síria.

Inspetores da ONU investigam o ataque, ocorrido em 21 de agosto a leste da capital Damasco , quando forças do governo promoviam um bombardeio para tentar expulsar rebeldes da região.

Grupos de oposição dizem que, durante esse ataque, foguetes com agentes tóxicos foram lançados em áreas civis na região de Ghouta.

Eles dizem que mais de 300 pessoas morreram, muitas delas mulheres e crianças. Organizações independentes, como os Médicos Sem Fronteiras (MSF), divulgaram números semelhantes. Para alguns ativistas da oposição, as mortes podem ser ainda mais numerosas.

O Exército sírio nega o uso de armas químicas e diz que as acusações são uma "tentativa desesperada" dos rebeldes de encobrir suas derrotas na região e parte de uma "propaganda suja de guerra".

'Provas contundentes'

Segundo o líder do Partido Trabalhista britânico, Ed Miliband, são necessárias "provas contundentes" de que o governo sírio conduziu o ataque para que a sigla apoie uma intervenção.

Ele disse que é preciso "aprender as lições do Iraque". Em 2003, os Estados Unidos lideraram uma ofensiva – apoiada pela Grã-Bretanha – contra o Iraque baseada no argumento de que o país, então liderado por Saddam Hussein, tinha armas de destruição em massa que punham em risco a segurança regional. A acusação, porém, jamais foi confirmada.

Na quarta, segundo o jornal New York Times, funcionários do governo americano disseram a jornalistas que não há "arma fumegante" que ligue diretamente Assad ao ataque. O jornal diz que os documentos do governo americano a serem apresentados não contêm interceptações de comunicações entre comandantes sírios nem relatos detalhados de fontes no local.

A ONU também tem desencorajado uma intervenção na Síria. O secretário-geral da entidade, Ban Ki-moon, disse que a investigação sobre o ataque só deve se encerrar na sexta-feira. Depois disso, o grupo iniciará análises científicas – que não têm prazo para serem concluídas – e, só então, relatará seus achados para o Conselho de Segurança da ONU.

Na última reunião do conselho, na quarta à noite, a Grã-Betanha insistiu para que os membros permanentes do órgão adotassem uma resolução autorizando medidas para proteger os civis na Síria.

Mas a Rússia, aliada da Síria, se recusou a concordar com a resolução. Moscou tem poder de veto no conselho.

De acordo com o Ministro do Exterior russo, Sergei Lavrov, o uso da força sem a sanção do conselho seria uma "violação brutal " do direito internacional e "levaria à desestabilização a longo prazo da situação no país e na região".

Mas, mesmo sem o apoio da ONU, os Estados Unidos e seus aliados têm sinalizado que a ação militar ainda é uma opção.

"Este é o primeiro uso de armas químicas no século 21", disse o ministro do Exterior britânico, William Hague. "Tem que ser inaceitável ... ou vamos enfrentar ainda maiores crimes de guerra no futuro."

Estima-se que mais de 100 mil pessoas já morreram desde que o conflito eclodiu na Síria, em março de 2011, e pelo menos 1,7 milhão de sírios estão refugiados .

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