Extrema-direita polariza campanha com xenofobia na Alemanha

Foto: Albert Steinberg/BBC Brasil
Image caption O alto desemprego de Berlim facilita o discurso inflamado de partidos de direita

Na Alemanha, assim como em outros países europeus atingidos pela crise econômica, o tema imigração tem sido um dos principais itens da campanha para as eleições gerais, marcadas para 22 de setembro.

Partidos de extrema-direita aproveitam o momento de crise e tentam sensibilizar os eleitores com uma agenda recheada de elementos xenófobos. Com menos oportunidades de emprego e com a população submetida aos rigores dos planos de ajuste econômico do governo, o imigrante é mostrado como vilão aos eleitores.

Ironicamente, o radicalismo da campanha da direita tem servido também para aumentar a visibilidade dos partidos antinazistas que aproveitam para atacar a presença dos extremistas nas ruas.

O embate tem se manifestado abertamente, como no comício do NPD, Partido Nacional Democrata, de extrema-direita, realizado recentemente em Hellersdorf, um subúrbio de Berlim, acompanhado pela reportagem da BBC Brasil.

Comício

Em entrevista à BBC Brasil, Ronny Zasowk, representante do NPD, disse que o partido tenta concentrar a campanha em áreas onde a discussão sobre asilados políticos é mais acalorada.

Em Hellersdorf, o NDP inflama o discurso xenófobo, usando como exemplo de "desperdício" a existência de um dos inúmeros albergues para asilados políticos mantidos pelo governo existentes no país. Nele, vivem mais de 200 estrangeiros recebidos pela Alemanha como asilados. A maioria vem de países em conflito, como Síria e Afeganistão.

Durante o comício, um militante gritava palavras de ordem contra imigrantes, enquanto que do outro lado da rua manifestantes autointitulados antinazistas aumentavam ao máximo o volume de um equipamento de som montado em um caminhão, para abafar o discurso adversário.

Image caption Grupos rivais usam potentes equipamentos de som para tentar abafar o comício do NDP

Ao microfone, Zasowk gritava que o NPD não descansará até que o último albergue destinado a asilados políticos seja fechado. Ao lado, uma faixa com dizeres que tentam passar a ideia de um futuro no qual o cenário político alemão será "dominado" por imigrantes: "Hoje somos tolerantes, amanhã (seremos) estrangeiros no próprio país".

Além dos ataques aos estrangeiros, o NPD também defende que a fronteira da Alemanha volte a ser o que era em 1937, antes da Segunda Guerra Mundial.

Na manifestação em Hellersdorf, o grupo extremista estava em minoria. Eles somavam cerca de 150 militantes, enquanto do outro lado de uma forte barreira policial 700 pessoas protestavam contra a presença do NPD. Entre eles representantes dos partidos de esquerda, como os sociais-democratas, os verdes e membros do Die Linke (na tradução livre, A Esquerda).

Provocação

O NPD foi fundado em 1964 e atualmente conta com cerca de 5.400 membros.

Apesar de pequeno, o movimento preocupa o governo. Berlim possui o maior índice de desemprego da Alemanha, 11,8%, bem acima da média alemã (6,8%) e o NPD sabe que este é um terreno fértil para a propagação de ideias de intolerância.

Uma reportagem do site de notícias Spiegel contou a história de uma mãe de família, residente no bairro de Hellersdorf, que aderiu ao movimento da extrema-direita. Ela diz não ter nada contra os asilados políticos, mas reclama que tenta há meses uma vaga na creche para a sua filha, sem sucesso.

Florian Hartleb, especialista em grupos de extrema-direita da Universidade de Bonn, acredita que o NDP faz uma campanha desesperada diante de graves problemas financeiros e de um processo de proibição do partido, que está em andamento.

"O NPD age como se fosse a última chance de conseguir representação no parlamento, por isso, eles fazem o que sempre fizeram, provocações e uma campanha que é xenófoba, antidemocrática e extremista", analisa.

Image caption Propaganda do NDP incita rejeição a imigrantes; este cartaz deseja "Boa Viagem de volta à casa" aos estrangeiros

Os cartazes usados pelo NPD confirmam esta provocação. "Boa viagem para casa", diz um deles com uma imagem de um africano, uma mulher de véu e um árabe em cima de um tapete. Outros cartazes dizem: "Maria ao invés de Sharia (opondo o cristianismo ao código moral e religioso do islã)", "Combater a criminalidade, aumentando a segurança das fronteiras" ou "Dinheiro para as vovós ao invés de para os ciganos".

Em 2001, o NPD já havia chocado a opinião pública ao lançar uma campanha com uma foto do presidente do partido em cima de uma moto e o slogan "Gas geben". Em alemão, a expressão significa acelerar, mas neste caso também é um jogo de palavras com "dar um gás", uma referência ao extermínio em massa de judeus em câmaras de gás nos campos de concentração.

Ações "antinazi"

A reação contra a campanha xenófoba do NPD acontece nacionalmente. Grupos antinazistas montaram um blog para organizar o movimento contrário. Na página, é divulgada com antecedência a agenda de eventos do NDP para que possam ser organizadas manifestações contrárias ao partido de extrema-direita,.

Nas últimas eleições parlamentares, o NPD conseguiu somente 1,5% dos votos, longe dos 5% necessários a uma vaga no parlamento. Mas o partido de extrema-direita tem atualmente assento em duas câmaras estaduais, nos estados da Saxônia (8 deputados) e de Meckemburgo-Pomerânia Ocidental (5 deputados).

Mas o professor Hartleb diz que o partido de extrema-direita se encontra isolado no espectro político alemão. "Representantes do NPD não são nem cumprimentados no parlamento", conta.

Image caption Grupos antinazistas contrapõem propaganda da direita deixando claro o repúdio ao NDP

Tal isolamento pode ser sentido em um processo em andamento que pede a extinção do NPD por considerá-lo uma ameaça à Constituição alemã. A câmara dos Estados alemã, com representação dos dezesseis governos estaduais do país, já concordou em extinguir o NPD. Os representantes dos mais variados partidos foram unânimes na decisão. O pedido de extinção deve ser agora analisado pelo parlamento.

Julgamento NSU

A motivação do processo veio em grande parte do julgamento na Baviera de Beate Zschäpe, integrante do grupo neonazista NSU. Existem indícios de que a célula de extrema-direita tinha ligações com o NPD. A organização é acusada de atos terroristas e do assassinato de dez pessoas, em sua maioria de origem turca, entre 2000 e 2007.

O julgamento só deve terminar em 2014. Caso fique comprovada a ligação entre o partido de extrema-direita e a célula terrorista, o processo para a proibição do NPD deve ganhar força.

Além disso, relatórios do serviço de segurança alemão afirmam que o NPD promove o racismo, a xenofobia e o antissemitismo, o que é inconstitucional no país germânico.

"Existem muitos bons motivos para banir o NPD, como seu radicalismo e suas posições anticonstitucionais e antidemocráticas, mas de um ponto de vista político-estratégico, não é o melhor caminho", defende Hartleb. No entanto, ele reconhece que a proibição do NPD teria um impacto positivo na reputação da Alemanha frente à opinião pública internacional.

Na história alemã, a proibição de partidos só ocorreu duas vezes: quando os nazistas baniram o Partido Comunista na década de 30 e quando o Partido Nacional-Socialista, de Adolf Hitler, foi extinto após a Segunda Guerra Mundial.

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