Americano vai à Amazônia em busca de mãe ianomâmi

David Good e Yarima
Image caption David Good foi a aldeias ianomâmi em busca de sua mãe, Yarima

Os pais de David Good, de 25 anos, vieram de países diferentes ─ algo comum nos Estados Unidos, onde ele foi criado. No entanto, a família de Good está longe de ser típica ─ seu pai é americano, mas sua mãe é uma indígena que vive em uma região remota da Amazônia venezuelana. Duas décadas depois de ela ter retornado para sua tribo, David decidiu reencontrá-la.

Mas após três dias viajando pelo rio Orinoco, ele adoeceu. O jovem americano havia sido repetidamente mordido por mosquitos, estava cansado e com sede.

O ar estava úmido e abafado. Fortes raios de sol refletiam-se nas águas do rio cheio de piranhas, enquanto o motor do barco impulsionava a embarcação rio acima, cada vez mais para dentro da Amazônia.

David não era um viajante ou explorador experiente. A viagem para a Amazônia - que aconteceu em julho de 2011 - era a sua primeira fora dos Estados Unidos desde a infância.

Mas mesmo assim - era o que todos lhe diziam - as coisas estavam indo bem. Normalmente, os viajantes precisavam desembarcar com seus pertences e fazer parte da jornada a pé, enquanto o barco era rebocado pelas corredeiras do Guajaribo com uma corda.

Desta vez, chovia fortemente e o rio estava mais cheio do que estivera em anos. Então, desviando-se das pedras, Jacinto, o índio responsável pelo barco, conseguiu atravessar a corredeira.

Horas depois, o barco fez uma curva e gritos começaram a ser ouvidos das margens do rio. Só poderiam ser de membros da tribo Ianomâmi - nenhum homem branco vivia naquela área.

"Eles começaram a gritar 'Motor! Motor!' porque não ouvem motores com frequência", diz David. Ele esperava vê-los com arcos e flechas, mas vieram desarmados. O boato tinha se espalhado e a aldeia já esperava a chegada de um barco.

"Eu vi crianças, homens e mulheres na margem esperando por nós. As mulheres estavam nuas da cintura para cima, os homens usavam camisetas e shorts."

Eles tinham vindo da aldeia Hasupuweteri. Quando David desembarcou, eles começaram a falar rapidamente em ianomâmi e a cutucá-lo.

"Fui completamente cercado - todas as mulheres e crianças se amontoaram em volta de mim. Havia tantas mãos em mim, puxando minha orelha, pegando no meu nariz e no meu cabelo", relembra. Com 1,60m, David estava acostumado a ser o mais baixo de seu grupo de amigos, mas agora era mais alto do que os Ianomâmi, um dos grupos étnicos mais baixos do mundo.

Não era a primeira vez que as pessoas de Hasupuweteri encontravam nabuh - como eles chamam os homens brancos. Mas os nabuh que tinham conhecido antes eram missionários, médicos e antropólogos.

Eles sabiam que David era diferente - ele não queria salvar suas vidas nem suas almas e não fazia perguntas estranhas. Queria apenas encontrar sua mãe.

Povo feroz?

Os Ianomâmi vivem em aldeias - há entre 200 e 250 delas - distribuídas por uma área de 96,5 mil quilômetros quadrados de floresta na fronteira entre o Brasil e a Venezuela.

Eles são um grupo diverso. Variam de comunidades relativamente ocidentalizadas, que vivem próximo a missões religiosas, até aldeias que não têm contato direto regular com o mundo externo - apesar de trocarem bens com outras aldeias que mantêm esse contato.

A vida nas aldeias se concentra ao redor de um shapono - uma grande oca oval ou arredondada feita de madeira. Toda a aldeia vive sob o teto de palha do shapono. As famílias cozinham e dormem em redes em áreas separadas. É um local para os rituais de troca e xamanismo, para discussões públicas e até brigas.

Em 1968, o antropólogo americano Napoleon Chagnon publicou seu livro Yanomamo: The Fierce People (em tradução livre, Ianomâmi: O Povo Feroz). Um bestseller, a obra descreve a tribo como propensa a disputas mesquinhas - geralmente por mulheres - que acabavam resultando em guerras entre aldeias. Ele pintou a imagem de um mundo em que guerras, estupros coletivos e assassinato eram comuns.

Foi como aluno de Chagnon na universidade que o pai de David Good, Kenneth Good, viajou pela primeira vez para a Amazônia, em 1975. Ele viajou pelo rio Orinoco, como fez seu filho, 36 anos depois. E se instalou em uma pequena cabana próximo a Hasupuweteri.

O plano era ficar durante 15 meses fazendo um trabalho de campo, medindo o consumo de proteína animal de todos os membros da aldeia. O objetivo era colher os dados que Chagnon precisava para mostrar a seus muitos críticos que as guerras entre aldeias não estavam relacionadas à escassez de comida e, sim, ao imperativo de aumentar o sucesso reprodutivo.

Caso de amor

Good pesava cada um dos macacos-aranha e tatus caçados pela tribo. Os índios riam da situação estranha. Quando ele explicava que queria saber o peso de cada animal, perguntavam por que ele não simplesmente os segurava.

Image caption Kenneth Good, pai de David, viajou para Amazônia pela primeira vez em 1975

Perto do final do período de 15 meses, Good estava ficando fluente na língua Ianomâmi, mas também estava insatisfeito com o foco limitado da pesquisa que tinha ido fazer.

"Medir os animais e calcular o rendimento (de proteínas) não era suficiente", ele escreveu depois. "A coleta e o consumo de comida tinham que ser colocados no contexto cultural."

Para conhecer melhor esse contexto, ele se mudou para o shapono na aldeia e observou o maior número de rituais diários que conseguiu. Saiu com os índios para caminhadas, caçadas e testemunhou ritos funerários. Os Hasupuweteri o chamavam de shori - cunhado.

E Good começou a questionar a imagem dos Ianomâmi que seu professor, Chagnon, havia construído.

"Ele concluiu que os Ianomâmi não eram tão ferozes como haviam sido descritos", diz David Good. "E eu acho que há alguma verdade nisso, porque meu pai acabou vivendo lá durante 12 anos, e eu não viveria 12 anos com pessoas ferozes, selvagens e inclinadas a guerras."

"Ele se enamorou do povo. E se apaixonou por minha mãe."

Um dia, em 1978, o chefe dos Hasupuweteri fez uma proposta a Good.

"Shori, você vem sempre aqui nos visitar e viver conosco... estive pensando que você deveria ter uma esposa. Não é bom para você viver sozinho", disse o índio, segundo o relato de Kenneth Good em seu livro de memórias Into the heart: An Amazonian Love Story (Coração Adentro: Uma História de Amor Amazônica, em tradução livre), publicado em 1991.

No início, Good recusou, mas acabou aceitando a ideia. "Me peguei pensando que talvez casar ali não seria tão horrível: certamente estaria de acordo com os costumes deles. De certo modo, a ideia até se tornou atraente. Afinal, que melhor afirmação poderia haver da minha integração com os Hasupuweteri?"

Quando ele cedeu, o chefe da tribo disse: "Fique com Yarima. Você gosta dela. Ela é sua esposa."

Yarima, a irmã mais nova do cacique, era uma menina alegre. E Good realmente gostava dela. Mas ele tinha 36 anos e Yarima não tinha mais do que 12.

Não houve cerimônia de noivado e o casamento só foi foi consumado anos depois. Isso faz parte do sistema Ianomâmi de noivado infantil, criado para permitir que se formem laços entre as famílias e evitar conflitos. Yarima continuou morando com sua família, mas ocasionalmente levava comida para o "marido". E ele passava mais tempo com ela do que com as outras crianças.

A cada visita que Good fazia à aldeia, o casal se aproximava e o vínculo entre os dois se tornava mais real. A tribo começou a tratá-los como marido e mulher, e Good sentia falta de Yarima quando viajava para fora da Amazônia.

Diferentemente do que acontece com médicos e psicólogos - cuja conduta é regida por códigos que impedem relacionamentos com pacientes - não existem regras proibindo antropólogos de se relacionarem com os objetos de suas pesquisas. Mas muitos questionam se relações sexuais, por prazer ou para efeito de estudo, são aceitáveis.

No caso de Kenneth Good, não foi uma questão de pesquisa. Ele e Yarima se apaixonaram um pelo outro. Ela o chamava, afetuosamente, de Testa Grande. Ele a chamava de Bushika (Pequena).

"Onde está o limite (entre o certo e o errado)?", pergunta Good no documentário Secrets of the Tribe.

Alguns colegas o acusaram de se aproveitar da tribo, e até de pedofilia.

Image caption Yamira era a irmã mais nova do cacique e encantou o americano Kenneth Good

Os Ianomâmi não usam um sistema numérico para somas e Good não sabia ao certo quantos anos Yarima tinha. Em seu livro, ele calcula que Yarima teria 15 anos quando os dois tiveram a primeira relação sexual.

Yarima já tivera sua primeira menstruação e, segundo o costume da tribo, estava na idade de se casar e ter filhos.

"Estamos sempre tentando julgar os outros de acordo com nosso ponto de vista, uma visão etnocêntrica", disse David Good. Ele argumenta, no entanto, que nossos ancentrais não viviam como vivemos hoje, no mundo moderno. Não havia o período de amadurecimento que entendemos como adolescência, as meninas se casavam e tinham filhos após a primeira menstruação.

"Sempre digo às pessoas, meu pai se casou com minha mãe, mas minha mãe também se casou com meu pai. Foi um acordo mútuo entre duas pessoas, um casamento baseado em amor, romance e amizade".

David foi cercado pela tribo quando desceu do barco porque era famoso. Os Hasupuweteri mais velhos se lembravam do pai dele e os mais novos tinham crescido ouvindo histórias de que os filhos de Yarima e Kenneth tinham sido criados no mundo dos brancos.

A mãe dele, os índios explicaram, estava na aldeia de Irokaiteri, dez minutos rio acima. Mas os índios não permitiram que David seguisse viagem por barco: ele era interessante demais para a tribo.

Em vez disso, foi levado para dentro da shapono. Um rapaz chamado Mukashe, apresentado como seu meio-irmão, correu pela floresta para buscar Yarima.

Depois de 19 anos de separação, David teria de esperar mais algumas horas.

Mas voltemos à história do casamento de Yarima e Kenneth Good.

Amazônia

Apesar de ter se casado com uma indígena, era impossível para Good viver indefinitivamente na Amazônia.

Ele não podia caçar, precisava de mais comida do que os outros membros da tribo, de remédios e permissões especiais para permanecer na região. Isso significa que ele tinha de continuar seus estudos acadêmicos. Mas obter financiamento para suas pesquisas de campo era difícil.

E mais importante, toda vez que ele viajava a trabalho, Yarima ficava em perigo.

Em uma dessas viagens, quando ele teve de se ausentar por vários meses, Yarima foi estuprada, sequestrada e espancada por um grupo de ianomâmis. Uma de suas orelhas foi rasgada.

Isso resultou no primeiro contato da indígena com o mundo exterior à floresta. Good levou-a para a cidade de Puerto Ayacucho, para receber tratamento.

"Cada aspecto desse mundo era novo, único e estranho para ela", contou David Good. "Quando você liga um carro, parece um animal, com os faróis ligados. Ouvi histórias de que ela costumava se esconder atrás de arbustos".

No hotel onde Yarima e Kenneth se hospedaram, ele teve de cobrir o espelho com um pano, para que a indígena não ficasse assustada.

No Amazonas, leva tempo para caçar e para cultivar alimentos. Comida nunca é desperdiçada, nem recusada. A pergunta "Você está com fome?" não faz qualquer sentido na tribo, explicou Good. Por isso, a noção de um supermercado cheio de alimentos prontos para o consumo, ou de um restaurante onde você escolhe o que deseja comer, fazia o mundo de Yarima virar de ponta cabeça.

A indígena também tinha medo da polícia. Quando ela saiu da floresta, em meados da década de 1980, os Ianomâmi que viviam rio acima tinham ouvido falar da polícia, mas imaginavam que fosse como uma tribo muito feroz, vivendo em uma única aldeia.

Havia toda sorte de mitos sobre o que a polícia faria se pegasse você. Uma crença comum era a de que a polícia comia Ianomâmis encontrados longe da tribo.

Por outro lado, Yarima se adaptou rapidamente a outros costumes da vida na cidade dos brancos. Gostava de roupas, de fazer compras. E aos poucos, perdeu o medo de viajar de automóveis, gostava de carros, motos e aviões. Máquinas extraordinárias como elevadores, por exemplo, foram aceitas por Yarima como exemplos de magia branca - o antropólogo escreveu em seu livro de memórias.

Estados Unidos

Image caption Yarima teve dificuldades de adaptação quando deixou sua tribo

Em 1986, quatro anos após o casamento de Kenneth e Yarima ter sido consumado - oito anos após o início do noivado -, os dois tiveram de deixar a floresta.

Kenneth não tinha conseguido renovar sua bolsa para continuar suas pesquisas na Amazônia, endividou-se e caiu em depressão.

No dia 17 de outubro de 1986, o casal voou para Nova York e se casou. Nove dias mais tarde, David nasceu.

Sua irmã, Vanessa, nasceu um ano mais tarde em uma folha de bananeira na Amazônia - durante uma visita da família a Hasupuweteri. Outro irmão, Daniel, chegou três anos depois.

David disse que tem lembranças felizes da mãe naquele período. Conta que os dois tinham o hábito de ir comer donuts e tomar café, que a mãe adorava montanhas russas e brincar de luta. "Não me lembro de uma mãe atormentada e infeliz, de maneira alguma".

Mas a vida em Nova Jersey não estava dando certo para Yarima. Não era por causa do clima, da alimentação ou das tecnologias modernas. O problema era a ausência de contato humano íntimo. O dia dos Ianomâmi começa e termina na shapono aberta para parentes, amigos, vizinhos e inimigos.

Em Nova Jersey, o dia de Yarima começava e terminava em uma caixa fechada, isolada da sociedade. Ninguém, exceto Kenneth, podia se comunicar com Yarima em sua língua nativa e ela não tinha meios de se comunicar com sua família na Amazônia.

Kenneth Good coescreveu um livro de memórias relatando suas experiências. O casal foi tema de reportagens em revistas e jornais. Em 1992, um filme feito pela National Geographic Society documentou a primeira visita da família à floresta depois de quatro anos.

O filme captura momentos alegres mas também inclui um depoimento de Yarima sobre a vida nos Estados Unidos.

"Moro em um lugar onde não saio para catar madeira ou caçar. As mulheres não me chamam para ir matar peixe", ela explica em sua língua nativa. "Não é como na floresta. As pessoas são separadas e sozinhas. Deve ser porque eles não gostam da mãe deles".

Alguns meses após o filme ter sido feito, em outra visita a Hasupuweteri, Yarima decidiu ficar.

"Eu estava com minha irmã nos Estados Unidos, minha mãe e meu irmão menor estavam na Amazônia", disse David. Seu pai foi à floresta buscar Yarima e o filho caçula, mas voltou apenas com o bebê. Depois de algum tempo, David se deu conta de que a mãe não voltaria mais.

Yarima pediu a Kenneth que levasse Vanessa para a Amazônia, para que ela fosse criada na Hasupuweteri, mas ele recusou. As três crianças foram criadas nos Estados Unidos.

Identidade

David tentou se tornar um típico menino americano. Jogava baseball, arrumou um trabalho entregando jornais. Pediu ao pai que - caso alguém perguntasse - dissesse que o filho era de origem hispânica, não ianomâmi.

Tirava boas notas, mas intimamente as coisas iam mal. Ele se consumia de ódio pela mãe que o havia abandonado, mas pensava nela quase todos os dias.

Começou a beber, rompeu com a namorada, abandonou a escola.

Quando tinha 21 anos, assistiu, pela primeira vez, ao filme da National Geographic Society do qual tinha participado aos cinco anos de idade. Ao ver o rosto da mãe e ouvir sua voz, caiu em um rio de lágrimas.

"Não tem nada de errado com você. Você simplesmente perdeu sua mãe", disse uma amiga que estava com ele naquele momento.

"Comecei a compreender por que ela havia partido e o que ela tinha enfrentado aqui (nos Estados Unidos)", disse David. "Ela não teria sobrevivido, não teria sido capaz de ser uma mãe Ianomâmi, de me ensinar a cultura Ianomâmi."

Image caption Yarima, David e Vanessa quando ainda viviam juntos nos EUA

Aos 22, David sentiu que precisava se reconectar com sua porção Ianomâmi.

Em 2009, com a ajuda do pai, fez contato com a antropóloga venezuelana Hortensia Caballero. Ela havia conhecido David quando ele era bebê e conhecia Yarima.

Mas Caballero só conseguiu fazer contato com Yarima em 2011, quando foi fazer um trabalho perto do território Ianomâmi.

Agora, a indígena vivia na comunidade Irokaiteri, que havia se separado dos Hasupuweteri e estava construindo um novo shapono não muito longe da antiga aldeia.

Para Caballero, é importante que os Ianomâmi tenham controle sobre suas interações com os nabuh. Ela queria ter certeza de que a aldeia estava pronta para receber David.

"As pessoas se reuniram na aldeia que estavam construindo", contou Caballero. "Todos falaram, especialmente os líderes. Então perguntei a Yarima".

"Sim, eu quero muito ter David aqui", foi a resposta.

A tribo escreveu uma carta convidando David, para que ele pudesse obter um visto de entrada na área protegida - estrangeiros não têm mais permissão de entrar nas reservas.

Kenneth Good, agora com quase 70 anos, ajudou a financiar a viagem e foi com o filho buscar os presentes que ele levaria para a tribo.

Quando partiu em direção à Amazônia, em julho de 2011, David sabia apenas duas frases na língua Ianomâmi. "Estou com fome" e "Meu bumbum está coçando", que ele lembrava desde a infância.

Reencontro

Depois de três horas de espera, em alvoroço, Yarima chegou a Hasupuweteri. Ela tinha corrido o caminho inteiro.

Baixa, com 40 e poucos anos de idade e cheia de vigor, ela carregava uma cesta com as raízes que tinha colhido na floresta. Jogou tudo no chão, enquanto tentava recobrar o fôlego. A aldeia caiu em um silêncio eletrizante.

Duas décadas haviam se passado, mas David reconheceu sua mãe.

"Eu soube que era ela, imediatamente", ele disse. "Me levantei e me aproximei. E de repente me perguntei: 'E agora, o que faço?' Queria segurá-la, abraçá-la, mas não é assim que os Ianomâmi saúdam as pessoas."

"Então foi só esse encontro desajeitado, coloquei minha mão no ombro dela e ela começou a tremer e a chorar. Olhei nos olhos dela e também não conseguia parar de chorar".

"Havia um silêncio", disse Caballero, que tinha acompanhado David na viagem. "O que eu lembro é do silêncio. Foi muito bonito, um momento muito intenso. Claro que todas as mulheres da aldeia, e eu, tínhamos lágrimas caindo pelo rosto".

David começou a falar com suavidade, em inglês. Ele dizia "Estou aqui, finalmente. Estou de volta. Faz tanto tempo."

De repente, as lembranças dos anos passados com a mãe na infância comaçaram a voltar num turbilhão. David ia dividindo suas lembranças, em inglês, com Caballero, que as traduzia para Jacinto, o índio que pilotara o barco, em espanhol. Jacinto, por sua vez, traduzia do espanhol para a língua dos Ianomâmi.

David não perguntou à mãe por que ela tinha partido. Yarima perguntou se todos estavam vivos, e se estavam bem, mas os dois não falaram do passado.

"Não me importa o que aconteceu. Não me interessa a polêmica, ou o que os críticos pensam. Não me importa por que ela foi embora. Os outros que especulem a respeito disso. O que me interessa agora é criar um futuro com minha mãe, minha família e o meu povo", disse.

Em outro momento de emoção intensa, o tio de David, que era líder dos Hasupuweteri no período em que o pai de David vivera na comunidade, deu ao sobrinho um nome Ianomâmi.

Image caption David e Yarima logo se reconheceram

O nome, Anyopo-weh, pode ser traduzido como "um caminho à volta de um obstàculo".

"Não foi como a situação do meu pai, que levou anos para ganhar a confiança da tribo até ser aceito".

Na verdade, a nova comunidade dos Irokaiteri já tinha planos de solidificar o lugar de David entre eles. Pouco depois do encontro com o tio, a mãe de David trouxe-lhe duas meninas jovens e bonitas.

"Esta é sua esposa e esta é sua esposa", ela disse. "Você vai ter filhos com elas". No início, David achou que o termo esposa estivesse sendo usado de maneira leve.

"Conforme passei mais tempo na aldeia, ficou evidente para mim que elas queriam seriamente ser minhas esposas".

David resistiu à insistência da mãe - e das próprias meninas - para que o casamento fosse consumado.

O objetivo de sua visita não era apenas se aproximar da mãe, mas compreender melhor o que seu pai tinha vivido na década de 1970 e 80.

Ele descobriu que, como seu pai, ele era fonte constante de divertimento para os índios.

Os Ianomâmi não têm noção de quão diferente pode ser a vida fora da floresta. Muitos interpretam a falta de habilidades práticas ou linguísticas dos brancos como burrice.

"Eu escorregava nas margens dos rios, tropeçava nas trepadeiras, batia na árvore errada e as formigas mordedoras caíam sobre a minha cabeça", contou. "Eles achavam simplemente hilariante".

Em uma visita à missão situada rio abaixo, David conectou a mãe e o pai por Skype.

"Você continua jovem e bonita", disse Kenneth Good a Yarima. "Você parece velho!", ela respondeu.

Os ianomâmi não perdem cabelo com a idade, então Yarima ficou perturbada com a calvície de Kenneth. Ele teve de correr e pegar um boné para que a conversa pudesse continuar.

Image caption David passou quatro meses na Amazônia e fez quatro visitas à mãe

David observou enquanto seu pai fazia sua mãe rir.

"Pareciam tão à vontade juntos", disse. "Ficou claro que minha mãe não queria falar do passado. Ela contou para meu pai que eu estava casado, que eu tinha duas esposas. E disse a ele que ia me pegar de volta, que eu ia ficar lá. E pediu a ele que me dissesse para não deixar minhas esposas".

David passou três meses na Amazônia, mas viajou pela região, fazendo quatro visitas à mãe. Yarima não entendia por que ele ficava indo e vindo. David não tentou explicar que estava criando uma organização sem fins lucrativos e que estava fazendo pesquisas na região.

Ele sabia que, quando partisse pela última vez, seria difícil.

"Quando você desfaz o nó da sua rede, aos olhos deles, esse é o último gesto simbólico de que você está partindo. Assim que desamarrei o nó, vieram as lágrimas."

Yarima ficou inconsolável. Parecia que ela realmente acreditava que ele se estabeleceria na aldeia para sempre.

"Vou voltar", eu disse a ela. "Infelizmente, faz dois anos, muito mais tempo do que eu gostaria."

David quer que sua organização ajude os povos indígenas a encontrar seu lugar na economia de mercado, um processo que, para ele, é inevitável.

Ele disse que indígenas que vivem em aldeas próximas das missões sofrem para encontrar sua identidade, como ele sofreu.

"Hoje, muitos Ianomâmi estão se tornando criollos, estão se tornando venezuelanos. Mas só porque falam espanhol e usam roupas ocidentais, não deixam de ser Ianomâmi."

"Quem sou eu? Sou Ianomâmi ou sou nabuh?

"Os Ianomâmi me veem como um nabuh e os nabuh me veem como Ianomâmi."

"Hoje me orgulho de ser um americano-ianomâmi, tenho orgulho da minha herança cultural. Eu amo minha mãe e anseio estar com ela novamente, aprendendo os costumes Ianomâmi."

David disse que quer criar vínculos de amizade entre a cultura Ianomâmi e o mundo lá fora - mas do ponto de vista de alguém que pertence a essa cultura.

"Não sou antropólogo, não sou político, não sou missionário. Sou um irmão e sou um filho."

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