Lucas Mendes: O festival dos festivais

O festival de cinema de Veneza, o mais antigo dos festivais, que comemora 70 anos, é "uma velha senhora que precisava de uma plástica". Quem disse isto foi o diretor do festival, certo que a partir deste ano, o festival, plastificado, vai reconquistar o prestígio perdido para Cannes, Toronto, Sundance e Berlim — enfim, qual cidade grande hoje não tem um festival de cinema?

E não precisa ser grande. O festival de Veneza acontece no Lido que tem vinte e dois mil habitantes e fica a 15 minutos de vaporetto da "Sereníssima".

Nem é preciso ter tradição de cinema. Ainda este ano, Marrakech deve ter seu 13º festival. No de Abu Dhabi, ano passado, Bill Gates compareceu e deu um plá. O de Dubai, em dezembro, planeja mais de 50 filmes com mais de quase 60 países.

Doha, no Catar, tem dois festivais: o Qumra, dedicado só ao primeiro e segundo filmes de cineastas, e o Ajyal — palavra que, em árabe, significa "gerações" —, inspirado no italiano de Giffoni, festival focado sobre os temas juventude e família e em que os jurados são milhares de jovens de todo o mundo. Já o festival de Cairo, que já teve 35 edições, neste ano de revertérios políticos, não vai rolar.

Não sei da importância destes festivais, mas nunca vi um filme se promovendo como "vencedor de Qumra". Mas onde há grana, há festival. Esta lista não traz nem a metade dos festivais no mundo. Florença vai ter 50 dias de filmes e há o prestigiado festival do Rio.

Uma de minhas diretoras ou diretores favoritos, vivos ou mortos, é a italiana Lina Wertmüller. Para minha alegria, ela está viva e disse que Veneza perdeu prestígio porque o cinema italiano não é mais aquele que produzia 250 filmes por ano. Hoje produz 25 de qualidade inferior.

Lina não estava em Veneza, mas como se não bastassem as estrelas e cineastas presentes a imprensa ainda cava gente sumida, viva ou morta. Ainda bem que a Lina está viva e a entrevista dela tinha outras histórias boas.

O nome inteiro dela é Arcangela Felice Assunta Wertmüller von Elgg Español von Braueich. Ela vem de pai plebeu e mãe suíça de origem nobre, mas se identifica como Lina Job, sobrenome do marido.

Lina era encapetada e foi expulsa de 11 escolas. Numa delas fez amizade com Flora Clarabela, que casou com Marcelo Mastroianni, de quem ficou amiga e, graças a ele, se envolveu em cinema e fez alguns filmes fantásticos.

Mas a Lina não está certa. A tradição e a produção do cinema canadense devem estar entre as menores do mundo e o festival de Toronto hoje é um dos campeões em prestígio e vendas, como o de Berlim. E o cinema alemão também não é modelo de qualidade nem quantidade, mas em Veneza um dos documentários mais esperados era o de Edgard Reitz, de cinco horas, uma história sobre irmãos na Alemanha no século 19.

O outro é do diretor Errol Morris, The Unknown Known, uma entrevista com o ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, regente das guerras do Iraque e Afeganistão. Tinha 36 horas, foi reduzido para 105 minutos e o diretor não sabe quem é Donald Rumsfeld.

O ex-secretário virou deboche no festival como candidato ao prêmio de "melhor ator".

Sophia Loren, aos 78 anos, que raramente mostra a bela cara em festivais, pintou em Veneza para prestigiar o curta The Human Voice, do filho dela, Edoardo, com Carlo Ponti. Catherine Deneuve sempre dá as caras, mesmo quando não tem filme. Linda, vai fazer 70 anos em outubro.

Este ano tem o filme Elle s'en Va, sobre a decadência de uma ex-miss. Já passou dos 100 filmes. George Clooney também é fã de Veneza e este ano trouxe o filme que abriu o festival, o futurista Gravity, com Sandra Bullock, em 3D. Ele mereceu destaque na imprensa italiana porque só saia do quarto dele tarde e ela porque saia para correr na alvorada.

Já estive em outros festivais, mas sempre vi poucos filmes. Fui a Veneza credenciado e disposto a ir ao cinema todos os dias. Vi um. A companhia dos amigos em caminhadas por Veneza teve prioridade. Os filmes vejo depois, em Nova York ou na televisão.

Assisti, de novo, a Kill Your Darlings, produzido pela minha mulher, Rose Ganguzza, e dirigido por John Krokidas, seu primeiro filme, com um elenco de famosos e ascendentes: Daniel Radcliffe, Jack Houston, Dane De Haan, Ben Foster, Elizabeth Olsen e Michael C. Hall.

A atração maior, para milhares de adolescentes, aos gritos, era Daniel Radcliffe, ex-Harry Potter. Neste filme, sobre quatro jovens com ambições literárias que gerariam os movimentos de vanguarda dos anos 60, Daniel faz o papel do poeta Allen Ginsberg, que descobre sua homossexualidade no primeiro ano na Universidade de Columbia.

As cenas mais fortes foram cortadas, mas as que ficaram mostram um lado nada mágico de Harry Potter. Eu já tinha visto e gosto muito do filme, mas a crítica do Corriere della Sera, de outros jornais italianos e ingleses superaram as expectativas.

Depois da estreia e de quase seis horas de entrevistas Daniel estava eufórico num jantar com os pais, amigos íntimos, o diretor, a crítica do Corriere e algumas pessoas da direção do festival. Daniel tinha sido bombardeado com perguntas se ele queria se livrar da imagem de Harry Potter que o transformou num jovem e famoso milionário.

Apesar de rico, Daniel, como a maioria dos bons atores ingleses, trabalha sem parar e, muitas vezes, por pouco dinheiro, como foi o caso deste filme. Já tem mais três programados para os próximos meses e nenhum plano de se livrar da imagem do mágico adolescente. "Tudo que sou hoje devo a Harry Potter".

Boa educação, bom senso e talento. Três virtudes que vão levar longe a mágica de Daniel Radcliffe.

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