Crise põe postulação de Madri para Jogos de 2020 na berlinda

Foto: AFP
Image caption Madri alega ter 80% da infraestrutura necessária aos jogos pronta

Madri tenta pela terceira vez consecutiva ser a cidade-sede dos Jogos Olímpicos, desta vez os de 2020, mas enfrenta o ceticismo daqueles que acham que os elevados gastos dos Jogos não são compatíveis com a crise no país.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) decidirá, no sábado, em Buenos Aires, entre a capital espanhola, Istambul, na Turquia, e Tóquio, no Japão.

Embora nenhuma dessas cidades esteja livre da crise econômica global, talvez seja Madri a mais associada a indicadores negativos.

Quando se trata de Jogos Olímpicos, fala-se sempre de bilhões de dólares em gastos, mas a conta exata só chega após o evento.

E surpresas não são bem-vindas em um país onde a taxa de desemprego está em torno de 26% - número que vai a 56% entre jovens com menos de 25 anos de idade, segundo o Instituto Nacional de Estatística.

Mesmo assim, a população local se mostra dividida quanto à postulação olímpica madrilenha.

Pedro Martínez, de 37 anos, trabalha limpando a cidade e é otimista. "É bom para o emprego, para a economia, para a imagem da cidade. Há três ou quatro anos as coisas estavam muito mal, mas, agora, teríamos mais oportunidades, haveria mais expectativas", disse à BBC Mundo.

Em compensação, Adrián Mazuecos, professor escolar de 27 anos, vê a nova tentativa como "uma perda de tempo e uma perda econômica".

"É uma fortuna que cria coisas que serão aproveitadas por dois meses, ou seja, é um dinheiro gasto por nada. O benefício é momentâneo", opina.

"Se realmente fosse trazer mais benefícios (do que prejuízo) valeria a pena, mas isso é dentro de sete anos, e sabendo que gastamos já o dinheiro duas vezes em tentativas anteriores e não serviu para nada, então talvez fosse melhor ter pensado mais", reflete Paula Martínez, estudante de 21 anos, enquanto toma um café com a mãe, Rocío García, desempregada de 53 anos, que acrescenta:

"Não creio que as Olimpíadas seja o melhor neste momento para a Espanha. Implica mais gastos do que qualquer outra coisa. O futuro político da prefeitura está condicionado às Olimpíadas, mas não gosto desta administração nem dos Jogos Olímpicos. Esse dinheiro deveria ser gasto para criar trabalho".

Mas Lucila Serrano, engenheira de 56 anos, afirma que Madri "merece a candidatura".

"É uma cidade que necessita de um empurrão agora. Os Jogos se traduziriam em dinheiro para Madri, seria movimentado muito dinheiro, novas instalações, calçamento. O sonho que (os Jogos) geram faz com que as coisas se movam", opina, sentada num cabeleireiro.

Custos crescentes

Nos mais recentes Jogos, Londres 2012, os custos quase triplicaram desde o chamado "bid olímpico", a proposta da cidade para sediar a competição, até a realização do evento.

Os jogos de Montreal (1976) geraram uma dívida que levou 30 anos para ser paga. Na Grécia, muitos veem a Olimpíada de Atenas (2004) como uma das causas do colapso econômico grego.

No Brasil, a proposta inicial na candidatura olímpica era de R$ 28,8 bilhões em investimentos, número que já foi batido - a imprensa brasileira estima, com base em dados do governo, que esteja em R$ 29,2 bilhões, com perspectiva de aumento, a três anos do início da competição.

Madri teria gastado US$ 12,88 bilhões em obras de infraestrutura desde que apresentou, em setembro de 2011, a candidatura à Olimpíada de 2020.

A cidade diz que 80% da infraestrutura para os Jogos está pronta, e que faltaria construir o estádio olímpico, a vila olímpica, um canal aquático para a realização das provas de remo e os centros para ginástica e tiro, com custos estimados em US$ 2 bilhões.

Madri lidera entre os municípios mais endividados da Espanha.

'Compensa'

Mesmo assim, muitos acreditam que os Jogos podem ajudar na recuperação econômica da capital espanhola.

"Compensa, com a arrecadação de impostos", explica Ferran Brunet, professor de Economia Aplicada da Universidade Autônoma de Barcelona, que fez estudos sobre o impacto econômico dos Jogos Olímpicos (o mais recente, em março de 2013).

"Os custos dos Jogos Olímpicos em relação ao endividamento de Madri são muito pequenos. E quando os jogos forem realizados, provavelmente, não estaremos mais em um contexto de crise".

Além disso, a Espanha protagonizou um raro caso de exemplo de cidade que obteve grandes benefícios como cidade-sede. Os Jogos de 1992 em Barcelona geraram um lucro de US$ 13,131 bilhões, um valor astronômico para a época e que resultou em uma transformação total da cidade.

Eloy Serrano, professor de economia da mesma universidade de Barcelona, argumenta que aqueles Jogos quebraram o padrão de gastos altos e benefícios duvidosos.

"Concluímos que os Jogos de Barcelona foram de fato excepcionais em comparação à maioria dos grandes eventos esportivos", diz, lembrando que o segredo do sucesso foi o investimento em infraestrutura e modernização. "Se centrarmos somente em construção, vamos mal", alerta.

O orçamento dos custos de candidatura também foi visto como um triunfo — custou metade da candidatura do Rio, estimada em US$ 49,6 milhões.

E os US$ 3 bilhões a serem destinados ao comitê realizador seriam cobertos com venda de licença para TV, entradas e patrocínio privado, segundo a proposta da capital.

Notícias relacionadas