‘Privilégio de ser homem’: A história de um transexual paquistanês em Londres

  • 8 setembro 2013
Sabah Choudrey na Trans Pride 2013 | Foto: arquivo pessoal
Sabah Choudrey (à dir.) iniciou tratamento para mudança do gênero feminino para o masculino há três anos

Crescer como uma menina que se sente como um menino é algo desafiador para qualquer um, em qualquer lugar do mundo. Mas diferentes culturas podem responder de maneiras surpreendentes.

Sabah Choudrey, de 23 anos, ganhou destaque recentemente por organizar uma das primeiras paradas da Grã-Bretanha exclusivamente para transexuais, a Trans Pride, na cidade de Brighton, no sul do país.

O jovem britânico, que nasceu biologicamente como uma menina, no oeste de Londres, tem avós paquistaneses. Os pais nasceram no Reino Unido, mas mantêm os valores de origem.

Em entrevista à BBC Brasil, ele conta que após a adolescência se identificou como lésbica, e viveu três anos assim, e que ao "sair do armário" encontrou bastante resistência da família, que teve dificuldades em lidar com sua orientação sexual.

"As lembranças da época em que saí do armário são nebulosas e distantes. Foi difícil, mas eu tento esquecer as primeiras conversas, os sentimentos iniciais, as coisas que foram ditas. Nem gosto de lembrar", diz.

Sabah, que tem uma irmã gêmea, era uma menina introspectiva e gordinha. Nunca foi alvo de bullying, mas também não estava entre as crianças mais populares da escola. Passou a maior parte da infância lendo livros e lidando com a vontade de ser um menino. Muitas vezes chegou a pensar que não haveria solução, mas manteve o dilema para si, por temer a reação da família.

"Eu acho que a maneira com a qual meus pais foram criados definitivamente impactou suas visões sobre gênero e sexualidade, simplesmente porque era um assunto que jamais foi explorado em sua educação e criação. A cultura do sul da Ásia é assim", explica.

Três anos atrás, após tomar a decisão de começar o tratamento para a mudança de sexo, no entanto, teve que enfrentar uma segunda "saída do armário", mas desta vez a notícia foi recebida com muito mais tranquilidade.

'Privilégio de ser homem'

Sabah conta que ao contrário do que ocorreu com sua primeira revelação, quando disse que passaria a se relacionar com outras mulheres, ao explicar aos pais que tinha decidido mudar de sexo a reação foi positiva.

"Na cultura paquistanesa há muito preconceito contra os transexuais que mudam do gênero masculino para o feminino, já que ser homem é visto como um grande privilégio. Na verdade para eles ser homem é a melhor coisa que pode acontecer na vida de uma pessoa, então abrir mão disso para se tornar uma mulher simplesmente não faz sentido. Eu acho que é por isso que não senti preconceito da minha família quanto à essa decisão", diz.

Mesmo assim, Sabah também teve que lidar com a reação das amigas lésbicas. Algumas viram sua decisão de tornar-se um homem como uma espécie de traição, mas aos poucos aprenderam a aceitar a novidade. Morando em Brighton desde que saiu da casa dos pais, ele diz que não foi fácil enfrentar a comunidade local.

"Para mim, pessoalmente, foi mais difícil pelo fato de eu ser do sul da Ásia e nunca ter conhecido outra pessoa transexual do sul da Ásia em Brighton. Eu acho que também não há muitas lésbicas do sul da Ásia na região. É uma área predominantemente ocidental, e eu tive que enfrentar, superar mesmo, os dois estereótipos".

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Sabah acredita que a comunidade transexual ainda lida com muitas das questões e preconceitos que os gays tiveram que enfrentar nos anos 1970, sobretudo os estereótipos negativos e a rejeição da sociedade, que nega sua entrada no mercado de trabalho e outras áreas onde os homossexuais já trafegam com mais liberdade.

"Eu espero que este evento aumente nossa visibilidade, mostrando às pessoas que somos uma comunidade, e não um fetiche, um caso médico, ou algum tipo de aberração. A história dos transexuais é bastante obscura, e não vem tendo tantos progressos como a história dos gays", diz.

Stephanie Scott, que também participou da organização do evento, explica que os transexuais sofrem preconceito e são vítimas de ataques não só da sociedade em geral, mas até mesmo por parte de homossexuais.

"Eu mesma já sofri ataques em locais supostamente LGBT e em eventos de orgulho gay, e achei que já era hora de os transexuais terem um espaço para celebrar suas vidas com seus amigos, parceiros e companheiros", conta.

Para Sabah, o evento também é uma comemoração de uma intensa trajetória pessoal, permeada de traumas e dificuldades - sobretudo com relação à família.

"Agora eles veem que eu estou feliz e que na verdade podem até ter orgulho de mim", diz.

Com informações de Karen Millington, da BBC News

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