Prisões e tumulto no Rio marcam protestos de 7 de Setembro

Protesto no Rio | Foto: Julia Carneiro
Image caption Bombas de gás foram lançadas próximo às arquibancadas no Rio (Foto: Júlia Carneiro)

Ao menos oito pessoas foram presas e seis ficaram feridas na manhã deste sábado no Rio de Janeiro em meio aos protestos previstos para coincidir com os desfiles de 7 de Setembro. Há confrontos isolados com a polícia na capital fluminense, incluindo feridos, mas os desfiles na cidade e em várias outras capitais brasileiras prosseguem, apesar das manifestações.

Por telefone, a Polícia Militar fluminense limitou-se a confirmar os números à BBC Brasil, sem revelar quantos já haviam sido liberados. O número de feridos foi confirmado pelo Corpo de Bombeiros.

Em meio a um forte esquema de segurança nacional, com grandes contingentes de policiais e militares em Brasília e em outras capitais, a manhã do Dia da Independência também registra protestos em São Paulo, Recife e Belo Horizonte, dentre outras cidades. Em Porto Alegre houve prisões e agências bancárias foram depredadas. No Rio Grande do Norte também houve confusão.

Em Brasília a Polícia Militar estimou em 3 mil o número de pessoas que marcharam rumo ao Congresso durante a manhã. A multidão se dispersou por volta do meio dia, mas, muitos permanecem no gramado. Mais protestos são esperados à tarde, quando a Seleção Brasileira joga contra a Austrália no Estádio Mané Garrincha.

O maior tumulto ocorreu no Rio, quando um grupo de manifestantes do grupo Black Bloc invadiu uma das faixas da avenida Presidente Vargas, onde ocorrem os desfiles cívicos, informa Júlia Carneiro, repórter da BBC Brasil que acompanha os protestos.

Ela explica que a PM cobrou que os manifestantes retirassem as máscaras e que os policiais impediram o acesso do grupo à avenida ainda antes das 9h. Minutos depois os manifestantes deram a volta e conseguiram chegar ao local.

Um grupo pequeno da tropa de choque, com cerca de 15 homens, chegou por trás dos manifestantes, sob aplausos de algumas das pessoas que assistiam ao desfile nas arquibancadas.

Image caption A empregada doméstica Josefa Costa da Silva, de 63 anos, passou mal com as bombas de gás lacrimogêno

Pouco depois os policiais lançaram bombas de gás lacrimogêneo para dispersar o grupo, atingindo também alguns dos espectadores.

Desespero

Houve corre-corre e confusão, e famílias e crianças saíram correndo do local desesperadas.

A empregada doméstica Josefa Costa da Silva, de 63 anos, veio assistir ao desfile e passou mal após inalar gás lacrimogêneo.

Com taquicardia, teve que ser atendida por paramédicos."Nunca pensei que fosse passar por isso. Ai meu Deus, um país tão bonito quanto o nosso..." disse a idosa à BBC Brasil, ainda muito nervosa, pouco antes de começar a chorar.

Embora a ação da tropa da choque e o embate com os manifestantes do Black Bloc tenham causado tumulto, o desfile cívico ignorou completamente a confusão e seguiu em formação, explica Julia Carneiro.

Revistas e máscaras

Um dos oito detidos no Rio portava um estilingue e um "desfragmentador" para uso de maconha, afirma a Polícia Militar fluminense. Policiais revistaram mochilas de manifestantes e detiveram alguns por uso de máscaras, até que se identificassem.

Uma manifestante ficou ferida na cabeça, mas não há detalhes sobre o que causou o ferimento.

Image caption Manifestantes mascarados usaram fogos de artifício durante protesto no centro do Rio de Janeiro

Imagens da Globo News mostraram os militares desviando a confusão enquanto prosseguiam o desfile, passando ao lado dos manifestantes.

O tenente-coronel Mauro Andrade, comandante do Grupamento de Policiamento de Proximidade em Multidões (GPPM), disse mais cedo ao jornal O Globo que não há proibição ao uso de máscaras, mas que quem estiver com o rosto coberto será levado à delegacia e e liberado após identificação e checagem de informações.

Em São Paulo as comemorações oficiais ocorreram no sambódromo do Anhembi, enquanto o Grito dos Excluídos promove um protesto na praça Oswaldo Cruz, no bairro do Paraíso, sem confrontos com a polícia.

A presidente Dilma Rousseff abriu o desfile cívico em Brasília, que também registra protestos isolados em diferentes pontos. O Correio Braziliense divulgou imagens de policiais fotografando manifestantes e anotando seus nomes.

Protestos e reforço de segurança

Image caption Uma manifestante não identificada ficou ferida na cabeça durante confronto com a PM no Rio

O Dia da Independência chega quase três meses após a onda de protestos que tomou as ruas do país. No Facebook, a convocação do grupo Anonymous para o autodenominado "maior protesto da história do Brasil" tinha mais de 400 mil confirmações para eventos em 149 cidades até sexta-feira, ainda que isso não necessariamente reflita o número de pessoas que estarão nas ruas.

Outros grupos, como o Grito dos Excluídos e o Movimento Brasil Contra a Corrupção, também convocaram protestos em quase todos os Estados.

Previa-se que o uso de máscaras fosse um dos pontos polêmicos durante as manifestações. Diferentes Estados criaram regras distintas sobre o assunto. No Distrito Federal, manifestantes mascarados que não quiserem se identificar serão detidos. Pernambuco também proibiu que os manifestantes cubram o rosto. Já em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin disse que não há orientação nenhuma à Polícia Militar para abordar pessoas com máscaras.

"Não tem nada que proíba o fato de a pessoa estar usando máscara ou não estar usando máscara. O que não pode é a depredação do patrimônio público ou privado", disse o governador na sexta-feira.

No Rio de Janeiro, o governo voltou atrás e decidiu permitir o uso de máscaras, mas os policiais fluminenses poderão pedir às pessoas que descubram o rosto e se identifiquem.

Image caption O cantor Caetano Veloso se mostrou a favor do uso de máscaras e criticou governo do Rio de Janeiro

Na opinião do cientista político Paulo Baía, da UFRJ, que tem acompanhado a onda de protestos, as manifestações deste sábado não devem levar às ruas um número tão grande de pessoas quanto levaram em junho, mas contarão com o apoio da maioria das pessoas em casa.

"As pessoas estão com medo da polícia e dos manifestantes que agem com violência. E não há um catalisador que estimule sua ida às ruas (como foi o aumento do preço das passagens)", diz Baía à BBC Brasil. "Mas há um sentimento entre a população de querer ser mais bem tratada, respeitada pelas instituições e participar dos processos decisórios."

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