Crise síria faz EUA assumirem papel de polícia do mundo

  • 8 setembro 2013
Síria
Image caption EUA dizem que não se pode ficar impassível observando o conflito na Síria

Barack Obama tenta a todo custo convencer o Congresso americano a aprovar uma intervenção na Síria. O presidente diz que o voto dos parlamentares é vital para a credibilidade dos Estados Unidos perante o mundo.

A decisão de atacar vem na esteira da declaração feita por Obama meses atrás, garantindo que usaria a força se o regime de Bashar al-Assad cruzasse a “linha vermelha”, no caso, se usasse armas químicas.

A grande pergunta, no entanto, está nos detalhes do debate sobre uma internvenção na Síria. Essencialmente, a questão é se o mundo precisa de uma polícia e se os Estados Unidos deveriam simplesmente assumir esse papel.

Obama, assim como o ex-presidente Bush, tem dois grandes argumentos. O primeiro é o interesse nacional. Obama afirma que a Síria não é uma ameaça imediata aos Estados Unidos, mas sim aos países aliados e às bases americanas na região, caso Assad use armas químicas.

Os Estados Unidos também temem que armas possam cair nas mãos de terroristas, que poderiam usá-las contra os americanos.

Uma coisa é óbvia: quanto mais poderosa for uma potência, será mais provável que ela tenha de se preocupar com crises em territórios distantes de casa. No caso, trata-se do Oriente Médio, mas não seria diferente se fosse no Paraguai ou na Letônia.

Relutante intervenção

Image caption A Rússia não quer uma intervenção. Outros países, inclusive aliados, também são relutantes

Se o argumento do interesse nacional é muito claro, a ideia de intervir por “razões morais” é muito mais obscura. Esse é o segundo argumento.

Obama e o secretário de Estado, John Kerry, têm dito que o mundo não pode ficar parado assistindo tamanho sofrimento.

Nota-se que são americanos, franceses e britânicos os que defendem o argumento de um intevencionismo liberalizante. Mas não são apenas os russos os que são contra. A China também não concorda.

Acadêmicos e o cidadão comum acham desconcertante o fato de os Estados Unidos querem impor os seus valores ao resto do mundo.

A China reafirma com frequência que quer o fim do programa nuclear da Coreia do Norte, ainda assim é relutante em forçar uma solução.

E não são apenas russos e chineses que pensam assim. É raro ouvir vozes a favor de uma intervenção militar vindas da Índia ou do Brasil, da Nigéria ou do Japão.

Países na vizinhança do Oriente Médio podem até querer que alguém tome uma atitude, mas eles mesmos são relutantes com a ideia de tomarem essa dianteira.

Legitimidade

Image caption Inspetores da ONU investigam possível uso de armas químicas, a 'linha vermelha' dita por Obama

Um país com a função de polícia poderia até ter alguma autoridade moral se não tivesse sido, no passado, uma potência imperialista. Ou se não for os Estados Unidos que, apesar de nunca terem tido um império, já deixaram suas pegadas em boa parte do mundo.

Eu perguntei ao ex-primeiro ministro britânico Tony Blair, um dos líderes da intervenção no Iraque em 2003, se o ataque ao território iraquiano não teria mais legitimidade se fosse liderado na época pela Suécia. Ele foi certeiro na resposta.

“Bem… eles (suecos) não conseguiriam fazer isso. Conseguiriam?”, disse.

A questão é que os britânicos formaram suas forças armadas para defender um antigo império ao redor do mundo. Já os Estados Unidos se desenvolveram militarmente primeiro para atuar na Europa e, no pós-guerra, para confrontar seu antigo inimigo, a União Soviética.

Se a proposta original desse aparato já não existe, o instinto de intervenção permanece vivo.

Tarefa americana

Image caption A possibilidade de uma nova guerra não conta com o respaldo de boa parte da opinião pública mundial

Talvez o termo “imperialismo” o faça pensar em coisas como: “isso tem a ver com petróleo”. Mas os antigos imperialistas vitorianos realmente pensavam que estavam levando a outros povos a civilização e o cristianismo, a ordem e o estado de direito àqueles que não conseguiriam chegar a tal ponto sozinhos.

A crença dos Estados Unidos na sua missão é mais universal e não é inspirada em valores raciais. Ainda assim, há um entusiasmo similiar, o de refazer o mundo à sua própria imagem.

Claro que lutar contra o horror das armas químicas não é a mesma coisa que introduzir a democracia com a força de um rifle.

Mesmo assim, emerge a questão sobre quem tem a autoridade para julgar se normas internacionais foram violadas e quem decide qual será a punição.

A ONU é em tese o órgão que pode ordenar que a “polícia global” entre em ação. Diante da relutância da Rússia em aprovar uma intervenção contra a Síria (os russos têm direito de veto no Conselho de Segurança), os americanos dizem que a ONU não está funcionando.

Mesmo que a posição russa possa parecer cínica, a posição dos Estados Unidos parece a de um promotor que diz que o sistema não funciona apenas porque o juri acolheu a sua acusação.

Obama sabe como uma intervenção repercutiria no mundo. Pela mesma razão ele relutou em liderar a operação na Líbia. Isso também explica a lentidão diante da crise na Síria.

Mas agora Obama decidiu. Mesmo que nenhum outro país (com exceção da França, que já deu seu apoio aos americanos) apoie a intervenção, essa é uma tarefa que os Estados Unidos têm de desempenhar. Pouca gente nos Estados Unidos no resto do mundo concorda com ele, mas ninguém tem outra opção sobre a mesa.

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