A proposta da Rússia pode salvar Obama?

  • 9 setembro 2013
John Kerry | Foto: Reuters
Image caption O secretario de Estado americano comentou possibilidade de acordo antes da Rússia

A ideia russa para se livrar das armas químicas da Síria provavelmente enfraquece a mão já fraca do presidente americano Barack Obama e deixa a Casa Branca em uma espécie de dilema.

No entanto, há uma pequena chance de que a Rússia salve a pele dos Estados Unidos.

Devo admitir que quando vi a resposta rápida da Rússia às ideias do secretário de Estado americano John Kerry sobre tal acordo, passou pela minha cabeça que isso tivesse sido combinado anteriormente.

Se os sírios recuassem rapidamente, isso aliviaria o presidente Obama de uma votação que será bastante complicada para ele.

Mas se esse movimento for coreografado, há excelentes atores na Casa Branca e no Departamento de Estado, que parecem não estar impressionados pela Rússia.

No Departamento, as autoridades parecem cínicas a respeito do plano russo: "Levantar essa bola e transformá-la em algo que nunca teve a intenção de ser é, francamente, um exemplo de mais uma tática paralisadora."

Na Casa Branca dizem que irão "analisar com atenção" a ideia, mas ressaltam que o histórico de Assad sugere que ele não é confiável. Argumenta-se que só a ameaça de uso da força pelos Estados Unidos causou uma resposta, o que justificaria um voto pelo "sim" à ação militar.

Faz algum sentido, mas suspeito que muitos mais no Congresso - que não querem uma ação militar de jeito nenhum - tomarão esse vislumbre de esperança como uma razão para votar "não".

Se a Casa Branca baseou toda sua argumentação no senso comum, não há nada mais senso comum do que fazer com que as armas químicas estejam além do alcance e evitar seu uso. Isso fará com que outros países sejam ainda mais a favor do caminho das Nações Unidas.

É um desvio no processo de "vender" o argumento a favor da ação militar, outra questão para impedir que Obama desenvolva uma argumentação sólida. Se a ação for adiada, isso vai incomodar os senadores que querem uma intervenção maior para causar uma mudança de regime, mesmo que isso agora seja chamado de "reduzir as vantagens".

A situação traz à tona ainda mais memórias do Iraque - a habilidade de regimes para jogar com os inspetores de armas e os Estados Unidos usarem isso como um motivo para agir.

John Kerry estava "pensando alto" quando disse imaginar algumas circunstâncias nas quais poderia haver o envio de soldados à Síria. Isso está sendo chamado de "declaração retórica" por sua equipe.

Eu não gosto quando políticos são forçados a falar em frases diretas e limitadas, mas dá para ver por que seus diretores de comunicação não pensam o mesmo.

Muitos no mundo podem achar que hoje é um dia de esperança, mas eu suspeito que esse não é o clima na Casa Branca.

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