Quão viável é a proposta da Rússia para a Síria?

  • 10 setembro 2013
Inspetores da ONU visitam Damasco | Foto: Reuters
Image caption Plano da Rússia faria com que inspetores da ONU visitassem novamente a Síria

A Rússia fez uma proposta para evitar uma ação militar na Síria - pediu ao governo sírio que coloque seu arsenal de armas químicas sob controle internacional e o destrua. Mas quão viável é esse plano?

O caminho diplomático para controlar e destruir o arsenal químico da Síria não seria fácil.

Primeiro, o governo sírio teria que confirmar que de fato tem armas químicas, algo que se recusou a fazer por décadas - exceto por um comentário não intencional feito por um porta-voz do governo.

Em seguida, Damasco teria que identificar exatamente quais e em que quantidades os químicos estariam armazenados e qual a sua localização. Tal declaração teria que ser verificada, provavelmente por inspetores da ONU, que iriam até lá para confirmar se as afirmações do governo corresponderiam ao que se encontrou no país.

Mesmo assim, o debate continuaria sobre se a lista de químicos fornecida pelo governo estaria completa e se o governo ainda estaria escondendo parte do seu arsenal.

Lembre-se das muitas visitas feitas ao Iraque por inspetores de armamentos da ONU durante um período de mais de dez anos, e dos argumentos usados antes da invasão americana em 2003.

Em segundo lugar, é difícil saber como essa iniciativa decolaria sem a aprovação do Conselho de Segurança da ONU - o mesmo que durante três anos falhou repetidas vezes em chegar a um consenso sobre resoluções a respeito da Síria.

Seria preciso redigir um pedido formal para que a Síria levasse seu arsenal a um local onde pudesse ser armazenado com segurança e destruído. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, já indicou que está pensando em falar com o Conselho de Segurança sobre o assunto.

Image caption Ministro russo afirmou que ideia para o plano surgiu de comentário do secretário de Estado americano

Mas o rascunho de qualquer resolução poderia facilmente afundar em discussões sobre os termos e a linguagem usada. O ministro das Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, alertou para o fato de que qualquer resolução do Conselho de Segurança precisaria impôr condições duras, com um prazo curto para que fossem cumpridas e um alerta de consequências severas caso não fosse implementada.

Mas a Rússia concordaria com isso? Não da maneira como está sendo feito atualmente.

Tática paralisadora?

Em terceiro lugar, mesmo que esses obstáculos fossem vencidos, os problemas práticos de enviar inspetores da ONU em um país em meio a uma guerra civil também teriam que ser superados.

Será que todos os lados do conflito seriam convencidos a concordar com um cessar-fogo para permitir que os funcionários da ONU tivessem acesso ao arsenal para fazer o seu trabalho? Será que as promessas para garantir a segurança de inspetores internacionais em partes do país onde nenhum grupo tem controle realmente significariam alguma coisa?

Tentativas anteriores de tréguas para permitir que agências humanitárias entrassem no país para ajudar os feridos e refugiados não se concretizaram. Conseguir um acordo sobre esse assunto seria ainda mais difícil.

Então, considerando todos esses obstáculos, há alguma chance de que essa iniciativa consiga sair do papel?

A proposta pareceu ter aparecido do nada. O próprio ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, admitiu que a ideia surgiu de um comentário improvisado do secretário de Estado americano, John Kerry, que foi levada ao ministro das Relações Exteriores sírio no mesmo dia.

É possível que tanto os russos quando os sírios encarem a proposta como uma tática paralisadora para tentar adiar uma ação militar americana ou sabotar o já frágil apoio público a um ataque.

No entanto, o plano não foi rejeitado por Washington e o presidente Barack Obama chegou a dizer que era um "potencial avanço". Ele também revelou em uma entrevista que discutiu na semana passada a ideia de pôr o arsenal químico na Síria sob controle internacional com o presidente russo Vladimir Putin.

Autoridades americanas dizem estar preparadas para considerar a oferta - caso ela seja verdadeira -, mas ao mesmo tempo pedem que o Congresso aprove a ação militar, argumentando que é a única maneira de pressionar o regime de Assad.

Internacionalmente, todos os lados do conflito parecem concordar que se o governo sírio fosse convencido a abrir mão de suas armas químicas, seria um passo importante.

E todos os lados querem passar a impressão de estarem encorajando uma solução pacífica para o conflito, mesmo que haja somente uma pequena chance de que essa seja a melhor maneira de fazê-lo.

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